quarta-feira, dezembro 13, 2006

O ANO DO CÃO

De acordo com o horóscopo chinês, este foi o ano do Cão. Segundo o que ouvi numa noite de bebedeira em meados de janeiro, o ano do Cão seria particularmente difícil, mas todas as conquistas realizadas neste ano seriam duradouras e sólidas. Era uma noite de bêbados, então esta informação é duvidosa e precisaria ser confirmada com fontes mais confiáveis. Entretanto, minha experiência pessoal confirma pelo menos a parte do “particularmente difícil”. Muito dessa dificuldade provavelmente foi culpa minha. E quanto às conquistas sólidas e duradouras, acho que ainda é meio cedo pra dizer. Hora de fazer balanço. A famosa retrospectiva de fim de ano.

Uma noite, acho que em abril, eu fui assistir a uma conversa com a escritora Fernanda Young. Eu só tenho certeza de que foi uma quarta-feira, no teatro da Caixa. Eu li um livro da Young e gostei. Não conhecia ela direito, imaginava que ela fosse uma pessoa meio esnobe ou cheia de chiliques. Eu me surpreendi. Ela me pareceu ser sincera e bem legal. Uma pessoa legal, entende? Gente finíssima. Gostei muito dela, como pessoa mesmo. Daí em determinado momento da conversa, ela comentou algo sobre literatura não poder ser autobiográfica. Talvez não tenha sido bem essa a intenção dela, mas me lembro de ela ter dito algo como “ah, eu não ia fazer autobiografia, eu queria fazer literatura pelo amor de Deus” ou algo assim. E uma das coisas que mais pensei nesse ano foi em fazer literatura. Seja lá o que isso for. Enfim, a Fernanda Young disse aquilo e pouco tempo depois caiu na minha mão o livro do Bukowski, O Capitão Saiu Para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio. Esse livro é um apanhado das anotações do diário de Bukowski, nos seus últimos dias de vida. Pelo menos, é o que dizia no textinho nas costas do livro. Dizia que eram notas de seu diário pessoal e que eram literatura de primeira. De repente me ocorre que tudo que eu li naquele livrinho pode ter sido realmente ficção. Tudo inventado pelo Bukowski. Ou por alguém que assina “Charles Bukowski”. E que diferença faz? Eu lia esse livro e podia ver o velho sentado na minha frente, dizendo “se você quer mesmo escrever, ninguém pode te impedir. Se você quer mesmo fazer qualquer coisa, ninguém pode te impedir”. Fiquei muito impressionado com isso, com a riqueza dos pequenos detalhes do cotidiano do velho, dos seus gatos mijando no computador, dos cochilos na piscina, nas arrastadas tardes no hipódromo. Com a honestidade dele. Literatura ou autobiografia? Não sei. Esse ano também comecei a fazer mestrado e conheci uns autores sensacionais, inclusive uma dupla chamada Bakhtin e Voloshinov, que diziam coisas muito interessantes sobre a relação da produção artística literária com a vida cotidiana, com a unicidade de cada momento da existência de cada um. Mas não vou te aborrecer com detalhes.

Esse ano pensei muito em fazer literatura.

Seja lá o que isso for.

Ontem brinquei de desenhista, num evento de embalagens, cheio de gente, em um lugar em que eu nunca tinha estado. Foi muito divertido. Enquanto ia no ônibus, relia uma história de um gibi do Sandman, sobre uma cidade mítica cuja população inteira se dedicava a ritos funerários. Em um determinado momento, um dos personagens dizia “Todos os rituais nos ajudam a dizer adeus. Nós temos que dizer adeus. Esses ritos também têm outras funções. É uma temeridade sermos assombrados pelos que já amamos. É uma temeridade assombrarmos os que amamos”. Verdade.

Existe uma razão que me fez começar a escrever esse blog. É uma razão bem óbvia, você pode encontrá-la nas entrelinhas de uma série das 63 postagens que fiz aqui. É uma razão que foi se transformando, mudando e que implicou em uma série de atitudes que tomei esse ano, algumas das quais me orgulho, outras que me arrependo. Um ano atrás existiu uma razão que me fez começar a escrever esse blog, mas agora existem muitas outras razões que me fazem continuar a escrevê-lo. Muito embora eu não saiba explicar bem quais são.

Olhando para trás, foi um ano excelente, cheio de viagens e histórias boas para se contar, cheio de oportunidades boas para viver. Esse ano eu conheci uma série de pessoas legais e fiz bons amigos e aconteceram coisas maravilhosas. Esse ano eu vivi legal. Mas também foi um ano particularmente difícil. Acho que não disse adeus do modo adequado quando precisava. E nem sei se existe um modo adequado de dizer adeus. Isso ainda me perturba.

Esse sábado eu assisti um filme sensacional chamado O Grande Truque. É a história de dois mágicos rivais na Londres do fim do século XIX. Os mágicos são Wolverine (Hugh Jackman) e Batman (Christian Bale). Tem também o Golum Smeagol (Andy Serkis) e o David Bowie (David Bowie, mas nesse filme ele faz o papel de Tesla). E o Michael Caine e a maravilhosa Scarlett Johanson. O diretor é o Christopher Nolan, que já fez Amnésia e Batman Begins. Bom, posso dizer que achei o filme sensacional. Não só pelo filme em si, mas pelo meu momento. O filme fala muitas coisas sobre o que é um show de mágica, sobre a relação do público com o espetáculo, a relação do artista com sua obra. Uma metáfora bacana que se estende pra literatura, arte e qualquer outra coisa que se queira fazer da vida. É só saber o que se quer ver. E o filme é sobre como as pessoas vêem o que querem ver. Sobre sacrifício e dedicação. Talvez sobre a construção de um sentido para a vida, que depende de cada um. Amor e família para uns, arte para outros, sacrifício para todos. Quem sabe? Você começa o jogo e tem tantos caminhos diante de si, mas quando termina e olha pra trás vê só uma trilha. Vê aquilo que quer ver.

Uma vida pode ser um livro, pode ser um show de mágicas, pode ser um longo adeus. Pode ser tanta coisa.

Balanço de fim de ano. Eu olho pra trás agora e me orgulho de muita coisa e me envergonho de outras tantas. Uma razão para começar, outras tantas que vão aparecendo e que nos fazem seguir em frente. Mas no fim o passado é só uma coisa dentro da nossa cabeça, que só faz sentido dentro da nossa cabeça. Como um sonho, um amor ou uma história.

E a única coisa a fazer é seguir em frente.

Mude a direção, se quiser, mas continue em frente.

Um comentário:

Leleca disse...

(comentário infame e nem um pouco à altura do texto:

" continue a nadar! continue a nadar" - dory, de procurando nemo)