quinta-feira, novembro 16, 2006

Try to believe



“A fotografia...
...insinua o que se perdeu...
...constrói o labirinto entre o que foi e o que é...
...torna o vazio visível...
...se torna mais forte do que a memória...”
Maria do Carmo Séren, Metáforas do Sentir Fotográfico.

Uma bela manhã de sol.

Um casamento em um restaurante. Olhos cheios de água, noivo nervoso, sorridente, trêmulo, em pé ao fim do longo tapete verde. Não vermelho, verde. Música. Daminhas de honra, convidados e convidadas. A noiva entra. Tão linda, tão feliz, tão nervosa, que, por incrível que pareça, quase erra o caminho, ignora o tapete verde e por um instante caminha para ele diretamente, através das mesas, através dos convidados. Por um instante. Eu devia ter fotografado. Estava com a câmara na mão, devia ter fotografado. Eu congelaria a imagem, mas precisaria explicar mais tarde o nervosismo da noiva, a energia que estava no ar, a história toda antes daquele segundo.

Coisas que a máquina não pega.

Ainda assim, tentamos capturar o momento, guardá-lo conosco. Mantê-lo em uma gaveta, sempre fresquinho, para olharmos pra ele e voltarmos àquele instante. Mas o instante não volta nunca mais e ficamos só com uma pegada na areia, um vestígio. All those moments are lost in the time like tears in the rain e aquela história toda. No meio das mesas, por entre os convidados, era engraçado ver os fotógrafos caminhando de um lado pra outro, capturando momentos como quem pega borboletas e as coloca em quadros. Era engraçado ver o pastor e os noivos agindo tão naturalmente enquanto o fotógrafo, segurando uma máquina que mais parecia uma arma, posicionava-se entre eles, mirava a objetiva em seus rostos e explodia o clarão dos flashes à queima roupa.

A vida é muito engraçada. Esse tipo de coisa a máquina não pega.

Eu conheci o noivo no comecinho da década de 90. Éramos garotos. Durante a semana tinha as aulas de Eletrônica naquela usina de loucos chamada Cefet. Protoboards, resistores, cálculos fudidos que ninguém entendia direito. Entre as aulas arranjar tempo pro primeiro emprego. Aliás, o primeiro subemprego, chamado estágio, em que éramos formatados, massacrados e preparados para o mercado de trabalho. Pressão, pressão, pressão. “Não se pode fazer omelete sem quebrar ovos” dizia o professor enquanto passava listas de exercícios impossíveis de resolver e que nos tomavam todo o fim de semana. “Lembrem-se, vocês fazem Eletrônica. Vocês são a nata da elite” dizia outro professor. Aos 16 anos tínhamos de ser maduros e responsáveis. Ali, naquele momento, você fazia a sua escolha. Ou fazia parte dos responsáveis, das pessoas sérias e maduras... ou você estava do nosso lado.

Éramos a nata da escória.

A noite era nosso turno. De noite estávamos vivos de verdade. Shows punks, garrafas quebradas no asfalto, acidentes espetaculares de moto, gargalhadas. Fazer vaquinha pra comprar garrafão de vinho no AM PM. Acordar às 10 horas da manhã no gramado da praça Eufrásio Correa sem tênis, sem saber como tinha se chegado lá. Filmes pornográficos, filmes do Pasolini, filmes da Catherine Deneuve. Poesias malditas, Nick Cave, David Bowie, Garotos Podres. Longas conversas madrugada adentro, sentados no meio-fio, bebendo cachaça, fumando maconha, olhando as janelas apagadas dos prédios, imaginando os sonhos das vidas empilhadas. Esperneando o quanto podíamos, tentando acreditar que estávamos fora do Grande Sistema.

Mas ninguém escapa.

Ainda assim nos divertíamos. Muito. Os Garotos Perdidos que Não Queriam Crescer.
E o grande clichê: os anos passaram. A vida aconteceu e não nos vimos por muito, muito tempo.
Uns seguiram com a Eletrônica, Engenharia e tal. A maioria partiu pra tentar Direito, Administração ou outra coisa qualquer. Eu fiz o tal do Design, porque eu podia desenhar e tinha umas gurias muito interessantes. Novas galeras, novos papos, decepções, alegrias e tal. Virei empresário, abri escritório. Era sócio, dono de parte do negócio. Isso significava trabalhar 12 horas por dia de segunda à sexta, mais quantas horas fossem necessárias no fim de semana. Negociava com empresários burros feito porta que não sabiam diferenciar um ilustrador de um vendedor de detergentes. Uma vez, um deles me disse sorrindo: “Não se pode fazer limonada sem espremer alguns limões”. Espremer até sobrar só bagaço. Não sei se a vida é dura ou se eu sou mole demais. Talvez os dois. Talvez eu ainda fosse o garoto que não queria crescer, que queria ainda estar na noite, vivendo, aprontando, barbarizando. Mas eu tinha responsabilidades. Enfim...

