sábado, janeiro 21, 2006

Uroborus

Eu morro de vontade de ligar pra menina, fico fissurado mesmo. E eu não sei se quero falar com ela ou se simplesmente só não quero ficar sozinho. Vem essa fissura, essa ansiedade louca, e eu tenho que falar com ela.
Ah, me liga, vai. Só pra que ouvir a tua voz, ouvir tua risada. Ouvir o teu silêncio. Porque quando tenho a tua atenção as coisas ficam mais claras. Porque eu não sei nada, só sinto e não sei o que sinto. Algo que me chacoalha, que me move e faz tudo parecer ter um sentido. Por sua causa.
E é assim que começa. Mãozinhas dadas, um silêncio gostoso, olhos nos olhos.
Ele pensa “finalmente encontrei alguém que me entende”.
Ela pensa “eu vou conseguir mudá-lo”.

Elementos que se repetem. Padrões. Grandes Esperanças, Encontros e Desencontros, Corações Partidos. Naipes de um baralho. Uma mente que devora a si mesma, incapaz de perceber o círculo.

A vida não pode ser só isso.

Quando eu tinha quinze anos me apaixonava toda semana por uma guria do tipo alternativa, uma “indie”, mocinha linda, inteligente, alegre, cheia de sacadas geniais e problemas existenciais. Uma psycho chicken. Invariavelmente os romances terminavam em nada e eu me sentia o looser, o Charlie Brown e todos os ícones maravilhosos de fracasso que os enlatados americanos incutiram em minha cultura pessoal. Era cool ser um derrotado. E no meio da dor do meu pobre coraçãozinho partido, entre fantasias com a garota e o puro e verdadeiro amor que um dia surgiria, bem lá no fundo, eu me perguntava se realmente um dia eu atingiria a maturidade, o equilíbrio, a paz e blábláblá.

Dezessete anos depois.
A tal maturidade.
Domingo-família, ao redor da mesa, conversando coisas sobre o trabalho, a semana, piadas, comentando a política, a tv. As crianças correndo ao redor, brincando, gritando, brigando. O refrigerante, a comida, cachorro no quintal, risos e algazarra, a luz e o caos sereno da tarde de domingo. Acho que esse era o paraíso que eu sonhava aos quinze anos, mesmo sem saber.
Família.
Não aconteceu.
Um dia, se as coisas seguirem seu curso natural, eu vou sepultar meus pais. Antes disso, não creio que de minha parte eles verão algum neto. Continuo me apaixonando uma vez por semana, mas elas não são mais as garotinhas fantásticas e inviáveis. São apenas garotas. Vem e vão. Continuo sem saber se quero encontrá-la ou se apenas não quero ficar sozinho. Continuo sem saber o que me faz abrir os olhos toda manhã.

Mas pra que eu preciso saber disso?

No fim, maturidade não é simplesmente aceitar? Aceitar que existem perguntas que jamais serão respondidas, aceitar que existem pessoas que partiram pra nunca mais voltar, aceitar que você precisa de um emprego pra pagar a cerveja, os livros, cinema, roupas, saúde, apartamento. Entender que, apesar de tudo, ainda é muito melhor estar acima do que abaixo da terra. Que o homem ainda é um bicho, o único bicho nessa bola de lama ao redor do sol que se pergunta “por quê?”. O único que industrializa e consome antidepressivos. O único que produz e consome poesia.
O único que sabe que vai morrer.

3 comentários:

racg68 disse...

Jamais se desespere em meio as sombrias aflições de sua vida, pois das nuvens mais negras cai água límpida e fecunda.
Provérbio Chinês

Dos erros e vicissitudes de nossas vidas podem surgir as oportunidades que nos levam a mudança.

Lembre sempre que você, por mais desesperador que seja o momento, tem sempre de quem confiar a amizade.

Edna Marta disse...

Liber, e eu acabo me perguntando: como vc consegue escrever tudo isso???

CARA, AMEI ESSE TEXTO!!!!!!
Ainda que eu seja uma Poliana convicta, tenho que admitir que tudo o que vc escreveu faz sentido pra mim tb..ou não..sei lá!

Beijocas

Edna

peter parker disse...

...
...
...


até quando continuaremos
caminhando
?

caminhando!


puta merda liber, tudo isso que você falou ai era a bolha engasgada na também nessa garganta estava
valeu mesmo

abração do "donin"