quarta-feira, agosto 30, 2006

... e, então, eu me apaixonei perdidamente por uma menina que pensava que eu era fast food.

Fanzine é uma revistinha ou jornalzinho, que contém histórias em quadrinhos, poemas e textos sobre mil assuntos. O fanzine é feito por “fãs”, isto é, pessoas que curtem música, cinema, literatura, quadrinhos, etc e querem falar sobre isso. O fanzine é produzido artesanalmente, depois reproduzido através de xerox e distribuído gratuitamente ou via o pagamento de uma quantia simbólica. Não sei como anda a produção de fanzines no Brasil atualmente. Nos anos 80 e 90, existiam centenas de “zineiros” espalhados pelo país. O que aconteceu foi a Internet e de repente você podia fazer um “zine” mais transado, colorido, com animações, por um custo menor e supostamente acessado por uma quantia muito maior de pessoas. Imagino que isso tenha afetado a produção de fanzines de algum modo. Mas antes do msn e do blogger, os fanzines representavam um modo de expressão muito atraente. O xerox dava todo um ar de “clandestinidade”, porque enquanto os meios de comunicação impressa “oficiais” tinham cores, código de barras, jornalistas e designers profissionais, os fanzines eram a voz da contestação, a verdadeira liberdade impressa agindo nas sombras, nos corredores da universidade, nas festas da madrugada. Os fanzines eram poucos e chegavam a poucos escolhidos. Imagine isso acontecendo quando o som de Legião Urbana, Titãs, Paralamas soava como novidade, enquanto a ditadura dava lugar a uma suposta democracia. Fanzine cheirava a molecagem, sexo, juventude, poesia, reflexão, arte! Urra!

Daí, lá no mestrado a gente tem uma disciplina chamada “Dimensões Sócio Culturais da Tecnologia”. A gente lê, a gente lê um monte, sobre um monte de caras que tem umas idéias muito impressionantes sobre o mundo em que vivemos. Idéias que te fazem questionar sobre as coisas intangíveis que chacoalham nossas almas. Coisas de se entrar em parafuso. E foi pra essa disciplina que tivemos de fazer um seminário sobre a “Subjetividade do Homem Pós-Moderno”. Dividimos o tema em tópicos e cada um da equipe ficou responsável por um tema. No meu caso, “Os Relacionamentos Amorosos da Pós-Modernidade”.

Hehehe.

Então...

Foram três livros que orientaram essa parte do trabalho. “A identidade cultural na pós-modernidade”, de Stuart Hall; “Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos” de Zygmunt Bauman e “Relatos da vida amorosa: a intimidade no contexto contemporâneo”, tese de doutorado de Sylvia Maria da Penha Cioffi. Fiquei impressionado com a quantidade de estudiosos que tem se dedicado ao tema do amor. Não pensei que alguém fosse levar isso a sério, mas parece que levam. Entretanto, estes livros estão longe de ser manuais para o amor ou algo assim. Todos partem de abordagens sociológicas, antropológicas e culturais. A idéia é compreender o comportamento e valores da sociedade como um todo.

Bauman tem uma frase que acho muito bacana: “não se pode aprender a amar, assim como não se pode aprender a morrer”. Na opinião dele, de modo geral, a literatura de auto-ajuda sobre o assunto é completamente inútil. E eu concordo. Cada relacionamento, cada pessoa, é um mistério, uma aventura completamente nova, inédita e irrepetível. Cada relacionamento se origina do acaso, não pode ser planejado ou controlado. Ironicamente, o livro de Bauman está na sessão de auto-ajuda.

Bauman é um sociólogo polonês radicado na Inglaterra. Ele é autor de livros como “Em busca da política”, “Modernidade e holocausto” e “Globalização: as conseqüências humanas”. No livro “Amor líquido” ele faz um apanhado geral do amor enquanto construção social e cultural, sobre as angústias e crises existenciais da vida do homem e da mulher pós-modernos. Embora as reflexões de Bauman sejam precisas e contundentes e ele realmente jogue uma luz de compreensão sobre a “maldita raça humana” (como dizia Mark Twain), seu livro não deveria estar na sessão de auto-ajuda, porque não oferece saídas fáceis, nem passa a mão na nossa cabeça. Bauman tem uma visão crua e realista sobre um mundo enlouquecido, endurecido e consumido pelas regras de consumo, onde pessoas são “um prato que você prova, mas não precisa terminar”, onde você atinge a qualidade através da quantidade.

