segunda-feira, janeiro 30, 2006

Cartografia Noturna

Loucura.
Loucura escrita em letras bem vermelhinhas no asfalto molhado da madrugada
A Rua Vazia, vazia de doer, tão longa que parece que não vai terminar nunca
Sob os pés o vidro estilhaçado
os rostos que se tornaram pálidos reflexos nas poças d´água mais escura
A garoa descendo linda pela luz amarela dos postes
O silêncio zunindo, denso, gelado
Frio
Feito animal, caminhando lentamente

como se flutuasse

Qual é a minha voz?
O que faz de mim o que eu sou?
O que eu penso me define?
O que eu sinto me define?
Buscar a si mesmo como quem busca um lugar, como quem procura mapear uma terra imensa. Colocar no papel tudo aquilo que não pode ser visto em sua totalidade. Tentar compreender limites que podem jamais ser alcançados.
Mapear possibilidades.
Ser um produto, dentro de uma belissimamente desenhada embalagem, entre as outras da prateleira, sem identidade, sem unicidade. Pré-definido. Pré-determinado.
Ser uma surpresa na embalagem, o vale-brinde premiado, o produto vencido, o erro de fabricação cancerígeno.
Ser um milagre.
único
Irreproduzível.
Qual é a minha voz?
A incerteza?
A raiva?
O medo?

Não há um final à vista
sussurro na escuridão
Siga em frente, jovem
Rumo ao futuro
E o que quer que venha depois
Sem hesitar
Sem medo
Sem remorso

sem escolha

Porque agora é madrugada e os sonhos e arquétipos e demônios e espíritos e legiões inteiras caminham pela mesma Rua Vazia, cada um só, caminhando terrivelmente só, ouvindo seu próprio silêncio, fitando os infinitos reflexos da própria Vida no asfalto molhado de uma rua que parece que não vai terminar nunca.

Um comentário:

Edna Marta disse...

como disse um amigo meu, a respeito do teu blog: cool, deep and sad..
That's all folks!