sexta-feira, junho 09, 2006

FUJA, LOCO, FUJA!!!

Vício é uma coisa que você não consegue parar de fazer. Simplesmente não consegue parar. Como beber, fumar, jogar, trepar.

Pensar.

Certos pensamentos podem se repetir sem parar, sem controle. Eu me agarro a eles, eu os repito noite adentro, a cada manhã, a cada tarde, noite adentro de novo. Eu os repito, como uma oração, uma prece, eu não os deixo morrer, eu não quero deixá-los morrer.

Não posso deixá-los morrer.

Começou aos poucos, uma infiltração no meu apartamento. Primeiro foram marcas na tinta da parede. Pequenas bolhas que se esfarelavam ao meu toque. Pensei que era porque a tinta estava velha. Não sei muita coisa dessas coisas de tinta, parede e encanamento. Não preciso, ou não precisava saber. Então, pensei que era só a tinta velha e fui tocando a vida. Repetindo, repetindo, repetindo, no fundo da cabeça. Repetindo e saboreando aquele pensamento, sem cansar, sem parar, sem me importar com o que fazia comigo mesmo.

Meses e meses.

É como acreditar em Deus. Você nunca vai ver o cara, mas Ele está lá. Você sabe que está lá e isso te deixa tranqüilo. Ele está lá olhando por você, te amparando nos piores momentos. Como quando sua filha morre carbonizada no banco de trás do carro, presa pelo cinto de segurança, chorando muito, se debatendo muito. Uma criança. Mas Deus está lá, pra te ajudar a suportar.

Meu Deus, meu Deus...

Este é meu vício. Um Pensamento. Uma Lembrança. Uma crença inabalável em uma visão de mundo. Isto me matou. Respiro, falo, caminho. Mas estou morto.

A zeladora do prédio tinha comentado comigo que tinha uma infiltração bem feia no salão de festas e ela achava que era do meu apartamento. Desci pra ver. Era feio feito um câncer, uma mancha cancerosa de mofo se espalhando pelo teto branquinho do salão. Logo debaixo do meu apartamento.

Semanas.

Meu cubículo estava sujo. Existiam muitos banheiros de rodoviária mais limpos que o meu. Inexplicavelmente, a imundície na cozinha não tinha atraído nenhuma barata.

Eu ficava deitado, deixava a sujeira em paz. Não tinha vontade de tomar banho, de trocar de roupa, de comer. Fazia o que tinha de fazer, levantava de manhã cedinho na segunda, ia pra faculdade, pro trabalho, pra vida insípida, voltava pro apartamento vazio à noite. De segunda à sexta. Noite sentado no sofá, vendo filmes sobre casais apaixonados, super-heróis, monstros, dramas, comédias, pornôs. Sombras na parede.

Na minha parede as bolhinhas se alastravam. Do sofá eu as alcançava, a tinta amarela se desfazia na minha mão.

Eles vieram em uma quinta-feira. Abriram um buraco na parede do banheiro para descobrir que precisavam abrir um buraco na parede da sala. Foi quando descobri o mofo. Uma plantação de cogumelos nos meus livros e revistas. Aquele monte de papel colorido que eu tinha desde que não me lembro. Histórias, palavras, desenhos. Meus sonhos de papel. Minhas lembranças de papel.

Mofo. Bolor.

Quebraram a parede da sala. Deixaram os buracos abertos para que a umidade dentro da parede pudesse secar.
Jantei olhando pra canos que pareciam tendões expostos.

Horas.

A sexta-feira foi um borrão. Sentado na frente do computador, uma garrafa de vinho, milhares de mulheres, todas peladinhas desfilando na minha frente, peitos tão lindos, imóveis, pulsantes na minha telinha, na única luz do meu quartinho atulhado de papéis e anotações e contas e propagandas e revistas e mofo e livros, muitos livros, pra me proteger do Pensamento. Porque ele ainda estava lá. Nunca ia embora. Dançava por trás da pornografia, dos textos de Bukowski, das teias do Aranha, do silêncio do cubículo.

