quarta-feira, dezembro 06, 2006

As coisas intangíveis que chacoalham as nossas almas


“Realidade é tudo aquilo contra o que esbarramos no caminho para a morte, portanto, é tudo aquilo que nos interessa”.
Vilém Flusser

De repente, a história do Orpheus vem na minha cabeça. Orpheus, o filho do Morpheus. Morpheus, o Sandman. Tá ligado? Sandman, cara, simplesmente o quadrinho mais bacana que lançaram em toda a década de 90! Sandman, o Senhor dos Sonhos, escrito pelo Neil Gaiman com as capas alucinantes do Dave McKean! O Sandman, cara! Então, ela está ali comigo, estamos no quarto da bagunça dela, tem partituras pelo chão, um gato branco, completamente branco, de olhos amarelos, tá sentado no batente da porta, as pupilas são duas fendas, duas adagas fixas em mim, parece um diabinho branco, um homúnculo saído de algum pesadelo, parece que ele vai me dizer alguma coisa, vai falar uma frase, uma sentença que vai me enlouquecer, transfigurar minha alma, vai me transformar em uma coisa insana e indescritível presa para sempre sob a carne humana. Com uma frase. O nome do gato é Leopoldo. Foi o que ela me disse. Descrevi o gato e ele é só um detalhe deste cenário, deste momento. O quarto dela, a chuva murmurando baixinho na janela, as partituras pelo chão, o gato sentado na porta feito um vulto branco recortado na penumbra. Uma parede é feita só de livros, ela lê, ela lê poesias, lê pra mim, rostinho perto do meu e ela é linda. Eu a desenhei outro dia num café. Ela era linda, linda, linda, sabe, o tipo de beleza que te faz suspirar “meu deus” porque não tem mais nada que se possa dizer. E ela estava lá, peguei meu bloco e comecei a desenhar, desenhar, desenhar. Nunca fiz isso, desenhar assim em local público, não faço essas coisas, sou muito chato comigo mesmo e não consigo ser espontâneo, mas naquela hora eu não conseguia ser chato, não conseguia ter medo de que o desenho não ficasse legal, não conseguia tremer, eu só desenhava, só enxergava ela e de repente o desenho tava pronto na minha frente, o desenho de uma mulher linda que eu não conhecia e quando me dei conta, eu tava na frente dela, “licença moça, desculpa te incomodar”, ela tava lendo, olhou pra mim, passei o desenho pra ela, “fiz pra você”, e ela fez aquela cara de assombro, aquele rosto lindo se abrindo numa expressão de assombro e eu fiquei com um puta orgulho de mim mesmo, porque, foda-se a modéstia, o desenho tinha ficado bom, bom pra caralho. E agora o rostinho dela está tão perto do meu, tão perto, e ela tem um violão sobre o colo que agora a gente está usando como mesinha pras taças de vinho, o chão forrado de músicas, o gato em guarda na porta, o murmurinho da chuva, a parede inteira de livros e ela lê uma poesia, lê uma poesia sobre a morte. E eu estou ali, sentado, saboreando cada segundo antes do beijo, o primeiro beijo, gravando cada detalhe da cena, bem no fundo da minha cabeça. A poesia sobre a morte. A voz dela e a chuvinha. Uma tarde de domingo. A poesia sobre a morte.


“As pessoas são como poesias” eu falo sem pensar, nem sei se sou eu falando, ela olha pra mim. Como contos, como poesias, de repente as pessoas entram em nossas vidas com uma frase solta, uma sentença sem compromisso, que é seguida de outra, de outra, de outra e quando vemos estamos imersos num poema vivo, numa história que enche nossa realidade de sentido. Frase após frase, momento após momento, e tudo criado tem um fim. O livro vai se tornando mais fino, vemos um espaço em branco no fim da página, e vem o fim, esperado ou não. O fim. E podemos ler e reler o poema, o conto, mas aquele momento, aquele primeiro momento nunca mais se repete. Pessoas são como poemas. O encanto acontece em um momento que nunca mais se repete. Ela olha pra mim, estamos embalados no vinho, mas ela não sorri, ela olha pra mim, ela olha pra mim e eu penso em Orpheus. Orpheus, que desce às profundezas do reino dos mortos para buscar a mulher que ama. A mulher que ama, que morrera na véspera de seu casamento. E o Senhor dos Mortos diz que ele pode voltar para a superfície, que sua amada estará atrás dele, seguindo-o como uma sombra, mas que em hipótese nenhuma Orpheus deve olhar para trás. “Não olhes para trás”. E ele segue o longo caminho de volta para o mundo dos vivos, horas de caminhada sem ouvir absolutamente nada atrás de si, nem passos, nem suspiro, nem coração. E quando chega à superfície, certo de que foi logrado pelo Senhor dos Mortos, ele olha para trás. No último minuto, ele olha para trás e vê a mulher que ama, a mulher que ama, desaparecer nas trevas para sempre, como um poema que termina repentinamente, um poema rasgado que se repete indefinidamente em sua alma, eternamente voltando, eternamente olhando para trás. E eu a beijo. Sabor de vinho, garoa, música, poesia, pele, agora ela sorri. Um poema que talvez esteja começando ou talvez acabe antes do anoitecer.

E me ocorre que talvez não seja tão fácil dizer exatamente quando um poema começa.
Ou quando não se deve olhar para trás.

(No topo, ilustração de Dave McKean para a revista Sandman número 1)