domingo, março 26, 2006

the hills are alive with the sound of music


Sentado em uma pedra perto do céu ele viu a moça de vestido azul dançar nas nuvens. Sorriu sem perceber e sussurrou para si mesmo: the hills are alive with the sound of music... Mas não pensou na Noviça Rebelde. Pensou em Moulin Rouge.

Imagine só... imagine se você a tivesse conhecido antes... se você pudesse vir a conhecê-la um dia. Faria alguma diferença?
Quem é a moça de vestido azul? Um domingo de manhã cedo, o alto de um morro, que ela estava fazendo ali, sozinha, de braços abertos brincando com o vento? Por que ela estava ali? Como ela teria ido parar ali? E daí você começa a imaginar, a fantasiar, a supor, a construir uma, duas ou diversas narrativas para a menina de azul. E se distrai do seu próprio passado. Ela não o viu ainda, sentado sobre a pedra, impecavelmente vestido de branco, impecavelmente limpo, pele cheirando a colônia, barba feita, pés descalços. Na mão direita uma garrafa de vidro, vazia, sem rótulo, uma transparência cristalina e fria. A mão esquerda acomodada no colo, tentando proteger os dois dedos quebrados que ainda latejavam. Se ela fosse brincar de “construa o passado do estranho”, talvez ela chutasse que ele era algum pai de santo que pegou uma curva errada subindo o morro. Ele ri baixinho, sem perceber que está rindo.

Moulin Rouge. Uma história de amor, ou pelo menos era assim que o filme se vendia. Uma história alucinante de amor. Doentia, como se aquele relacionamento, aquele único relacionamento pudesse valer toda uma vida, pudesse ser a obra de arte perfeita. A ilusão mais perfeita. A promessa mais impossível e todo mundo acredita nela. O que estamos procurando afinal? Algo que pode ser alcançado? Algo que existe?
Ele leva a garrafa aos lábios e daí se lembra que ela está vazia. Ri silenciosamente, de si mesmo para si mesmo. A moça de vestido azul está lá na frente, parada, olhando para as cidades lá embaixo. O que será que ela pensa? O que será que ela viveu?

Você já pensou em se matar? a doutora te perguntou em algum momento, dias ou meses atrás. Não, você respondeu. Se eu quisesse me matar, eu já estaria morto. Nunca pensei em morrer. Não seriamente. Mas ela insistiu sutilmente no assunto. O que te fez pensar que talvez ela estivesse percebendo algo sobre você que você mesmo não percebia. Não seria a primeira vez. E agora você está sentado sobre uma pedra, na mão uma garrafa de vidro de transparência imaculada. Não que esteja levando a idéia a sério. É mais uma brincadeira. Armar todo cenário só para ver que era uma opção possível, só para sentir que poderia ser feito.

Moulin Rouge. Todas as músicas vêm a sua cabeça. Uma vida extraordinária. Não a mesmice de todos os dias lá na repartição, numa lenta contagem regressiva para o esquecimento completo. Tudo que você queria era uma vida extraordinária. Velocidade, vigor, significado, paixão. Algo que não dá pra explicar com palavras. A realização plena da existência, a consumação completa de todas as potencialidades. Olhar ao redor e descobrir que aquele é o momento perfeito para morrer, porque tudo está exatamente do jeito que deveria ser. E eles te ensinam que o mais próximo disso é o amor. O amor de purpurina de Moulin Rouge. Mas não é. O amor é um vislumbre, uma visão do que pode ser. Mas se quiser chegar lá, você terá que chegar sozinho.

Você não está sozinho. Não finja que está. Quem disse isso? A doutora? Algum amigo? Você leu isso em algum lugar? Afinal, como você chegou aqui em cima? O que veio fazer aqui?

Vidro quebrado corta mais que gilete.

Shhhh. Calma. O homem segura a garrafa fria em sua mão direita, junto ao peito. Olha a moça de vestido azul. Calma. No fundo de sua cabeça, os flashes rápidos de Moulin Rouge, a edição de imagens nervosa, a profusão de sons e cores, o desespero de uma paixão de mentira, tão real quanto a dor em seus dedos. Ao redor, nuvens e sol de uma manhã de domingo. Sombras correndo pelas montanhas. E o vento. Soprando em seu ouvido, sussurrando. Você está aqui agora. Você está aqui agora.

De repente, a Moça do Vestido Azul olha para ele. Ele coloca a garrafa sobre o colo e acena para ela, sorrindo. Ela sorri e acena de volta. E começa a caminhar em sua direção.
Ai, meu Deus, ela tá vindo pra cá.
Claro que está. Você acenou para ela.
Não foi pra isso que eu subi aqui.
Claro que não. Mas, sabe, você precisa aprender a aceitar os imprevistos, meu jovem.

Lá embaixo as pessoas prosseguem com suas vidas.
The show must go on

3 comentários:

Carlinha disse...

Nossa... e tudo isso por causa de um sábado de rafting e um domingo de sol cálido sobre os morros...

racg68 disse...

Virge! Não quero nem ver o resultado de um dia frio e chuvoso fechado dentro de casa...

Edna Marta disse...

fala sério, Liber, esse filme, pra mim, foi um pooooooorrrrrrre de chato!!! Esse negócio de estar todo mundo conversando em cena e sair dançando, cantando e depois todo mundo voltar pro lugar, como se nada tivesse acontecido...NÃO DÁ!!!!! SOCORRRRROOOO!!!! Well, pelo menos serviu de inspiração pro cê, pra mais um texto bacana!! BEijos!