domingo, agosto 13, 2006

Diario de Bordo 5: clímax & desfecho

Ontem eu bebi.
Ontem eu bebi muito.
Ontem eu bebi muito MESMO.

Saí pelas ruas, amigo de todo mundo. Escutei violeiros bacanas, conversei sobre literatura com um monte de gente. Curti. Conheci uma poeta de rua, a Renata. Conversamos. Fomos à praia. Bebemos. Lua cheia. Passeamos pela cidade.

Acordei com uma ressaca do cão. Banho, arrumar as coisas, por tudo na mala, foto da janela que dá pro mar.

A primeira palestra do dia foi de Adélia Prado, entitulada "Bagagem". Então. Não tenho palavras. Não tenho palavras. Um daqueles momentos únicos. Ela quase me fez chorar. Não tenho palavras. Se fosse pra vir e ver uma única palestra, a dela valeria toda a viajem. Não sei descrever o que aconteceu. As coisas que ela falou, sobre o amor, o cotidiano. Aquela velhinha mineira, lendo poemas, admitindo que estava nervosa, falando rápido, falando coisas que faziam um sentido extraordinário sobre símbolos, miséria humana, solidão, amor. Ela leu um poema chamado "Mortes Sucessivas". Sensacional. Eu estava lá. Sabe, um daqueles momentos que ficam na tua cabeça, que podem te acompanhar até o fim da sua vida, que podem te transformar? Como uma revelação, um milagre, uma epifania. Não foi só o poema, não foi só a mulher, foi algo mais algo que foge às palavras. E só quem estava lá sabe o que foi.
Saí da sessão e fui comprar o livro dela. Esperei mais de duas horas pra receber o autógrafo dela, pra falar com ela. E valeu a pena. Valeu cada minuto.

Consegui ingressos e assisti a Nicole Krauss na tenda dos autores, chamada carinhosamente de "Tendinha". A tendinha tem muitas vantagens. Ar condicionado e a presença ao vivo dos autores, pra começar. Nicole Krauss é a autora de A História do Amor, um livro belíssimo sobre solidão, amor e resignação. Ela era a autora que eu mais queria conhecer. Tinha receio que ela fosse meio misantropa, meio anti-social. E no entanto.

Sensível, linda, tímida, graciosa. Na hora dos autógrafos, eu arrisquei meu inglês com ela. E ela me perguntou, depois do autógrafo: O que achou do livro? Ela perguntou assim, me olhando nos olhos, como quem realmente quer saber sua opinião. Isso me desarmou completamente. Falei que curti muito, que era um livro belissimo e tal. E ela ficava ali olhando pra mim, prestando atenção. "Do you like the tradution?" Disse que não tinha lido o original e não podia comparar e de repente comecei a falar sobre Leo Gurski, o pobre, velho e solitário Leo Gurski, em toda sua miséria emocional, sua tristeza, sua simplicidade e força. E falei. E se você me conhece, sabe o que acontece quando baixa o santo e eu começo a falar. Foi incrível poder dizer aquelas coisas pra pessoa que escreveu algo que significou tanto pra mim.
Maravilhoso.

Peguei as coisas no hotel e vim pra última palestra. "Os livros de cabeceira". Com todos eles falando sobre seus livros. Muito legal. Fiz amizade com uma galera bem divertida. Um rapaz lá de Porto Alegre, fã da Nicole e do Foer, que escreveu e publicou um livro aos 19 anos. Ele me deu um exemplar. Espero poder lê-lo logo.
Agora estou com a Márcia, vou tomar uma sopa (tá um friozinho bem gostoso aqui) e esperar o ônibus das 23:30. Estou um bagaço.

Eu tive um dia legal.
Com certeza.
Vários dias legais.

Amanhã, a conclusão.

See you.

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