domingo, fevereiro 04, 2007

Ensaio sobre Histórias em Quadrinhos



Vamos pensar uma história em quadrinhos. Antes de visualizar qualquer detalhe, partimos de palavras. Texto distribuído por recordatórios ao longo de uma página contendo nove quadrinhos, todos completamente preenchidos de preto. Uma voz, um pensamento da personagem.


“Eu subo uma montanha bem alta, eu entro em uma caverna bem profunda, eu me isolo, reduzo meu ambiente à pedra, pó e escuridão, eu me enterro em vida para descobrir. Para descobrir o quê? Eu olho para dentro de mim e não tem muita coisa para ver. Minto, tem sim. Um caos de imagens, lembranças, sensações, deveres, discursos, lacunas, angústias, anseios, desejos, medo, consciência. Mas todas essas coisas são o quê? Sou eu?”


Vira a página. Eis a personagem.

Ele/ela acorda de manhã, em uma cama que não foi ela/ele quem fez, veste roupas que escolhe dentro de um repertório que lhe ofereceram, sai para a rua, vai à padaria, sorri para o moço do outro lado do balcão, uma média e um pão com manteiga, por favor. Paga por isso. 75 centavos o pão, um real e cinqüenta centavos a média. Paga com dinheiro que recebeu do seu trabalho. Sua profissão é desenhista industrial, habilitação em programação visual. (Passou cinco anos estudando e supostamente aprendendo a profissão em uma universidade pública, conhecendo e ouvindo pessoas, vivas ou mortas, nas salas de aula, nos corredores, nos elevadores, nas folhas de xerox, nos livros.) Faz diagramação para uma editora. Fica sentado(a) na frente de um computador seis horas por dia, mas não são seis horas ininterruptas. Há outras pessoas na sala e elas conversam com ela/ele, conversam entre si. Falam sobre suas crianças pequenas em casa, falam sobre a viagem de férias, falam sobre a novela de ontem à noite, sobre o filme que assistiram, o jogo de futebol. Contam piadas. Comentam notícias. Dentro do computador – através do computador – outras pessoas fazem-se presentes. Mensagens curtas, imagens, músicas, vídeos. Criam-se amigos. Descriam-se amigos. Dentro e fora do computador.

Depois do trabalho, a personagem, às vezes, encontra outras pessoas, outras conversas, dança, teatro, cinema, sexo. Mas na maioria das vezes vai para casa. Na cozinha, um suprimento diversificado de refeições industrializadas, porção única, preparo rápido e prático. E, depois, senta-se diante de uma prancheta, liga um som, e distribui uma série de livros e revistas em quadrinhos ao redor de uma folha em branco. E folheia essas revistas, passa os olhos pelos desenhos, lê e relê os textos dos recordatórios. E fica pensando, imaginando se tem alguma coisa que valha a pena dizer, alguma coisa que valha a pena ser desenhada, alguma idéia que mereça ganhar materialidade.


Sobre a prancheta, encontraremos os seguintes títulos:

Mundo Pet, de Lourenço Mutarelli.

Mesa para dois, de Fábio Moon e Gabriel Ba.

Folheteen, de José Aguiar.

Cidade de Vidro, de David Mazuchelli e Paul Karaski, baseado no livro de Paul Auster.

Comic Book: o novo quadrinho norte-americano, coletânea de diversos artistas de quadrinhos.

A Caixa de Areia, de Lourenço Mutarelli.

Essas obras – esses livros – apresentam dois pontos principais em comum. Primeiro ponto: tratam-se de histórias em quadrinhos consideradas “autorais”, isto é, histórias onde, antes do gênero narrativo ou do personagem apresentado, se destaca principalmente a figura do autor (ou autores). Segundo ponto: sob um verniz de humor, autobiografia, drama ou romance, essas obras abordam principalmente temas sobre conflitos existenciais e relacionamentos humanos apresentados através de personagens que vivem em um cotidiano urbano.

As histórias em quadrinhos fazem parte da constelação cultural que caracteriza certas sociedades de consumo modernas. Assim como a televisão, o cinema e a internet, as histórias em quadrinhos constituem um meio de propagação de narrativas que dialogam com (e podem ser muito interessantes para pensar) as características, valores, paradigmas e transformações dessa sociedade.

A noção de autor é uma das diversas similaridades que a história em quadrinhos possui com a literatura escrita. (Na verdade, sob muitos aspectos, histórias em quadrinhos são literatura). Escrever um romance e conceber uma história em quadrinhos são atividades que demandam horas de trabalho, esforço e estudo. Esse modo de enxergar o autor como um indivíduo isolado e centrado, único responsável pela concepção da obra, está profundamente ligado ao conceito de “indivíduo” moderno, um conceito fundamental para pensar a subjetividade dentro da nossa sociedade.

