domingo, dezembro 11, 2005

Esta é uma história verdadeira.

Adriane Lebowski era uma garota como qualquer outra: jovem, única, apaixonante e inexplicável. Ela sabia aproveitar ao máximo os prazeres da vida. No seu caso específico isso significava a bebida, o sexo, as artes e a música.

Especialmente a música.

Já tinha ouvido de tudo, mas tinha predileção acentuada pelo chamado rock progressivo. Yes, Gênesis, Pink Floyd e congêneres representavam para ela o supra-sumo musical do século 20.
Então, numa madrugada dessas, Adriane estava em um fim de festa. Muita fumaça, garrafas, álcool e suor. Boa parte do pessoal já tinha ido embora, e os que ficaram estavam desmaiados pelo apartamento. Ela ronronava quentinha sobre seu adormecido namorado da vez, quando ouviu a música. Algo estranho e indefinível, totalmente inédito, meio progressivo. Melódico, porém simples. Aparentemente muito antigo e, paradoxalmente, contemporâneo. E, de certo modo, familiar. O vocal era etéreo e profundo, o instrumental era característico dos anos 70, mas com algo diferente. Curiosa, ela perguntou ao amigo dono da fita qual era a banda. Ele não soube responder. A banda não tinha nome e não tinha origem. A fita, sem identificação alguma, tinha sido encontrada no bagageiro de um trem, na Patagônia, um ano atrás.

Adriane emprestou a fita de seu amigo e esqueceu de devolver. Ela ouviu a gravação durante dias, inúmeras vezes, cada vez mais fascinada. Mostrou a amigos que eram verdadeiros experts em músicas alternativas e obscuras (o tipo de gente estranha que você não acreditaria que existe). Nenhum deles jamais ouvira algo parecido e não faziam a menor idéia de quem poderia ter gravado as nove canções. Alguns afirmaram que o idioma cantado era familiar, mas não era inglês ou alemão ou qualquer outra língua que conhecessem.

Ela se tornou obcecada. Nomes, produtores, datas. Adriane precisava dessas informações e a única coisa que tinha era a fita. Foi até uma rádio especializada em rock e mostrou a gravação. Ninguém soube identificar, mas convidaram a moça para participar de um programa muito popular. Ela foi ao ar naquela noite e tocou algumas faixas da fita ao vivo. Depois perguntou se algum dos ouvintes saberia identificar a banda. Os poucos telefonemas deram respostas erradas e diversas. Tudo totalmente inútil.

Três dias depois, após as aulas, ela esperava o ônibus de sempre no ponto de sempre. Vinda de uma janela, em um sobrado logo em frente ao ponto, a música a surpreendeu e a fez estremecer. Uma das músicas da fita. Ela tocou a campainha uma, duas, três vezes. Ninguém atendeu. Então ela arrombou e entrou. Ignorou a mobília, os livros, a desordem, enquanto subia os degraus ruidosos de madeira. Uma atmosfera antiga, de sonho. Logo encontrou o quarto. Posters, livros, revistas e um cadáver ainda quente sobre a cama. O corpo quase tirou a atenção de Adriane do toca-discos e a capa de papelão ao seu lado. Uma capa sem nenhuma impressão sequer, além dos desgastes de anos de manuseio.

Mas ali, girando e girando, estava o disco com as músicas da fita. No centro do disco havia um rótulo amarelado e muito desgastado. E no rótulo, havia algo escrito. Nervosa, ela ergueu a agulha e a música silenciou de repente. Um silêncio sólido que pulsava em suas têmporas. Tomou o disco, trêmula, e leu em um adesivo amarelado:

“Não nos procure. Quando estiver pronta, nós encontraremos você.”

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