domingo, julho 02, 2006

Um Lago



Pedaços de gelo sobre águas escuras. Uma planície de escamas cinzentas, ondulantes. Uma única coisa, a imensa superfície gelada do lago, mas sem coesão nenhuma, sem consistência nenhuma. Sem solidez. Do outro lado, prédios negros, pesados, céu cinzento. Eles estão longe e os carros também. São três e quinze da tarde, mais ou menos. É uma quarta-feira, 12 de fevereiro e é seu aniversário e quando me dou conta disso eu penso em você e é tudo muito engraçado. Sentado em um banco, diante do gelo do lago, neve e frio na cidade de prédios negros, eu penso em você, pela primeira vez em... em quanto tempo? Deus, tudo isso é maravilhoso demais. Os prédios, o murmúrio dos carros, o fascínio de estar tão longe de casa, de estar mais uma vez pulando (ou sendo empurrado) no vazio, no começo de novo. E de repente eu penso em você. Não esqueço nunca do seu aniversário. É junto com o aniversário de casamento dos meus pais. E, pra ser sincero, eu me lembro primeiro de que é seu aniversário e depois que é aniversário deles. “Ah, o aniversário da Nicole é amanhã. Preciso ligar pros meus pais”. Heh...

Então, hoje é seu aniversário. Vou te escrever uma carta, mas você nunca vai receber, porque essa carta nunca vai sair de dentro da minha cabeça. Mesmo que saísse, mesmo que eu me desse ao trabalho de escrevê-la, não saberia pra onde enviá-la. Claro que eu poderia descobrir se quisesse, claro que eu poderia simplesmente descobrir pra qual telefone ligar. Mas não vou fazer isso. Essa é uma carta que nunca vai existir fora da minha cabeça, mas é bom pensar em você, aqui, agora.

Deixa eu te contar sobre a Simone. Na primeira noite que passamos juntos, abraçados, um só corpo, eu acordei no meio da madrugada, o rosto dela junto ao meu. Ela dormia sorrindo. Quando vi aquele sorriso, quando senti a respiração, a pele de Simone, eu acreditei que existia um Deus e que Ele realmente me amava. Eu nunca mais pediria nada, nunca mais precisaria de nada. O abraço daquela menina era tudo. E por isso é legal que eu lembre de você agora. Porque, na primeira noite em que passei com você, eu também senti a mesma coisa. E é engraçado que, só hoje, tantos anos depois, só agora, eu lembre de um momento que pensava ter sido único e inesquecível. Você.

Houve várias mulheres. Parando pra pensar agora, eu me lembro mais de rostos. Poucos nomes. Saídas na noite, flertes nos bares, nas ruas. Mas elas eram só um dever pessoal, uma satisfação pro ego e pra libido, uma necessidade fisiológica. Mas não você, Nicole. Depois da última vez em que nos vimos, eu andava pela cidade com medo de te encontrar. Evitava passar perto do teu bairro, evitava os bares, evitava exposições, evitava qualquer possibilidade de te encontrar e ver como você tinha conseguido levar sua vida em frente enquanto eu ainda acordava de sonhos em que você ia embora pela enésima vez. O medo durou meses.

E, então, Simone.
Simone pinta. E fotografa. Muito bem. Acho que o trabalho dela me cativou primeiro. Você teria adorado. Eu a conheci em uma exposição, vi o material dela, mostrei o meu, conversamos. Simone tem uma risada sensacional, sincera. Olhos brilhantes, personalidade forte. Alegre. Ela sempre tem algo a dizer, algo espirituoso, e é cheia de sonhos e planos. Sempre pensei que tivesse sido isso o que me fascinou nela: a energia, a paixão pela vida. Mas não foi. Foi a insignificância dela que eu amei. Simone ria alto, ria sempre, pra mostrar pra todo mundo e pra si mesma que estava feliz. Mesmo nas muitas vezes em que não estava. Simone era espirituosa e engraçada, mas também era presunçosa e cínica. Estava sempre pronta para alfinetar alguém, sempre pronta para desvalorizar os desejos e problemas dos outros com um comentário engraçadinho, mas contundente. Pra parecer forte. Atacar os outros a protegia de sua própria insegurança. Ela se escondia de si mesma atrás de uma muralha de piadas e frases incisivas. No fundo, ela sabia que seu trabalho tinha mais potencial do que méritos de verdade. Ela era insegura, tinha medo do mundo, tinha vergonha da cidade em que nasceu, mas encobria tudo com um verniz de autoconfiança. Simone negava com todas as forças a idéia de encontrar e casar com o “homem perfeito pra apresentar pra mamãe”, mas nunca parou de procurá-lo. Simone era pequena, mas lutava com todas as forças para não ser. Ela não desistia. Como eu poderia não amá-la?


