sexta-feira, setembro 15, 2006

Mantenha seus pés longe do chão. Ele é muito sujo.


23 anos. 23 andares. Ela deve ter batido no chão de costas, porque o caixão estava aberto e o rosto dela estava muito bonito. Sereno.

Depois do funeral, os dias passam.

A casa, os espaços vazios no sofá da sala, na mesa no café da manhã.

O quarto dela.

Ele se sentava na cama e olhava em volta. Pensava em vender tudo, dar para caridade, vender o apartamento, sair dali pra sempre. E tinha medo, tinha medo de que ela desaparecesse mesmo, se desvanecesse aos poucos de sua memória como um retrato que vai desbotando, desbotando. Daí ela estaria morta para sempre, quando todos tivessem se esquecido dela. O que aconteceria mais cedo ou mais tarde. Acontece com todo mundo. Então ele não vendia nada, não dava nada pra caridade nem pra ninguém. Pra segurá-la junto de si mais um pouco, só mais um pouco.

Naqueles primeiros meses sentava na cama dela, sentia ainda o cheiro dela no travesseiro, via os porta-retratos e fotografias na parede. A viagem pela Europa, as festas com os amigos, acampamentos. A foto que ele mais gostava era essa: ela aos seis anos, sentada no seu colo, vestida de chapeuzinho vermelho pra festa da escola. Sorrindo. Ela sorria sim, sorria quando recebia um elogio, abaixava os olhos e dizia “obrigada”, baixinho. Linda.

Na mesinha do lado da cama, abajur, porta-retrato, gaveta. Na gaveta, as cartelinhas inacabadas de Rivotril e Lexapro. E o caderno.

Ela mesma tinha feito o caderno, em uma oficina de encadernação. Ele tinha uma capa preta, com estranhas cores impressas, como quando você fecha os olhos à noite e olha para dentro de si mesmo. Capa preta e lombada quadrada. Um caderno com cara de livro. Dentro anotações, desenhos, fotografias. Ele virava as páginas com cuidado, queria deixar as coisas do jeito que ela deixara, mas uma vez fora descuidado e um papel caíra. Um recorte de xerox de uma fotografia, um homem segurando um gato. Ele nunca descobriu quem era o homem da foto. Mas imaginava que fosse um louco, um doente. Imaginava isso pelo camisolão que o homem vestia, pelo seu olhar demente, algo infantil, abestalhado. Aquele homem e seu gato eram mais uma parte do retrato inacabado de sua filha.

Quem era a moça que se jogou do vigésimo terceiro andar?

Ele virava as páginas com cuidado, com carinho, com pesar. Ele se perguntava onde tinha errado, como ele tinha deixado aquilo acontecer. Às vezes achava que a culpa tinha sido toda sua. Às vezes imaginava que se tivesse dado o tratamento adequado... Para protegê-la de si mesma, ele a teria internado, teria feito ela levar choques elétricos, teria entupido a menina de todos os ansiolíticos disponíveis no mercado. Para protegê-la de si mesma, ele a teria mutilado. Para mantê-la viva.

E, quando lia o caderno, ele ficava perplexo. Quem era a moça que se jogou do vigésimo terceiro andar? Como ela podia enxergar o mundo daquele jeito? Era mais do que um desequilíbrio químico no cérebro. Era uma série de fragmentos, de anotações, poesias, citações, desenhos e fotografias que formavam um discurso insano e deformado sobre o que era a vida. E, ao mesmo tempo, belo, apaixonado, intenso. Assustador. Fantasias, utopias e delírios, sonhos sem sentido, canções sem sentido sobre possibilidades impossíveis. Uma torrente de pensamentos que se estendia pelas páginas, que, de repente, exatamente no meio do caderno, convertia-se num silêncio branco. Como ela podia enxergar o mundo daquele jeito? O que mais ela teria escrito se tivesse conseguido chegar ao final do caderno? Se tivesse se permitido chegar ao final do caderno...

Se estivesse viva ela poderia se casar, poderia ter um emprego, filhos. Mas ela disse não. Não quis aceitar as dádivas, não quis aceitar as regras. O que ela queria da vida afinal? O que ela esperava? Por que não lutou, por que não procurou outra saída, procurou construir outro mundo, nem que fosse só pra si mesma?

Uma vida. E ela disse não.

Era uma coisa grande demais pra cabeça dele. Ele jamais entenderia. Nem precisava.

Sua menininha tinha ido embora pra sempre.

No fim, esse era o único fato.

O único e pesado fato.

O resto era discurso.

Um comentário:

racg68 disse...

O chão não é sujo, é concreto.
Os espaços não são vazios, são pletoros.
Como mutilar protegendo?