segunda-feira, julho 24, 2006

FERA! FERA! RÁ! RÁ! RÁ!

Foi lá em Campo Mourão, acho que era um sábado ou domingo, num lembro. Tinha ido lá ensinar crianças a desenhar. Tendas e ônibus vindos de todo lugar, várias e várias pessoas.

Quando entramos no ônibus nós não existíamos uns para os outros. Éramos uns completos desconhecidos. Nunca tínhamos nos visto, não nos olhamos na cara, não tínhamos interesse nisso, completamente sem consciência nenhuma da existência do outro. Éramos completos estranhos. Estávamos sentados lado a lado, mas era como se não existíssemos. Isso era segunda-feira.

Na terça-feira estávamos bebendo cerveja num boteco, um boteco de beira de estrada, com banheiro de azulejos de mais de trinta anos, numa cidade em que nunca tínhamos estado antes e pra qual provavelmente nunca mais voltaríamos nessa vida. Menos de 24 horas depois éramos o Quarteto Impossível, os Quatro Improváveis, bebendo cerveja e jogando bilhar num boteco de uma cidadezinha de terra vermelha, às quatro da tarde de uma terça-feira, dia útil. Jogávamos bilhar e milhares e milhares de crianças desfilavam pelas ruas da cidade, exaustas, cansadas e fascinadas, entre fantasias e carros de som. Um milagre lindo de se ver. Uma tarde de terça-feira, sol, terra vermelha, céu azul, cerveja e bilhar.

Fui ensinar desenho pras crianças.

E nos dias seguintes, um show de máscaras e pirotecnia, episódios improváveis, pessoas improváveis.

Numa tenda que era uma biblioteca, conheci um homem que tinha um teatro no boné. Conversamos e aprendi algumas coisas. Fiz promessas a mim mesmo.

Me redescobri.

Me reinventei.

Sentado em uma casinha de tijolos, vi a mulher mais linda do mundo, usava vestido de princesa, máscara de porcelana, falava francês e tinha quatro metros de altura.

De noite corríamos pela cidade e bebíamos e ríamos. Roubamos tijolo do vizinho pra fazer nosso churrasco marginal. Luzes de farol de carro, violão, olhos azuis. Boquinha linda.

De madrugada, antes do sol raiar, eu acordava os galos, gritando, cantando minha vida improvável.

Café da manhã gostoso, cinco dias que não foram iguais, tanta gente louca.

Eu tinha ido lá ensinar as crianças a desenhar. E elas gostavam mesmo era de ser desenhadas. As crianças e as mocinhas.

Ah, as mocinhas...

Fui lá pra ensinar crianças a desenhar.

Um sábado à tarde, uma arquibancada de arena, uma moça e uma folha de papel.

E no domingo, sumimos.

Nem vestígio.

Só na memória.

Só na saudade.

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