Nunca falei nada disso pra ela. Não faria sentido. Mesmo porque são especulações minhas e talvez eu nunca a tenha conhecido de verdade. Talvez ela tenha fingido tudo, menos a presunção e o cinismo. Talvez ela tenha fingido sorrir enquanto dormia. Quem vai saber? Não acho que ela mesma soubesse. E que diferença faz?

Talvez eu nunca tenha conhecido você de verdade, Nico.

Eu me lembro de você. As cicatrizes nos seus pulsos, o modo como você pulava pra ver as obras de Jesus Soto, o seu riso contido. Seu jeito lânguido de deslizar pela vida. O modo como brincava com o próprio cabelo. Uma vez você contou sobre quando era criança, quando tinha quatro anos e fechou os olhos e decidiu que não os abriria mais. Depois de dois dias, sua mãe começou a te levar a sério e te levou ao médico. E depois de muito tentar, eles te convenceram a abrir os olhos e as lágrimas saíram, sem parar. Você era fascinante. Assustadora. E acho que amei você também. Acho.

Ah é... Simone. Pois é...
Claro que já dava pra perceber antes. Ela estava mais distante, mais evasiva. Não sei se ela tinha deixado de me amar mesmo muito antes do Ivan aparecer. Não sei se um dia ela me amou. Dois meses atrás tivemos uma conversa da qual eu não lembro uma palavra. Só me lembro dos olhos dela e ali não existia nada. Nada.

E depois de gritos, insultos e choro, por alguma razão desconhecida, tanto eu quanto ela achamos que tudo podia continuar na amizade. Não sei o que passava pela cabeça dela. Talvez gostasse de mim, talvez gostasse de me ter pra adulá-la, pra afagar seu ego. E que diferença faz? Eu queria estar com ela pra estar com alguém, pra não ter que enfrentar a mim mesmo sozinho. Pra existir através dos olhos de outra pessoa. Mas, por pior que seja admitir isso, eu também queria estar com ela porque a amava. Não é legal gostar de alguém desse jeito e vê-la rir pra outro cara e beijar outro cara. Não é saudável. Não é humano.

E agora eu estou aqui e me lembro de você. Estou sentado nesse banco, a neve caindo, o frio. O frio é uma benção. Ele me desperta, faz eu me sentir vivo. Consciente. Fascinado. Fascinado por me lembrar de você. Agora. Eu devo ter te amado também. Lembro de ter atravessado uma rua correndo entre carros, quase ser atropelado, só pra poder te entregar flores. Lembro dos poemas que escrevi pensando em você e dos que você escreveu pra mim. Lembro da dança da rejeição. Deus, como doía! Você dizia que não gostava de mim de verdade e sumia. Depois de meses, reaparecia, telefonava, convidava pra um teatro, uma viagem. Você dormindo no meu colo, na rodoviária de São Paulo, voltando da Bienal de Artes. Nossa última conversa, em um bar cheio de risos, quando você encontrou alguém que amava de verdade e decidiu desistir de mim.

Meu Deus.

Eu passei os últimos dias odiando a Simone, maldizendo a mim mesmo por ter gostado dela, por não ser sido bom o suficiente pra ela, acreditando que essa dor nunca vai parar, que eu a amava e ela se perdeu e tudo isso é uma droga. E agora, sentado aqui sozinho, o frio me mantendo desperto, eu me pergunto: como alguém pode odiar a pessoa com quem dormiu tão gostoso tantas vezes? Como alguém pode odiar a si mesmo?

Como eu pude me esquecer de você?

Eu quero me lembrar de você?

Isso é o que mais me incomoda. Minha vida melhorou consideravelmente à medida que você saiu dela. Eu estou muito melhor sem você. Você é uma estranha pra mim hoje. Uma lembrança distante, um constrangimento. Provavelmente, eu sou a mesma coisa pra você. E, no fim, vai ser a mesma coisa com a Simone. Acho que tem que ser assim.

Ela vai expor aqui nos Estados Unidos pela primeira vez. Muitas das fotos ela bateu em nossa viagem pelo Nordeste. Boas fotos. A exposição abre na sexta-feira. Não vou estar aqui.

Amanhã vou acordar em outro país. Amanhã vou acordar pra reescrever outra vida. Amanhã.

Você nunca vai receber essa carta. Eu mesmo provavelmente não vou me lembrar dela amanhã. Mas agora o lago, o gelo, a neve, os prédios, o murmúrio, a coisa sem nome que cresce em meu coração, tudo é tão intenso, tão sensacional, que só consigo pensar que você e Simone foram duas das pessoas mais maravilhosas que conheci, que apesar de tudo não me arrependo de nada do que fiz ou senti por vocês.

Mas, se eu nunca mais encontrá-las nessa puta vida, não vai ser nada mau.


Bye bye, Nico.
Onde quer que esteja.

Chicago. Belmont Harbor.
12 de fevereiro de 2004.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito verdadeiro, gostei.

Caminhante