De fato, há muita similaridade entre a produção de uma história em quadrinhos e a de um livro. Ambas são extremamente complexas e rica de possibilidades e podem até ser um trabalho solitário, mas jamais um trabalho isolado. O autor não é um ser independente. Ele está inserido numa esfera de relações sociais que envolvem família, amigos, outros artistas e seus trabalhos, ideologias, filosofias, classes sociais, questões de gênero e outros diversos aspectos. Portanto, as histórias em quadrinhos (assim como os outros aspectos da constelação cultural) apresentam elementos para pensarmos a subjetividade humana contemporânea e suas relações com as outras esferas que compõem a sociedade moderna (ou pós-moderna, depende do gosto do cliente).

Nas entrelinhas dos roteiros e diálogos, na construção dos personagens e cenários, no modo como são desenhados, encontramos críticas ou afirmações a uma série de mitos e paradigmas que constituem a imagem do indivíduo moderno. O sonho romântico do parceiro amoroso, inocente e puro que se apresenta no trabalho dos irmão Fábio Moon e Gabriel Ba. O mal-estar profundo e angustiante nas histórias de Lourenço Mutarelli e Daniel Clowes. A resignação cínica diante de uma rotina patética e sufocante apresentada nos relatos autobiográficos de Harvey Pekar.

Na civilização da imagem, a felicidade está nos outdoors. A noção de indivíduo, o “self-made man”, o homem que é senhor de seu próprio destino, é uma imagem muito cara para a cultura de consumo e se faz presente em uma quantidade enorme de histórias e narrativas. Do herói do gibi à mocinha da novela das seis. O pobre coitado que supera as dificuldades e torna-se um vencedor encerra a promessa de que todos chegaremos lá, todos encontraremos o sorriso belíssimo dos outdoors. Obviamente, essa é uma promessa muito importante para o sujeito moderno: a conquista da felicidade, seja lá o que isso signifique.

Quando lemos o trabalho de alguns dos autores citados, com seu cinismo e discreto desespero, ficamos imaginando se eles criaram uma estética da fraqueza ou uma estética da franqueza. Seriam eles um bando de loosers que não se esforçaram o bastante e, portanto, não se tornaram self-made men ou pessoas que perceberam que a grande promessa sorridente não vai (e nem poderia) vingar?

E, agora, há uma nova e radiante promessa de realização pessoal e felicidade. A tecnologia contemporânea, mais notadamente a tecnologia digital, possibilitou transformações nas idéias de indivíduo, autor, obra e relacionamentos. A qualidade e o alcance de comunicação proporcionado pela internet propiciou novas formas de relacionamento interpessoal; de criação, distribuição e recepção de obras; novos elementos para a construção da própria identidade, das esferas afetiva e subjetiva.

Embora a esfera digital ofereça toda uma gama de novas possibilidades expressivas, os artistas citados acima permanecem fiéis ao tradicional formato impresso. Poucos deles se dedicaram realmente a conceber material específico para a mídia digital, explorando realmente suas possibilidades. No que se refere ao processo de produção, a maioria continua desenhando suas histórias à mão, quando muito colorindo no computador.

Será que essa atitude de resistência às novas possibilidades digitais encobrem um certo receio de que a nova ordem virtual dilua ainda mais a pouca coesão que restou ao indivíduo? Porque... o que significa ser autor em um mundo onde todos são autores? O que significa ser uma pessoa num mundo de avatares e páginas de perfil com foto e “bula”? Onde está a sua identidade? Quem é você? Não gostei de você. Vou te deletar. A nova promessa digital parece interessar estes artistas justamente por isso: por escancarar as fragilidades e inseguranças do mito do indivíduo moderno. Por escancarar o medo, a incerteza e a solidão. E, por trás de todos esses lamentos e angústias aparentemente auto-indulgentes, flutua uma simples pergunta: afinal, o que importa? O que realmente importa pra cada um de nós?

De volta para a prancheta.

Nossa personagem escreve, desenha uma moça com violão. Cria uma breve história de uma cantora, rostos estranhos na noite, momentos que se desfazem pela manhã. Ela/ele escreve e prepara para colocar em seu blog, um blog entre milhares, um blog entre milhões.

Ela é autora.

Ele é leitor.

Eles são personagens.


Este ensaio foi escrito para uma disciplina do mestrado sobre mídia, cultura e linguagem. Achei que serialegal (e relevante) colocá-lo aqui.

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