quarta-feira, setembro 27, 2006

Eu fui embora

No momento em que você lê isto, eu não estou mais aqui.

No momento em que você lê isto, eu fui embora, não sei pra onde, pra nunca mais voltar. Queria ter feito melhor, queria ter passado mais tempo com você. Queria ter sido mais digno de você. Mas não consegui. Desculpe.

Não sei bem o que fica no meu lugar. Fica alguma coisa, disso tenho certeza. Sempre fica alguma coisa. Por isso quando você o encontrar por aí, quando sorrir pra ele e ele te olhar nos olhos, não importa o que ele te diga, não importa o que ele faça, lembre-se: aquele não sou eu.

Eu fui embora.

8 comentários:

racg68 disse...

Puxa vida...
Que pena...
Eu gostava tanto dele...

Leticia disse...

Eu gostaria de saber onde termina o Liber real e onde começa o Liber ficção... talvez eu ficasse mais tranquila...
Beijos Liber!!!

Karina disse...

Eu não sei qual é a Karina que te responde.
Por vezes também me abandono, "vou-me embora" em busca de Pasárgadas e Elos Perdidos. Para que se possa renovar, é preciso morrer um pouco. Às vezes muito. Ás vezes à Baudelaire basta. Não importa.
Que venha o novo, seja ficcional, seja real, que venha ao menos o desejo de errar coisas novas.

Beijo amigo.

Aleverson Ecker disse...

RESÍDUO
Carlos Drummond de Andrade

De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficam poucas
roupas, poucos véus rotos,
pouco, pouco, muito pouco.

Mas tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
de teu áspero silêncio
um pouco ficou um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
nos pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
em pouco de mim algures?
no consoante?
no poço

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...

De tudo fica um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
do vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver...de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas tudo, terrível, fica um pouco.
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço do cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

racg68 disse...

Da última vez que nos encontramos ele falou com entusiasmo sobre a organização de um safari para caçar Mahars, nas regiões inexploradas de Pelucidar.
Ah, que inveja! Rever a bela cidade de Sari e reencontrar nossos grandes amigos Perry e Innes...

racg68 disse...

Pois não é que o encontrei?
Não aquele, mas o outro.
Lá para as bandas de França,
na abadia de Thélème.
Casado, rico e livre!

Anônimo disse...

Desculpe baby, não vou brincar com você
Desculpe baby, não vou mais ser João Ninguém...

Caminhante

O CÉU ESTÁ ALHURES... disse...

http://betanegan.blogspot.com/2007/12/new-old-post.html

PERCEBE-SE: SUSPIREI. LONGAMENTE. SE TIVER UMA ARRITMIA, A CULPA É SUA.