terça-feira, setembro 26, 2006

As malditas noites insones


Meia-noite e meia. Hora de estar na balada, hora de estar bebendo e brindando minha vida perfeita, com meus amigos sensacionais, agarrando todas as gostosas de todos lugares que mal podem esperar pra dar a bunda pra um cara sensacional como eu ou pra qualquer outro imbecil que as faça esquecer por algumas horas de quem elas são e do quão pouco isso significa. Meia-noite e meia e eu estou aqui deitado esperando os efeitos do tranqüilizante. Onde eles estão? Será que perderam o ônibus? Não escutaram meu chamado? Não é assim que funciona? Eu tomo as bolinhas e os efeitos maravilhosos de uma noite de sono vem me embalar. Não é assim que funciona? O sono dos justos em cápsulas, à venda nas melhores farmácias. Eu tomei três, TRÊS cápsulas, então, por que caralho ainda estou acordado? Porque essa merda de cama está tão desconfortável?

Uma e treze. Eu devia sair. Beber um monte, agarrar qualquer uma, meter até fazer ela ganir. E depois sair de novo, beber de novo, agarrar qualquer uma de novo, meter até fazer ela ganir também. Que nem eu fiz ontem. E anteontem. Não é assim que funciona? Damos duro o dia inteiro pra isso, não é mesmo? Pra sair de noite, beber, meter e esquecer que damos duro o dia inteiro.

Uma e quarenta. O único som é o murmurinho da garoa lá fora. Não passa nem carro na rua. A luz dos postes desenha o vazado das persianas no teto do meu quarto. A madrugada se consome imóvel no teto do meu quarto. Se eu ficar imóvel e deixar de pensar o sono vem. É só não pensar. Shhhh. Quietinho.

Uma e quarenta e um. Tem que escrever o artigo, a data final é sexta. Não tenho idéia do que falar. Amanhã é quinta. 7 horas tem que estar dentro da piscina. 9 horas tem que estar na redação. O cheque da agência ainda não compensou. Amanhã é quinta. Tem almoço com a Beatriz. Preparar as fotos pra exposição. Passar no MAC. Fim de semana tem raft. Não vai dar pra ir. Tem que fechar o projeto pra segunda. O pessoal tá cobrando.A maconha acabou. Beatriz. A cama parece tão grande. Qual é o problema de sair com uma mulher casada?

Uma e quarenta e dois. PARE DE PENSAR SEU CRETINO!!!! FIQUE QUIETO!!!! FIQUE QUIETO!!!!

Duas e oito. Faz tempo que não visito meu pai. Não devia deixá-lo no asilo. Não devia. Mas trazê-lo pra casa? Eu devia. Arranjar um quarto, trazer ele pra cá. Conversar com ele todo dia. Mas será que ele não ia se sentir mais sozinho ainda aqui? Qualquer dia desses ele morre. O que eu estou fazendo a respeito? O que eu posso fazer?

Duas e cinqüenta e três. Beatriz. Merda. Isso vai dar merda. Beatriz. Ela cheira tão bem, Tem um sorriso tão lindo. Se ela não fosse tão inteligente. Se ela não fosse tão... amável, gentil. Alegre. Como posso gostar de alguém que eu nem beijei? Isso vai dar merda. Eu vou me foder.

Três e catorze. Homens são estúpidos, ela me disse. Homens pensam com seus paus. Sim, claro. Não temos cérebro, não temos emoções. Somos bestiais, incapazes de qualquer coisa além de beber e foder. Drummond, Dostoyevski e Picasso são um exemplo disso. Vaca.

Três e trinta e seis. AHHHHHH, PUTA QUE PARIU!!!! O DESPERTADOR TOCA ÀS SEIS!!!!!!!

Quatro e dois. Como é mesmo o nome da filha do Roger? Dani? Deisi? Nossa, depois que ela nasceu o cara mudou completamente. Ele e a Vanessa me assustam. Parecem felizes. Ele me fala da filha quase todo dia. Mostra as fotos. O bebê no banho. O bebê sorrindo. O bebê babando. Tudo isso não pode ser real. Um casal não pode ser tão feliz assim. A Vanessa deve chifrar o coitado e ele nem sabe. Ou ele deve trair ela... Será?

Quatro e vinte e sete. Será que a Beatriz trairia o marido?

Quatro e vinte e oito. Eu me casaria com a Beatriz. Eu teria uma filha com ela. Minha vida seria melhor? Será que a Beatriz me trairia?

Quatro e vinte e nove. Fez efeito. As bolinhas... o sonos dos justos...

Quatro e cinqüenta e oito. Um tiro. Na rua. Um traveco gritando. Merda. Merda. Eu desisto. Na tv, o Corujão. Um filme do Clint Eastwood. “Meu nome é Coogan”. Que bela porcaria. De repente, lá fora, o céu começa a mudar de cor. Vou pra varanda. A cidade começa a acordar, começa a se mexer. Este é o meu mundo. Clint Eastwood, Johnny Walker, Jontex lubrificado, mulheres gostosas. Muito barulho pra encher minha cabeça. Barulho é bom, muito bom. Essa é a minha vida. Só se vive uma vez, e da maneira que eu vivo, uma vez basta. Sim, senhor. A minha vida.

Amanhece.

5 comentários:

__cammy__ disse...

5h23: Pega um copo de vinho barato na cozinha, vai até a janela, acende um cigarro e aproveita o silêncio gelado... a primeira reação é se sentir sozinho e abandonado mas depois aprende a curtir o silêncio... e sente falta daquele momento o resto do dia...

Vic disse...

hahahaha ótimo, impossível parar de ler =D

racg68 disse...

Vá a merda! Para de se mexer aí em cima que eu quero dormir aqui em baixo!!!!

Fábio disse...

Oi Líber, grande texto. A precisão do Bukowski aliada ao fluxo de consciência do Henry Miller.
Abraços,
Fábio

Fabi disse...

O bom das noites insones é isso: elas promovem a criatividade...

;)