quarta-feira, dezembro 06, 2006

Um pouquinho mais sobre o Sandman



Existem os fãs. De Senhor dos Anéis, de Lost, de Arquivo X, de Star Trek. Mas os fãs mesmo. Sabe o que é um fã de verdade? Sabe quando você encontra um livro, uma história, que parece mais real do que a vida real? Sabe quando os personagens saltam das páginas, tornam-se palpáveis, caminham ao seu lado durante as horas mais claras do dia, fazem você tropeçar nas coisas e de repente o mundo de fantasia tem muito mais vida e cor do que a rotina opaca do seu cotidiano? Não se trata de escapismo, não se trata de fugir da realidade, mas imaginar a possibilidade de outras realidades. Repensar a realidade usando como ferramentas palavras, imagens e imaginação. O limiar entre o louco e o visionário, entre o sonho e o despertar. Como se nas entrelinhas da ficção se escondesse uma chave, uma resposta para uma pergunta que nem se sabe formular direito. Enfim, eu sou o que você poderia chamar de fã de Sandman. Sem dúvida.




Em novembro de 1989 a revista Sandman começou a ser publicada no Brasil. Eram histórias em quadrinhos escritas por um jovem escritor inglês chamado Neil Gaiman para a editora norte-americana DC Comics, a mesma que publica as histórias do Super-Homem e do Batman. A proposta da revista Sandman era retomar um personagem esquecido dos anos 40 e dar uma atualizada nele. Neil Gaiman reformulou completamente este personagem, mantendo apenas o nome. Sandman, no folclore europeu, é tipo um ser mágico, estilo Papai Noel ou Fada dos Dentes, que joga areia nos olhos das crianças para fazê-las dormir e lhes trazer bons sonhos. O personagem dos quadrinhos dos anos quarenta era um detetive que usava chapéu, máscara de gás e uma pistola que disparava vapores que faziam as pessoas dormir. O personagem que Gaiman propôs foi uma entidade, que não era humana ou divina, mas um ser que era a personificação do conceito de sonhar. Esse personagem fazia parte da essência de todas as criaturas vivas e tinha muitos nomes e aparências físicas, dependendo de quem ou o quê o estivesse vendo. Assim, Sandman também era chamado de Morpheus, Sonho, Príncipe das Histórias, Rei dos Sonhos e muitos outros nomes e embora geralmente fosse descrito como um homem pálido de olhos brilhantes, também podia se apresentar como um gigantesco crânio flamejante ou um enorme gato preto.




Sandman era o Sonho e existiam outras seis entidades como ele, seus irmãos, os Perpétuos, que eram descritos como “idéias envoltas em algo semelhante à carne”, mais velhos que os deuses e as estrelas. Os Perpétuos eram Destino, Morte, Sonho, Desejo, Desespero, Delírio e o pródigo, um Perpétuo que abandonara a “família” e cuja identidade permaneceu um mistério por muito e muito tempo. Nas palavras de Neil Gaiman:

Os Perpétuos foram, eu acho, uma tentativa de criar deuses (embora eles não sejam deuses), personificações antropomórficas; uma metáfora incomum que poderia ser usada como um modo de ver o mundo. Mas, principalmente, uma tentativa de criar uma família que interagisse como uma família faz.



Em torno dessa “família”, Neil Gaiman construiu uma série de histórias em quadrinhos que se tornaram um sucesso de crítica e público como há muito não se via. Na revista Sandman, o fantástico e o cotidiano se entrelaçam em uma narrativa rica, cheia de detalhes,que mistura auto-referências, terror, literatura clássica, humor, poesia, romance, rock’n’roll, filosofia, religião, mitologia, misticismo, folclore, cinema, artes plásticas, personagens e fatos históricos reais. Em linhas gerais, esses eram os ingredientes de Sandman. Em suas histórias se alternam as perspectivas de seres sobrenaturais com pessoas comuns, surgem novos personagens e novos pontos de vista a cada momento. Em um momento estamos em um castelo que existe no coração do Sonhar, participando de um banquete entre deuses e seres fantásticos (Odin, Anúbis, fadas e demônios). Em outra hora, estamos em um apartamento vendo uma moça acordar no meio da bagunça, sozinha, pensando no que fazer do seu dia, na falta de dinheiro, no namorado que a deixou. E muitas vezes o cotidiano e o fantástico se tocam, quando, por exemplo, o casal de namoradas descobre que sua vizinha careta era na verdade a última representante de um círculo de feiticeiras com séculos de idade. Gaiman é um escritor muito talentoso, com uma prosa divertida e poética, e consegue construir personagens extremamente convincentes. Mais que isso, consegue fazer o leitor se importar com esses personagens. O autor ainda brinca com o tempo cronológico, com a sucessão dos eventos, com ações de personagens tendo repercussões sobre a vida de outros que nunca encontraram ou encontrarão, numa sutil e fascinante rede de auto-referências.O próprio Sandman, o personagem título, muitas vezes mal aparece nas histórias, sendo apenas um coadjuvante na própria revista e abrindo espaço constante para novos personagens, mundanos ou fabulosos, desfilarem em suas próprias aventuras. Na verdade, o tema central de Sandman é justamente a narrativa, a arte de contar histórias. Por isso, talvez, o jogo de Neil Gaiman em alternar e misturar narrativas do cotidiano com situações fantásticas. E talvez seja justamente esse o grande charme da série inteira.

