sábado, agosto 26, 2006

E agora?

Hoje, só hoje, desfiz as minhas malas. Daquela viagem. Pra Paraty. Flip. Os escritores e tudo mais. Sentei no meio da bagunça e comecei a separar todo material da viagem, que estava espalhado por todo o caos do quarto, misturado com desenhos, partituras e textos. Coloquei tudo numa sacola com a estampa do Jorge Amado. Engraçado, existe um ditado muito imbecil que cansei de escutar: “A vida é feita de momentos”. Odeio esse ditado. Acho que é por causa da obviedade. Ou da pura verdade. A viagem ficou lá pra trás. Enquanto estive lá em Paraty, enxerguei possibilidades existenciais, ouvi pessoas sensacionais, conheci gente muito legal, estive em lugares maravilhosos. Eu estava feliz!!!!!

E agora estou de volta.

É.

Hm.

Pois é.

Kung Fu. O Aleverson outro dia tava conversando comigo e falou sobre Kung Fu. Não “kung fu” como arte marcial. Kung fu mais como uma filosofia, um fazer. Sabe, é como você mergulhar completamente naquela atividade, naquele momento, entregar-se completamente, de um modo que quando a tarefa termina o resultado te surpreende e você não sabe dizer se você realmente fez aquilo ou se aquilo simplesmente aconteceu. Entende? Kung fu. Para trabalhar, para amar, para escrever, desenhar, nadar, andar, conversar. Entende? Kung fu.

Naquele mesmo dia da conversa com o Aleverson, eu assisti “A Festa de Babette”. Tipo assim, peguei na locadora meio sem compromisso. Tinha passado o domingo fazendo um fanzine, era tarde da noite, eu tava bem cansado. Mas não quis entregar o filme sem assistir. Onze da noite e tava eu lá na frente da tv começando o filme. “A Festa de Babette” ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1987, se não me engano. É a história de uma francesa, Babette, que pede asilo à duas irmãs que vivem numa pequena vila no litoral de um país que não lembro o nome, acho que era a Dinamarca, mas não tenho certeza. Anyway, Babette passa a trabalhar para as irmãs Phillipa e Martina, que eram muito religiosas e mantinham uma pequena comunidade protestante que seu pai iniciara. Daí Babette trabalha com elas como governanta durante anos. Uns 14 anos. E um dia ganha na loteria. 15 mil francos. Phillipa e Martina ficam tristes porque agora Babette com certeza irá embora. Antes de partir, porém, Babette pede às duas irmãs que aceitem que ela lhes prepare um jantar francês, para agradecer pelos anos de abrigo. As duas aceitam e Babette começa os preparativos. A história se passa em meados do século XIX, então uma das coisas que me chamou atenção foi o pessoal trazendo na carroça (junto com codornas vivas, carnes, frutas e temperos) um grande bloco de gelo. Fiquei imaginando de onde eles tiravam o gelo naquela época.

O preparativo do jantar é lindo. Close nas mãos de Babette, manipulando os alimentos meticulosamente, pacientemente, delicadamente. Mãos trabalhando, a mulher compenetrada, fazendo sua arte, preocupando-se com cada detalhe. O filme transmite uma sensação maravilhosa do ato da criação, do carinho com que ela conduzia o preparo do jantar. E “carinho” aqui é uma palavra muito importante.Havia vários convidados para o jantar, entre eles um general que fora apaixonado por Phillipa (ou Martina, sei lá). E esse general é o único da mesa que consegue reconhecer cada um dos pratos e vinhos que são servidos. Ele fica fascinado com a qualidade, com o sabor, com o espetáculo. Ali, naquela mesa de aldeia pequena, estavam sendo servidos os pratos mais saborosos e sofisticados que ele já provara em toda a vida. Por fim, o jantar termina, os convidados partem satisfeitos, e no silêncio da cozinha, as duas irmãs agradecem pelo maravilhoso jantar. Então descobrem duas coisas: a) Babette tinha sido a cozinheira chefe do melhor restaurante de Paris, antes de sua perder sua família e ser exilada por motivos políticos, b) o jantar que ela preparara era o mais caro servido no restaurante, era preparado exclusivamente para líderes de estado, militares e pessoas extremamente ricas. O jantar custou exatamente 15 mil francos. As duas irmãs ficaram espantadas, “mas você gastou todo seu dinheiro por nós?!” e Babette respondeu “eu não fiz só por vocês”. Ela fez por si mesma. Sozinha, sem ninguém que estivesse esperando por ela em seu país, ela gastou todo o prêmio para que pudesse, pela última vez, preparar um jantar como costumava fazer. Era a sua arte, era o que dava sentido à sua vida. Ela fala de um artista que tinha sido seu amigo: “Ele dizia e eu pensava ter esquecido. Um grande grito sai da alma do artista. Dê-me a chance de fazer o melhor possível”.

A chance de fazer o melhor possível.

Kung fu.

O filme tem muitos detalhes que eu não contei aqui. Vale a pena assistir a “Festa de Babette”.

Ele me fez muito bem.

4 comentários:

Aleverson Ecker disse...

Uau! Como leitor do seu blog, fiquei muito honrado com a lembrança, Liber! E parabéns pelo texto, fiquei com vontade ver o filme realmente...

Grande abraço,

Aleverson

racg68 disse...

Show me your Kung Fu!
Esta sua postagem está muito Matrix.

Morpheus:
What do you learn?
Neo:
I know Kung Fu.
Morpheus:
Show me!

Edna Marta disse...

aeeeeee, Liber! Esse filme é genial! Mas nem um pouco recomendado para quem está de regime..depois do filme, fiquei doida pra me acabar num café colonial...rsrsrrs. E por falar em filme, assiste ao "Old Boy" q vc tinha recomendado. MUUUUITO ESTRANHO! Tão estranho q ficou bom demais! Acho q além de ilustrador, desginer, escritor, pode acrescentar ao seu "curriculum", crítico (e dos bons!) de cinema! beijocas! E bom retorno à vida em Curitiba!!!

Anônimo disse...

Eu tbm morri de fome depois do filme...

Caminhante