Mas será que não foi sempre assim?

No século XIX havia repressão sexual rígida, no meio do século XX surgiu o “amor livre”. No século XXI vivemos a era do “sexo compulsório”?

As abordagens desses livros partem do pressuposto que estamos integrados em uma sociedade que estabelece valores e códigos de cultura (e o amor é um deles) com os quais construímos nossas identidades subjetivas. Entretanto, apesar da racionalização, nenhum dos autores se ilude. Existe realmente algo no amor, no amor de verdade, que o torna parecido com a morte, isto é, um mistério insondável da existência humana. Nesse sentido, um autor que eu acho muito significativo para a (in)compreensão do amor é o Gabriel Garcia Márquez. Pegue qualquer livro dele. Por exemplo, o clássico “O Amor nos Tempos do Cólera”. Ali temos, na minha opinião, o melhor retrato do amor: irracional, dilacerante, assustador, maravilhoso.

Afinal de contas, quem sabe o que se esconde no coração de homens e mulheres?

Você é livre para querer o que quiser, mas o que faz você querer algo?

E daí, retornamos ao começo. Li esses livros e para o trabalho de Dimensões decidi fazer um fanzine, no modelo clássico de colagem, xerox e erros de registro (que não foram propositais, eu confesso). E aqui eu apresento o tal fanzine, composto de colagens desses livros e outras cositas mais. Escaneei o folhetinho com todos os erros e dificuldades de leitura que ele tinha pra você ter uma idéia, mas, acredite, não é tão legal ver no monitor quanto folhear o bichinho... hahaha.

Fanzineiros, uni-vos!!!!

Hahaha!!

Valeu.

(Sugestão: Baixe as imagens e visualize como “projeção de slides”).
















4 comentários:

Aleverson Ecker disse...

Muito bom, héin! Fiquei com vontade de ler o "Amor nos Tempos de Cólera" também...

Aleverson

Simony Cavalcante disse...

OLá! Marac]vilhoso seu trabalho, amei mesmo.
Sou estudante de Jornsalismo e ainda estou no primeiro período, e para a conclusão do 1° período tenho que fazer um zine sobre violência, fome e paz, mas, estou meio perdida, melhor dizer toda perdida, que é para a matéria de criatividade. então resolvir pesquisar mais sobre o assunto, oi quando encontrei o seu trabalho aqui na net e gostei muito.
Mas, será que o texto só pode ser meu pessoal ou pode ser copiado de algum outro documentário?
Parabéns e sucesso na vida!

Simony Cavalcante

Anônimo disse...

OLá! Maravilhoso seu trabalho, amei mesmo.
Sou estudante de Jornalismo e ainda estou no primeiro período, e para a conclusão do 1° período tenho que fazer um zine sobre violência, fome e paz, mas, estou meio perdida, melhor dizer toda perdida, que é para a matéria de criatividade. então resolvir pesquisar mais sobre o assunto, foi quando encontrei o seu trabalho aqui na net e gostei muito.
Mas, será que o texto só pode ser meu, ou seja pessoal? Ou pode ser copiado de algum outro documentário?
Parabéns e sucesso na vida!

Simony Cavalcante

Liber disse...

Oi, Simony.

Obrigado pelo comentário!
Eu te mandaria um e-mail específico, mas como não tenho seu contato, deixo a mensagem aqui e vamos ver se por acaso vc lê um dia.
O fanzine, nesse caso, acaba sendo sempre uma criação sua. Mesmo que vc use trechos do texto de outras pessoas, o fato de vc selecionar esses trechos, suas intenções na escolha, o layout que vc usa, a combinação de imagens e tudo mais, são os traços da sua autoria.
Vc sempre vai ter um propósito na elaboração de sua publicação que vai orientar suas escolhas. Mantendo-se fiel a esse propósito, vc vai criar algo seu, com sua marca.
Claro que se vc escrever um texto com suas próprias palavras tb vai ser muito bacana. ;-)

Sucesso pra vc tb, moça e td de bom.