No Brasil, a revista foi muito popular durante os anos 90, embora tivesse uma publicação irregular, com espaços de meses entre um número e outro. Nas duas vezes em que Gaiman esteve no Brasil (em 1995 e 2001) o número de pessoas na fila de autógrafos passou do milhar. (Sim, eu estava lá.) A versão brasileira era enriquecida com um encarte chamado HQ Press, que trazia sempre uma matéria sobre o tema da história da revista ou sobre as novidades dos quadrinhos pelo mundo. Nesse encarte foram publicados textos muito interessantes sobre a censura nos quadrinhos, a relação cinema e quadrinhos, a presença de temas como os sonhos, a violência e o sexo nas histórias e também análises de quadrinhos que hoje são clássicos, como V de Vingança de Alan Moore. A edição nacional também tinha o charme de apresentar nas costas da revista uma ampliação de um detalhe da capa. As capas de Sandman, aliás, eram um espetáculo à parte. Produzidas pelo designer/ilustrador/artista gráfico Dave McKean, as capas surpreendiam a cada número. Utilizando desenho, pintura, fotografia, colagem, McKean criou uma série de capas diferentes de tudo que já tinha sido visto no mercado de quadrinhos. Mais tarde, essas capas foram publicadas em uma coletânea, um livro encadernado que apresentava as capas e textos de McKean e Gaiman comentando as mesmas. Essa edição também foi publicada no Brasil.

A série Sandman teve 75 edições e uma edição especial. Não foi cancelada, mas sim encerrada por decisão do próprio autor. Gaiman achava que já tinha dito tudo o que queria com o personagem, e desde o começo tinha planejado encerrar a série, que enxergava como uma única e grande história. A última edição de Sandman, a número 75, foi publicada no Brasil em outubro de 1998.

Atualmente no Brasil, Sandman está sendo republicado em grandes edições encadernadas pela editora Conrad. Serão dez volumes, cada um trazendo uma série fechada de histórias. O preço é bem salgado, mas a qualidade da publicação é impecável. Claro que é bem diferente acompanhar a série encadernada e a sua forma de revista original. Muitas pequenas histórias foram lançadas em determinada ordem e depois coletadas num único volume (Fábulas e Reflexões), mas não é nada que comprometa o entendimento. Para quem tiver interesse, segue abaixo uma brevíssima sinopse de cada volume:

  1. Prelúdios e Noturnos: conta a história de um homem que queria aprisionar a Morte, mas por engano acaba capturando o irmão mais novo dela, Sonho. Após ficar encarcerado por 72 anos, Sonho escapa e parte na busca de suas ferramentas (um elmo, uma algibeira e um rubi) que haviam sido dispersas pelo mundo desperto.
  2. A Casa de Bonecas: A vida de Rose Walker muda quando ela encontra uma senhora que diz ser sua avó. Mais do que descobrir a verdadeira história de sua família, Rose também precisa lidar com a herança de sua avó, que além de muito dinheiro e uma casa de bonecas, inclui uma misteriosa condição.
  3. Terra dos Sonhos: Uma coletânea de quatro histórias curtas. Calliope é sobre um escritor e sua contrariada musa. Um sonho de mil gatos conta a história de uma inusitada revolução felina. Em Fachada, a Morte dá uma força para uma mulher triste e desesperada que não consegue morrer. Sonho de Uma Noite de Verão é a única história em quadrinhos que ganhou até hoje o World Fantasy Award, prêmio para o melhor da literatura fantástica. Aqui vemos uma apresentação do grupo de teatro de William Shakespeare para uma platéia incomum e descobrimos sobre um acordo entre o Rei dos Sonhos e o famoso escritor.
  4. Estação das Brumas: Provavelmente a mais inusitada, surpreendente e divertida história da série inteira. Sonho é obrigado a descer ao Inferno para libertar uma mulher que tinha sido vítima de um erro seu. Entretanto, há pouco tempo atrás, Lúcifer, o primeiro entre os caídos, tinha jurado destruir o rei dos sonhos. Ao chegar ao Inferno, Sandman se defronta com uma completamente inesperada forma de vingança. Além da participação de diversos deuses e criaturas mitológicas, encontramos pela primeira vez os seis Perpétuos reunidos.
  5. Um Jogo de Você: Barbie é uma garota confusa, passando por um período de crise emocional e financeira. Ela mora num prédio com uma série de vizinhos estranhos e sua melhor amiga é um travesti chamado Wanda. Embora não saiba disso, Barbie também é a Princesa e a última esperança de uma terra inteira à beira da aniquilação total. E de repente, os sonhos saem à luz do dia e ela não sabe mais o que é real.
  6. Fábulas e Reflexões: outra coletânea com diversas histórias curtas, entre elas a história de Orpheus, filho de Sandman com a musa Calliope. Há contos que se misturam a eventos e personagens históricos reais, como a Roma antiga ou a Revolução Francesa e ficções sobre o folclore cigano e a história fantástica da cidade de Bagdad. O volume mais heterogêneo de estilos e conteúdo da série toda.
  7. Vidas Breves: Sonho e Delírio saem pelo mundo desperto procurando pelo Perpétuo desaparecido. E o encontram. A essa altura da série, já sabemos que a dupla Sonho & Delírio por si só é impagável. Só isso já valeria a pena. Mas tem mais. Muito mais.
  8. Fim do Mundo: Em uma estalagem chamada Fim do Mundo, viajantes apanhados de surpresa por uma tempestade, se reúnem para passar a noite e esperar a borrasca passar. Para se entreter contam histórias. Convém dizer que dois desses viajantes vêm de Nova York. Os outros vêm dos mundos dos mortos, das lendas e dos sonhos. Ao fim da noite, descobrimos a verdadeira natureza da “tempestade”.
  9. Entes Queridos: O Reino dos Sonhos está sendo destruído. Sonho se vê diante de uma situação irrevogável. Deve pagar, e caro, pelo ato que cometeu em “Vidas breves”.
  10. Despertar: Um epílogo para os eventos de “Entes Queridos”. As coisas nunca mais serão as mesmas. E é o fim da série.

Além de Sandman, Gaiman escreveu duas mini-séries com a irmã mais velha de Sonho, a Morte, que se tornou uma das personagens femininas mais carismáticas de todos os tempos. Em 2003 foi lançado um livro contendo sete histórias inéditas dos Perpétuos, desenhadas por alguns dos artistas mais badalados dos quadrinhos da atualidade. O volume de luxo tem o título de Noites Sem Fim. É um pouco decepcionante, na minha opinião. Um dos fatos mais interessantes na história editorial de Sandman foi o controle que Gaiman conseguiu manter sobre sua criação, mesmo sem ter os direitos legais sobre ela (a posse dos direitos era da DC Comics). A popularidade do autor e sua ligação com o personagem eram tão fortes que mesmo com o sucesso de vendas, a grande editora consentiu que ele encerrasse a série sem ser substituído por outro escritor (fato comum no mercado de quadrinhos). Mais ainda, a DC foi extremamente tolerante com atrasos de meses entre uma edição e outra.

Enfim, isso era o que eu queria dizer sobre Sandman. Na verdade, tem muito mais coisas, mas eu vivo dizendo que o que estraga séries como Arquivo X, Star Trek, Lost e Senhor dos Anéis são os fã-náticos. Não sei se posso ser classificado como fanático por Sandman, nunca me fantasiei de Morpheus, nem tatuei o Talismã contra maus sonhos, mas tenho um apreço pela obra que é um pouco fora do normal. Enfim, se você leu até aqui, obrigado pela atenção e espero não ter saturado a sua paciência.

Bons sonhos.


Para saber mais:
  • www.sonhar.net

  • www.omelete.com.br/sandman
  • 3 comentários:

    Anônimo disse...

    De nada. Pra você tbm. ;)

    Caminhante

    Teca disse...

    Santa ignorância, Batman!! E eu q só conhecia o Sandman da música do Metallica, "Enter Sandman"....
    rsrsrrs

    Marlon Araujo disse...

    Ola Liberland, seguinte, conheco a serie Sandman a pouco menos de 5 meses, mas ja foi o bastante pra correr atras de todas as historias, extras, livros a parte que o Gaiman escreveu como Stardust e o Deuses Americanos.
    e como voce encaro o livro como uma porta pra outras percepcoes... achei que voce passou extremamente bem a mensagem sobre oque Sandman eh.
    parabens pela ''resenha'' .