quinta-feira, setembro 07, 2006

Visceral

Ontem eu me disfarcei de Joey Barrish.

Ontem eu fui Joey Barrish. O casaco comprido que faz parecer mais alto e mais magro. O cachecol que tenta fazer da cabeça e do corpo uma coisa só, como se não existisse pescoço. O gorro que protege e esconde. Um frio, um frio danado hoje. E o meu mundo se disfarçou no mundo de Joey. Tarde da noite, caminhando sozinho pela rua XV, a luz amarela dos postes, as pessoas encolhidas e embrulhadas em trapos, deitadas na frente das lojas. O vento que entrava pelas fibras do casaco, gelado. Comediante sem graça, artista sem talento, voltando pra casa tarde da noite, Joey Barrish. E, porque eu era Joey, eu descobri que por dentro ele é feito de vidro. Vidro fino, do tipo que pode quebrar por qualquer coisinha, quebrar pra sempre, sem conserto, sem remédio. Porque eu era Joey, eu de repente me vi pensando que às vezes o amor é como câncer.

Amor.

Câncer.

Acontece, simplesmente acontece, lá dentro da gente. Às vezes demoramos pra perceber e quando nos damos conta está lá, nas nossas entranhas. E não é culpa de ninguém, nem nossa, nem do outro, nem de Deus. Simplesmente acontece. Talvez fosse uma predisposição, talvez fosse um mau hábito, talvez fosse algo no ambiente ao redor. Mas acontece e aquela coisa está lá, bem dentro da gente, enraizada, crescendo, se espalhando. Daí vem o medo de que essa coisa que cresce dentro de nós nos mate. Medo que nos assombra todas as horas do dia. E lutamos pra nos livrar dessa coisa dentro da gente e pra isso temos que fazer tratamento. O que pode significar retirar pedaços inteiros de nós mesmos. Nós nos mutilamos na esperança de continuarmos vivos e, com sorte, continuamos vivos (ou quase), embora, por dentro,estejamos cheios de buracos que jamais serão fechados. Para continuarmos vivos, nos afastamos de tudo que possa trazer o tumor de volta, mesmo sabendo que isso não oferece garantia nenhuma de que a coisa não ressurja, impregnada nos nossos pedaços que sobraram.

Às vezes, o amor é exatamente como câncer.

Altas horas da noite, frio do cão, eu era Joey Barrish, vivo, voltando pra casa, sentindo um grande vazio em algum lugar das minhas entranhas de vidro, e pensando quem teria sido a pessoa que eu tive que extirpar da minha vida.

Quem será que eu deixei pra trás pra poder continuar vivendo?

Hoje, eu não era mais Joey Barrish, mas o frio e a pergunta ainda mantêm meus pés gelados.

(Joey Barrish é o personagem de Jim Carrey no filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Assista, vale a pena. É um filme bem legal. Às vezes, o amor é exatamente como câncer, mas na maioria esmagadora das vezes é algo extremamente saudável e vital, embora de maneira nenhuma seja indolor.)

3 comentários:

Victória disse...

é bem como eu me sinto =(
ô vida

racg68 disse...

O amor não é um cancer.
O cancer é esse nosso apego a ele, não admitir que possa acabar.
Quem buscar estirpar a memória, ou tentar mante-la viva, está se condenando a padecer dos mesmos erros, dos mesmos sentimentos.
Mas sempre há aqueles que gostam de sofrer.

Lalahyn...!!! disse...

A vida eh uma ilusão, fazemos tanto para no final estarmos sozinhos e não podermos levar nada conosco, indo para um lugar q ninguem sabe...

PS: se usar msn me add...
fofinhahell@hotmail.com