Era 2003 e de repente nos encontramos num terminal de ônibus. Eu e o meu velho camarada da época de eletrônica. Eu tinha tido uma semana longa e desgastante. Mas naqueles dias de escritório todas as semanas eram longas e desgastantes. Estava no terminal, tinha descido do ônibus – sim, eu era empresário, mas depois de dois anos de empresa não tinha carro, e acho que pode se dizer que eu era um limão mal-sucedido – então, eu tinha descido do ônibus, não sabia o que fazer, não sabia pra onde ir, ia voltar pra minha quitinete, me enfiar embaixo da cama e tentar dormir até morrer, quando (a vida é cheia de surpresas!) ele tocou no meu ombro. Velhão! Há quanto tempo, como é que tá, que tá aprontando, e tal. Coincidência: descobri que meu velho camarada morava no prédio na frente do meu. A gente tinha se mudado mais ou menos na mesma época e só depois de mais de um ano que por acaso nos encontramos.

Reencontrar os velhos amigos foi muito bom.

Eles tinham passado por maus bocados. Falecimento dos pais, falência nos negócios, desemprego. O maravilhoso mundo adulto. A vida marvada. Por um tempo, voltamos a fazer as velhas coisas. Nos agarramos às velhas coisas. Shows, filmes, peças de teatro, bebedeiras. Saíamos pra fotografar, escrevíamos poesias. Claro, isso tudo quando dava tempo. Mas é engraçado, não era mais como antes. Lógico que nunca seria mais como antes. Era hora de arrumar emprego, casar e sossegar. Isso era maturidade, não?

Naqueles dias costumávamos sair pra caminhar. Caminhávamos quilômetros, literalmente. Sentíamos angústias, falta de perspectiva, toda aquela conversa existencialista. E não víamos muitas possibilidades de sair daquela. Aqueles foram nossos dias no limbo. Acho que era hora de crescer, só não sabíamos ainda como. A última aventura que aprontamos foi uma longa viagem pelo Rio Grande do Sul, passeando pelos cânions, degustando vinho, explorando cavernas, almoçando na beira da estrada, curtindo praias. Foram duas semanas de algo muito parecido com um road movie, só que fizemos isso bem antes de pensarem em filmar Sideways.

E depois disso, novamente, o tempo.

Um a um foi sossegando, colocando a cabeça no lugar, entrando na linha. Uns encontraram sossego na Igreja. Outros no trabalho mesmo. Todos arranjaram uma namorada que seria a última namorada, a companheira para todos os finais de semana e todas as noites do resto da vida. Ou algo assim. E já não nos víamos mais de novo. Longo período de silêncio até que um dia meu amigo me convidou para o seu casamento. Que está acontecendo agora, diante de mim. E tudo isso me vem à cabeça, enquanto eu também fotografo, engarrafo momentos, com uma camerazinha de plástico.

Uma sensação engraçada pra caramba.

Um sorriso estranho, mas sincero.

Faz muito tempo que eu deixei o escritório pra trás.

A tal da maturidade. Talvez maturidade seja reconhecer que não há álibi para existência. Talvez maturidade seja assumir que a vida, mais do que uma sucessão de momentos, é uma sucessão de escolhas. E nós temos a responsabilidade por essas escolhas. Nós e mais ninguém.

Uma sensação engraçada pra caramba.

Ele beija a noiva, todos aplaudem. Na minha mesa, todos têm seu par. E eu tenho um oceano de possibilidades diante de mim.

Lá fora faz um lindo dia.




It's so hard to find an answer
It's so hard to stand alone
It's so hard to find a feeling
That was buried long ago
It's so hard to trust another
When it's easier to hide
It's so hard to believe
Unless we try baby try

(…)

If we listen to the voices that were silent for so long

If you thought they went away, well you couldn't be more wrong
If I tell you there is something that we've lost but can retrieve
If I tell you there is hope, if we try to believe
You remember there's a dream that we long since put aside
With the toys that we discarded
And the tears we never cried
We could have had it once again, if we try baby try

Danny Elfman, Try To Believe, executada por Mosley & the B-Men

2 comentários:

Anônimo disse...

It's so hard, baby...
But we can satand it!

Fabi disse...

It's so hard baby...
But we can stand it!