sábado, janeiro 13, 2007

Stranger than fiction...


“Tem uma voz dentro da minha cabeça. Ela fala comigo. Só eu consigo ouvi-la”.

“Isso é esquizofrenia, Harold”.

“Não, não! Essa voz não me diz o que fazer. Ela descreve o que eu estou fazendo, descreve o que eu estou pensando com uma riqueza de detalhes impressionante. Essa voz está narrando a minha vida”.

“E como é essa voz?”

“É... é uma voz de mulher. Só que com um vocabulário muito maior e melhor do que o meu...”

Harold Crick é um funcionário do Imposto de Renda, solitário, pacato, disciplinado e apaixonado por números e tabelas. Também é o personagem do novo livro da escritora Kay Eiffel. E de repente o personagem pode ouvir a voz da sua narradora. Ele sabe que alguma coisa está acontecendo em sua vida, muito embora a própria narradora não se dê conta da autoconsciência de sua criação. Está é a premissa básica de Mais Estranho que a Ficção. Eu assisti ontem. É um filme muito bacana, que vai te fazer pensar naquela velha história do sujeito apagado e sem graça que, de repente, descobre os sabores da vida. Tocar guitarra, comer biscoito, namorar. Assim de repente, tudo adquire uma nova cor, tudo adquire contornos mais nítidos, mais vivos. Tudo porque o personagem passa a ter consciência de si e da própria existência, começa a questionar a si mesmo e à narradora de sua vida. Mas a voz da narradora (que prossegue implacável, alheia à descoberta de Harold) é onipotente, onisciente e tem um grande plano para o pequeno personagem. Um plano que culmina com sua morte anunciada. Apavorado, Harold começa a lutar para descobrir uma maneira de escapar do final de sua própria história.

Mais Estranho que a Ficção faz lembrar uma versão light dos filmes de Charlie Kaufman, que é responsável por Quero ser John Malkovich, Adaptação e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.

O filme brinca com a idéia de destino e livre-arbítrio. Se existe um Deus ciente de tudo que já foi e ainda virá, se existe um destino pré-determinado, um grande plano, qual o sentido do livre-arbítrio? Até que ponto você controla sua própria vida? Outro tema interessante é o ato da criação. Porque além da história de Harold Crick (Will Farrel), o filme também conta a história de sua autora, a escritora Kay Eiffel (Emma Thompson, maravilhosa). Uma mulher enérgica, angustiada pelo famoso “bloqueio de escritor”. Preocupados que Kay não consiga cumprir o prazo de entrega de seu livro, seus editores enviam uma “assistente” para ela, Penny Escher (Queen Latifaf), que passa a acompanhá-la no seu estranho dia a dia. Enquanto Kay e Penny se perdem em discussões sobre o processo criativo, sobre prazos, literatura e destinos possíveis para o livro, Harold busca uma ajuda inusitada. Ao invés de um terapeuta que o ajude a lidar com a “voz” que escuta, Harold procura o professor Jules Hilbert (Dustin Hoffman!!!), PHD em literatura, que começa a analisar as palavras ouvidas por Harold, buscando compreender a que tipo de história ele pertence (tragédia ou comédia?). O escritório do professor Hilbert é uma imensa prateleira abarrotada de livros e entre eles uma pequena tv 14 polegadas, eternamente ligada em algum programa de entrevistas sobre literatura. Ali, Hilbert cita Italo Calvino e bombardeia Harold com uma série de perguntas absurdas para procurar conhecer a mente de sua narradora.

E seria injusto não citar Ana Pascal (Maggie Gylenhaal), dona de uma confeitaria que caiu na malha fina do imposto de renda e, por tabela, na mira de Harold. A mulher o fascina, o provoca e tem um papel importante no despertar da busca do personagem pela própria voz. Afinal, como diz o seu Chico Buarque , "a gente vai se amando que, também, sem um carinho, ninguém segura esse rojão".

E nessa discussão e sobreposição de vozes, narrativas e vontades; ficção e realidade se misturam cada vez mais. Mas também não é assim no nosso “mundo real”?


Veja o trailer.

Um comentário:

Anônimo disse...

Você me convenceu, vou ver!

Caminhante