quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Folheteen


Existem truquezinhos para se contar uma história. Por exemplo, quando se fala sobre adolescentes, uma fase intensa e confusa da vida humana (como se as outras não fossem...), o estereótipo do solitário incompreendido costuma ganhar a simpatia do espectador. Em quantos filmes já vimos o adolescente tímido, solitário, que é gente boa, mas não consegue se relacionar com seus pares?

No começo do filme Homem-Aranha, o jovem Peter Parker é humilhado e hostilizado ao pegar o ônibus para ir à escola. Na maneira como as cenas são construídas, criamos um laço de identificação com Peter. Não imaginamos que as pessoas devem ter algum motivo para tratá-lo daquele jeito. Nem sequer cogitamos a hipótese de que ele deve ter feito alguma coisa inaceitável ou de que ele deve ter atitudes inadequadas e por isso é repudiado pelos seus colegas. Com uma série de recursos narrativos, Peter Parker, caído e humilhado, é nosso herói injustiçado, nosso looser, nosso Charlie Brown. Ele conquista a simpatia e identificação dos espectadores. E quando Parker der a volta por cima, nós estaremos dando a volta por cima com ele.

No álbum de quadrinhos Folheteen, José Aguiar não faz esse tipo de concessão à sua personagem Malu.

Uma história em quadrinhos é feita de texto e desenho. O texto de Aguiar guarda paralelos com seu desenho. No desenho, um traço limpo e leve oculta uma complexidade de ângulos e formas que se sobrepõem em diversos planos. No texto, o humor e descontração encobrem a tristeza e incertezas da personagem Malu.

Malu é uma adolescente. Ela não é marginalizada pelos seus colegas. Pelo contrário, eles a convidam para sair, para se divertir. E ela simplesmente recusa. A solidão dói em Malu e ela própria é responsável por isso. “Ok, sou chata sim” ela mesma admite. Ela não quer se misturar, não quer se relacionar com as “toupeiras”. Mas o que ela não consegue verbalizar é o que ela espera de uma pessoa que não seja uma “toupeira”. Ela tem seus medos, tem seus desejos, mas não consegue assumi-los, não consegue reconhecê-los.

Folheteen é uma crônica do cotidiano. Não o cotidiano de São Paulo, Nova York ou Londres, mas o cotidiano de Curitiba. José captura despretensiosamente o espírito de uma série de personagens curitibanos que centenas de pessoas interpretam diariamente sem provavelmente se dar conta. O conquistador fuleiro, o bocó que não quer que ninguém mexa com a irmã, o casalzinho grude. Não personagens, mas modelos reais que encontramos ao redor da cidade, nos bairros comuns, aqueles com casa de madeira. Meu Deus, casa de madeira! Nunca vi isso em história em quadrinhos. Aquelas casas que você encontra no Cabral, no São Lourenço, no Boqueirão. Você olha para as paredes e vê as tábuas! Numa das melhores seqüências do álbum, você vê o interior de uma dessas casas, com seus sofás baratos e estante Disapel. E nessa seqüência você vê que quando se trata de contar uma história com imagens, uma pessoa precisa saber o que faz, e isso não significa só desenhar. E esse José sabe. Os pais discutem, divididos pela canaleta entre os quadrinhos. O pai à esquerda, a mãe à direita, duas colunas de quadrinhos, duas trajetórias de vida que seguem paralelas e que jamais vão se encontrar.






Além da casa de madeira, nosso ônibus. As pessoas entulhadas, os olhares. Num dos ônibus você vai encontrar o Paulo Leminski, lendo uma revista, tranqüilo. Coisas de quadrinhos. E tem aquele passeio de ônibus vazio. O último ônibus da noite, todos os assentos vagos, você sentado lá no fundo, tentando entender o que aconteceu aquele dia, tentando entender como as pessoas entram e saem da sua vida... tentando entender o que está errado na sua vida, porque, mesmo não conseguindo verbalizar, você sabe que tem algo errado.






No trabalho do supermercado, na escola, no ônibus, Malu está viva como vi poucos personagens de papel estarem.

Ela é chata, mas está viva.

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