domingo, janeiro 07, 2007

Anteriormente, em "Lost"... (Previously on "Lost"...)

Caríssima,

Isso não é um texto. É um fluxo desordenado de pensamentos.

“Que Nossa Senhora te abençoe. Um bom domingo pra senhora e toda sua família”. Um velhinho fala isso pra minha mãe. Ela caminha de braços dados com meu pai, é domingo, pouco depois do meio-dia, estamos no Alto da Glória, ao lado da igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Eu estou no carro e escuto o velhinho falar isso para meus pais e eles somem dentro da igreja. As ruas estão vazias, o céu está nublado e eu não sei o que penso a respeito de Deus. Tenho uma vida maravilhosa e tenho uma vontade estranha de chorar. O velhinho usa roupas humildes, puídas, limpas. Camisa azul clara, quase branca, uma calça marrom pálido, um boné branco. O velhinho está sentado no banco de um ponto de táxi e não há mais nada por perto. Pombos, o velhinho e eu, dentro do carro, escrevendo uma carta dentro da minha cabeça. Dentro da minha cabeça todas as vozes falam ao mesmo tempo e eu deixo que falem. O velhinho tira um sanduíche amassado de dentro de uma malinha surrada do Dom Bosco. Eu não sei o que pensar a respeito de Deus. Por um instante penso que a vontade de chorar vai se tornar ação, mas é alarme falso, os olhos umedecem mas não o suficiente pra fazer uma lágrima. Eu também não sei o que pensar a respeito disso. Coisas aconteceram, Caríssima. E ainda acontecem. O tempo todo.

Dias extraordinários e eu sei que sou uma pessoa abençoada, supondo que existam realmente bênçãos. Imagens e vozes na minha cabeça, silêncio na rua enquanto o velhinho come seu almoço amassado. Morte. A morte muda tudo. Pouco depois do Natal, numa quarta-feira, meu pai teve convulsões violentas. Gemeu, desmaiou, tremeu, suava e seu corpo estava gelado. A imagem de meu pai deitado, ao lado minha mãe, e a porta da ambulância fecha. SIATE. Letras laranjas sobre fundo branco. Meu pai vai embora.
E de repente os deuses de nossa infância se fazem tão frágeis, tão frágeis...

Noite de virada de ano, a última noite deste 2006, estou vendo fotos e filmes com meu primo. Lembranças de família, rostos que partiram. O mais assustador é o vídeo. Os avós que se foram há tantos anos estão ali, falando, rindo. Revejo os trejeitos do meu avô. Quando eu era criança, eu tinha medo do escuro. E tinha medo também do meu avô. Dormia de luz acesa, medo de que o Demônio, Satã ou Jesus Cristo surgissem em meu quarto e me carregassem pra escuridão. Numa noite, na cozinha da casa de minha avó, eu bebia um copo d’água sozinho. Meu avô entrou na cozinha. Eu tinha medo dele e tinha razões pra isso. Mas ele só olhou pra mim e disse: “Não precisa ter medo. A escuridão é exatamente igual a luz. As coisas são as mesmas na escuridão ou na luz.” Nunca esqueci disso. Não sei dizer se é verdade ou não, nem sei dizer se o meu medo da escuridão passou completamente, mas acho que, parando pra pensar, eu carrego muita escuridão dentro de mim. Acho que todo mundo carrega um pouco. E não faz sentido ter medo de uma coisa que a gente carrega dentro de si, não é?

Conheci uma menina em 2006. Conheci ela mais ou menos. Na internet, esse tal de msn. Existe algo em conhecer pessoas através de textos e um dia vou escrever sobre isso. Mas eu conheci essa mulher e ela é bacana, é escultora, escreve muito bem e fez um trabalho fascinante de pesquisa sobre pessoas que ficam cegas na idade adulta. Fascinante.

Penso em outra garota, que eu gosto muito. Penso em Clarice Lispector. Em uma crônica, ela escreveu: “E quando nos álbuns de adolescente eu respondia com orgulho que não acreditava no amor, era então que eu mais amava”. Doce Clarice.

Passei a melhor virada de ano em muitos anos, com praia, boa companhia, conhecendo gente nova, dando risada, assistindo Lost de madrugada, lendo, vivendo. E na noite da virada vi as fotos, vi o vídeo. E o vídeo me assustou porque eu vi um homem numa festa de casamento. Ele era o padrinho, vendeu a gravata do noivo, arrecadou dinheiro, fez um discurso pra um salão cheio de convidados e dançou feito um louco, tirando sarro, chacoalhando o corpo de qualquer jeito, uma sátira do que se chama de dança. E o homem era eu. Era eu. E como eu me sinto desconfortável com isso. Como ele se move, como ele fala, como soa sua voz, suas piadas, seu rosto, como eu posso estranhar tanto todas essas coisas se ele sou eu?

