terça-feira, janeiro 16, 2007

“De uma maneira triste e terrível, eu estou feliz...”

Uma senhorinha muito querida às vezes me manda ou comenta comigo textos e artigos que falam sobre a arte de escrever. Nós dois gostamos de brincar com palavras e ocasionalmente trocamos figurinhas. E daí é um artigo de jornal que fala sobre “o escritor e a busca pela própria voz”, é um texto de internet sobre citações de grandes autores falando sobre o ato de escrever, é comentar romances metalingüísticos fascinantes e coisa e tal... E nós ficamos rindo ao telefone e especulando, especulando... Como funciona o jogo da criação? O que impulsiona o escritor? Afinal de contas, por que se escreve?

Por que se escreve?

Ok. Vamos fazer um exercício de e especulação e imaginação. Nosso voluntário será o garotinho Calvin. Olá, Calvin.

Gosto de imaginar que Calvin cresceu e se tornou um escritor. Sim, é uma heresia imaginar que o Calvin cresceu, mas eu te peço que seja um pouco indulgente comigo. Então, vamos supor que ele cresceu e se tornou escritor. Por que escritor? Porque, vamos supor, que ele cresceu, que amadureceu, mas que manteve algo, algo bem íntimo de seu ser, algo bem fincado lá nas profundezas da sua alma. Aquele jeito de olhar o mundo. Aquela capacidade extraordinária de enxergar uma caixa de papelão como uma máquina fantástica. De se imaginar como dinossauro, como aventureiro, como agente secreto. De imaginar mil vidas diferentes para si mesmo. E um dia, ele está num ônibus ou num metrô e olha para as pessoas e imagina uma história para cada uma, imagina porque se vestem daquele jeito, para onde estão indo, o que as trouxe até ali. Imagina suas vidas secretas, suas paixões, suas desilusões. Exatamente como sempre fez quando era criança, ele brinca. Brinca com o mundo, brinca com as especulações, brinca porque é legal, brinca porque ele é o Calvin. E essa imaginação toda se desenvolve e se torna uma maneira de ver e ele enxerga, enxerga e sente o extraordinário das pequenas coisas de cada dia. Estar no carro com a namorada, pequenas florzinhas amarelas deslizando pelo para-brisa, pela luz do sol refratada no vidro, a sombra verde da copa das árvores e, além, o azul mais lindo do céu, a mão da menina na sua. Um milagre, tudo um milagre extraordinário, o milagre de todas as pequenas coisas do dia a dia, do pãozinho francês quentinho com manteiga, do correr pela praia na garoa, do beijo na boca, da risada gostosa. E, assim, às vezes, ele enxerga o mundo intensamente, apaixonadamente, maravilhado, deslumbrado com os contornos, com as cores, com as mil possibilidades do que pode vir a ser. E as palavras vêm e ele escreve, escreve, escreve pra agradecer, pra partilhar com o mundo inteiro toda a sua felicidade.

Porém...

(Repare que sempre há um porém.)

Porém, o que acontece com uma pessoa que tem deslumbres enquanto saboreia um pão francês quentinho com manteiga, o que acontece com essa pessoa quando, digamos, ela atropela um cachorro? O que acontece com ela quando precisa dizer adeus pra quem ama? O que acontece quando precisa ouvir adeus de quem ama?

E a vida traz amadurecimento, e traz também as mesquinharias, as decepções, as pequenas traições, as sutis brutalidades do dia a dia. Shit happens e se somos agraciados com pequenos milagres, também somos privados do delicado essencial e precisamos viver com isso.

Precisamos viver com isso.

E ele escreve.

Escreve pra burlar a própria e inescapável solidão, escreve à sombra da saudade de tudo o que poderia ter sido. Escreve para suportar a vida na escuridão de uma grande ausência que ele não sabe explicar. Com uma sensibilidade pungente, ele escreve as nuances de uma existência árida e maravilhosa. Com uma sensibilidade pungente, ele escreve, celebrando o que há de melhor e de pior nesse mundo idiota.

Ele escreve.

With every single beat of his heart, every single fucking day of his bloody life.

Ele escreve com um velho e surrado tigre de pelúcia sobre seu colo, a última lembrança de uma criança desaparecida. Afinal, como disse Lourenço Mutarelli, o triste é que, de uma forma ou de outra, todas as crianças desaparecem.

E ele escreve...

Também gosto de imaginar que Calvin cresceu e se tornou um astronauta.

4 comentários:

silver disse...

grande texto, grande Liber
XD

Leleca disse...

calvin escreve quando cresce porque não cairia bem continuar conversando com um tigre de pelúcia.

escrever é conversar. não importa com quem. e, ao contrário do que acontece quando se bate papo com bichos de pelúcia, ninguém te chama de maluco por isso (desde que você não conte que conversa com seus joelhos).

fique bem. ;)

Anônimo disse...

Ei, eu já ouvi isso!

Caminhante

Anônimo disse...

Obrigado por intiresnuyu iformatsiyu