segunda-feira, janeiro 02, 2006

O Gatinho

Então.
Eu estava no carro com o Tex, eram umas onze da noite, a gente ia pro Winchester, tinha uma garoa fria e paramos no sinal vermelho, ali na esquina do Castelinho do Batel. Daí veio aquele menino, devia ter uns sete, oito anos, umas tintas vagabundas no rosto que pretendiam ser uma maquiagem de palhaço. E esse menino saiu de algum lugar, parou diante dos carros, debaixo da chuva, e começou a fazer malabarismo, um número rápido, que deu tempo pra ele ir de janela em janela pedindo um trocado. Um menino, uma criança, pintada feito um palhaço, fazendo macaquices diante de um bando de burgueses filhos da puta às onze da noite de uma sexta chuvosa nesta cidade nojenta. Nunca vi um atentado, uma afronta tão grande à dignidade da raça humana como um todo. Ignoramos e fomos beber.
Você está comovido?
Sente-se perturbado?

Ok. Vamos mudar o cenário.

Era um domingo de tarde, eu voltei da casa de meus pais. Estava sozinho no meu apartamento, assistindo um filme legal, quando ouvi os miados. Miado de gato, gatinho pequeno, filhote abandonado. Aquele miado agudo, desamparado. Começava e parava. E eu não consegui assistir o filme. Fiquei pensando no bichano. Olhei pra varanda e pensei que podia forrá-la com jornal, arranjar uma caixa de papelão, um pires de leite. Não. Isso vai me dar dor de cabeça. Começa o filme de novo. O gato começa a miar de novo. Incomoda, me incomoda de um jeito que você não pode imaginar. Desço pra procurar o bichano. Ele para de miar. Não consigo encontrá-lo. Procuro no terreno baldio, no parque ao lado dos taxistas. Nada. Volto pro apartamento, dou play no filme. Filme termina, entro na internet, vejo umas porcarias, blogs, foto de mulher pelada. O gato começa a miar de novo.

Dolorosamente.

Faço a janta. 10 da noite. Não poderia ter um animal aqui. A quitinete é muito pequena. Tenho livros, revistas, gibis, cds, dvds e outras tranqueiras que eu não quero ver detonadas por um animal. E não seria justo com o bichano. Viver enclausurado aqui. Não seria justo comigo ter de limpar a sua merda, levá-lo ao veterinário, pagar sua esterilização, remédios, anti-pulgas. Esqueça. Janto, assisto a entrevista do Lula, o gato mia. Vou dormir.

E

ele

continua

miando.

É óbvio que, quando acordo, não demora muito pra ouvir os miados de novo. Tomo café, pego meu material, desço, vou para o terminal. Ouço os miados e o procuro. E daí eu percebo que ele está em algum lugar bem lá no alto da copa das árvores. Não consigo vê-lo, não dá pra alcançá-lo. Subiu lá de algum jeito e vai morrer lá em cima. Não vou subir pra pegá-lo, ia ser trabalho demais por um bicho idiota. Ele vai morrer lá em cima. Pele purulenta e osso, olhos de vidro, barriga cheia de vermes.
Tiro o dia pra fazer minhas coisas, ver um emprego novo, devolver o dvd, pegar o resultado do exame de sangue. No meio da tarde uma tempestade de verão com granizo. De noite, saída com os amigos pra falar do futuro, do ano do Cachorro, das minhas Grandes Esperanças pra 2006. Volto bêbado e feliz e decido escrever pro blog que ninguém lê. O gato está miando. Vai morrer lá em cima. Molhado, faminto e assustado, sem jamais entender o que aconteceu, sem entender que ninguém vai se dar ao trabalho de subir lá pra pegá-lo, que ele não vale o esforço, que isso não aconteceria se ele não tivesse sido estúpido de subir lá, se ele não tivesse nascido. Vai morrer e não vai fazer diferença nenhuma pra mim nem pra você. Mas enquanto ele não morre, eu tenho que ouvi-lo e suportar o impulso de fazer algo que depois só vai me dar dor de cabeça.

Sabe o garoto do começo do texto?
Pois é...

Chove.
Eu estou na minha cama.
Lá fora, ele mia.

3 comentários:

racg68 disse...

JÁ NÃO ERA SEM TEMPO!

Viva, uma postagem nova!
Eu não me chamo ninguém e leio seu blog.
Seu blog é muito legal, só acho que merecia um visual um pouquinho mais transado.
Gostei da história do gatinho, tanto que vou por uma no meu blog ainda hoje. Passa lá depois e dá uma lida.
Continue assim e não deixe seus leitores tanto tempo sem uma postagem!

Edna Marta disse...

Liber, eu li sim!
Q texto, hein, meu?
Show de bola!
Mas coitadinho do bichano...qto ao menino, ele deve ter pai e mãe...
Beijocas
Edna

racg68 disse...

...escrever pro blog que ninguém lê

Para quem tava reclamendo de nenhuma audiência, você tem dois leitores que se manifestam. Não se menosprese tanto!