Máscaras. 2006 foi o ano das máscaras e eu fui uma máscara. “E o homem por trás da máscara onde está?” ela me perguntou e fui eu lá procurar. Violão, flauta, violino, saxofone, são instrumentos ocos. Eles precisam do vazio dentro de si para se fazerem ouvir, muito embora esse vazio não exista. Você entende? Não sei por que isso me ocorreu. Fui procurar quem era a pessoa por baixo da máscara e numa madrugada John Locke (não o filósofo, mas o caçador preso naquela tal ilha misteriosa) disse que “a melhor maneira de encontrar alguma coisa é parando de procurar” e isso não sai da minha cabeça. Isso não sai da minha cabeça.

Na praia folheio uma revista Veja preguiçosamente. Um review de 2006. Encontro de repente uma foto. Fico chocado, assombrado, maravilhado. O texto que acompanha a foto diz: “(as baixas nas Forças Armadas americanas) chegaram em 2006 à marca dos 3000 mortos e 10000 feridos graves. Em cidades de alta concentração de militares, já são visíveis as marcas da guerra – e nenhuma delas é mais impressionante do que as que cobrem o corpo do sargento Ty Ziegel, 24 anos. Alto e bonitão, ele estava numa patrulha com seu pelotão de fuzileiros navais quando explodiu um carro-bomba. Sofreu traumatismo craniano, perdeu um olho, o antebraço esquerdo e três dedos da mão direita. O fogo consumiu lábios, orelhas e nariz. Na mesa de cirurgia, os médicos tiraram o lobo frontal de seu cérebro. Em outubro passado, recuperado do pior, apesar das deformidades, casou-se com Renee Kline, a namoradinha de antes da guerra, cercado por damas de honra e companheiros em uniforme de gala, que são a imagem espelhada do que ele era e jamais voltará a ser”.



Ontem fui a outro casamento. Amigos que conheço há mais de 15 anos. Amigos por quem tenho uma estima enorme. E falam sobre o amor, sobre Deus, que não colocou ninguém no mundo para ser sozinho. E eu penso em Deus. Penso com cuidado, porque, se você realmente começar a pensar a sério a respeito de Deus, suas conclusões podem não ser muito agradáveis.
Mas hoje de manhã passei por uma igrejinha adorável com meus pais. Entrei nela, e pensei no que dizer a Deus, se ele estivesse me ouvindo. Não tenho coragem de pedir nada. Só me ocorreu agradecer pela vida que tenho. Eu sou um sujeito com uma sorte danada. Tenho saúde, tenho família, tenho amigos. Mas acima de tudo, tenho responsabilidades pelo que eu sou, por quem eu sou. Que mais alguém pode querer?

Caríssima, esse foi o meu “Anteriormente em Lost”. Agora eu começo uma nova temporada. A minha nova temporada. Como se a passagem de ano, como se os fogos e desejos da noite do dia 31 significassem uma possibilidade real de mudança. Como se eu pudesse ter a esperança de mudar. De vencer a saudade. De parar de procurar por algo que eu nem sei o que é. De simplesmente estar aqui, vivo. De verdade. “Só uma noite como outra qualquer” ela me disse, mas não é. Não dentro de algumas cabeças e corações.

Caríssima, você me perguntou sobre resoluções de ano-novo, sobre planos e premissas. Eu sempre gostei de planos e listas, mas não consigo pensar em nada pra 2007. Dizer que vou prosseguir com minhas tarefas é como dizer que pretendo continuar respirando. Como eu posso planejar alguma coisa, se de repente a vida acontece? Eu tenho uma noção pra onde vou e sigo em frente, sem aspiração nenhuma. Não tenho planos, não tenho desejos, não tenho nada.

Sinceramente, o máximo de expectativa que tenho pra 2007 é assistir Homem-Aranha 3 e Transformers no cinema.

O velhinho termina o lanche. Ele apanha um cabo de vassoura cortado e o usa como bengala. Vai embora, mancando, sozinho.
Será que ele tem alguém esperando por ele em algum lugar?
Será que eu o verei novamente?
Será que vou me lembrar dele?
A única questão pertinente para mim nesse ano é:
“Que tipo de ser humano eu serei? ”
Talvez em 2007 eu consiga simplesmente parar de procurar.

2 comentários:

Anônimo disse...

Você realmente me emocionou agora, Liber

Caminhante

Leleca disse...

E se você realmente pudesse escolher o seu destino, que escolha faria?

Tem certeza disso? Eu não.