Normalmente, o sábado e o domingo eram uma droga. Horríveis. Não havia a segurança da rotina. As horas estavam livres e eram minhas. Minha responsabilidade. Quando o silêncio se tornava insuportável, eu ligava pros amigos. Conversava, ria e tentava marcar alguma coisa. O bar de sempre, as conversas de sempre.

Segundos.

Mas aquele sábado foi diferente. Acordei, me arrastei pro banheiro, mijei, dei a descarga. E escutei um estouro, e um longo chiado. Na minha sala, a água de quinze andares jorrava do cano estourado, em cima da minha tv, meu sofá, de todas as porcariazinhas que eu tinha juntado pra fazer o MEU MALDITO LAR.

O registro ficava no décimo sexto andar. Subi correndo. Tentei pegar o elevador, mas, como era uma comédia, ele estava no décimo quarto andar e eu não quis esperar que ele chegasse ao primeiro. Subi correndo. Ouvindo as risadas deste sitcom patético que é a vida da gente. Tossindo e escarrando, pensando nas minhas coisas, na minha casa. Minha vida. Fechei a válvula. Sozinho no elevador, olhei meu reflexo e ouvi as risadas.

Tinha três dedos de água no meu quarto. A tv e o dvd pareciam ter passado por um lava-carros. Não tive coragem de olhar pra estante de livros. Sentei na cama, meus pés na água, folhas de papel flutuando ao redor. Naquele minuto, não ouvia mais risadas. Ouvia uma respiração rasgada, um pulsar acelerado dentro da minha cabeça. E o tempo parou.

Senhoras e senhores! Ela é a Senhorita Arquiteta das Coisas Intangíveis Que Agitam Nossas Almas. Ela é uma das mulheres mais maravilhosas que já conheci. Ela é um abraço, o Abraço que é como chegar em Casa, uma Casa de Verdade, um Lar de Verdade, o Lugar em que não se precisa mais correr, não se precisa mais lutar, não se precisa mais caminhar, porque já se chegou lá. Lá. Nos braços dela. O único lugar em que eu gostaria de estar. O Sorriso, a Pele. Ela é a Mulher que eu amo. Ela.

O problema é que

ela não existe.

Nunca existiu.

O reflexo do meu rosto no chão do meu quarto olha pra mim.

Uma mulher que nunca existiu. Uma esperança, um sonho, um

(deus, não!!!!!)

pensamento que se repete, que não morre. Que eu não deixo morrer. Uma invenção, um punhado de palavras mal escritas. O desejo de que alguém assim pudesse existir.

Mas não existe.

Ela não existe.

Mofo ao redor. Sonhos de papel. Imundície.

(aaaaagh, deeeeus, por favor!!!!)



Escute

Sussurra meu rosto refletido no chão do quarto

Você precisa esquecer sua fé,
precisa esquecer seu sonho
sua esperança
sua vida
seu deus
Se quiser ter uma vida de verdade

Se quiser ter uma vida de verdade
Estar realmente vivo
Deixe ela partir.

(eu não posso)

Deixe ela morrer.

(não!)


Deixe

Ela

Morrer.


***********

Água nos meus pés.

Luz do sol pela janela, na água.
Reflexos, lindos desenhos no teto.
Uma vida cheia de possibilidades lá fora.
Nem todas são boas.
Mas que se dane.
Deixe o bolor pra trás.
Vá embora daqui, cara.
E não volte nunca mais.

Porque desta Vida, chega.
Chega.

No fim acontece com todo mundo. A gente pensa que vai desistir, mas não desiste. Não desiste nunca. Fica aqui até o fim, até apagarem a luz e fecharem as portas para sempre.

Daí a gente procura outro lugar...

3 comentários:

Edna Marta disse...

de repente esse texto me lembrou Kakfa e sua metamorfose...SOCORROOOOOOOO!!!!!!

Leleca disse...

curiosidade matada, assassinada. só não sei o que dizer, juro que não sei (e me lembrei da recomendação antes de ler).

beijo, se cuide.

ps: ótimo ótimo ótimo texto. apesar de sufocante.

donin disse...

bem comentado, ótimo texto, sufocante.
verdadeira rosca espanada.

recomendo a escuta de Fantomas
tenho certeza que vais adorar

e a saudade é grande
abraço pra ti mano