terça-feira, fevereiro 20, 2007

Talking Heads é ducarai...!!!!


Eu descobri Pink Floyd muito tarde. Eu tinha uns vinte anos. Foi o álbum Dark Side of the Moon. Eu ouvi “Time” lendo a letra, aquela letrinha porreta do Roger Waters, e daí eu disse pra mim mesmo: “Meu Deeeeus, isso é muito bom!!! É maravilhoso!!! Por que eu nunca ouvi isso antes?”. E depois, à medida que eu ia entendo a letra, eu me perguntei: “Meu Deeeeeus...! O QUE É QUE EU ESTOU FAZENDO COM A MINHA VIDA?”. Essa é uma boa pergunta para se fazer quando se tem vinte anos. Depois dos trinta anos, é melhor não tocar no assunto. Ou será que é? Anyway...

Eu fazia desenho, eu desenhava umas histórias em quadrinhos. Tipo, quando eu era criança. Daí eu cheguei na porta da adolescência, tinha uns 12 anos. Eu lia um monte de gibi e daí começou aquele período estranho e turbulento, meio sonho e pesadelo e tal. Mas eu ainda desenhava. Daí passou a adolescência, eu entrei e saí da faculdade, arranjei trabalho, virei cidadão trabalhador. Parei de desenhar em algum momento da faculdade, pra me dedicar ao mundo adulto. É. Cresci e fiquei responsável. Daí um dia, mexendo nas coisas no velho quarto que hoje é depósito na casa dos meus pais eu acho um monte... mas um monte de papel com desenhos e histórias que eu fazia. Ler aquilo era como ler o material de outra pessoa, tanto tempo já faz que parei. Mas, apesar de tudo, dos erros de anatomia, dos problemas de roteiro, a única coisa que eu conseguia pensar era: por que eu parei? Por que não continuei?

Olhar pro velho material foi como escutar aquelas músicas, sabe, aquelas músicas que você ouvia em determinada época e quando você escuta hoje é como se voltasse no tempo, voltasse àqueles dias. Isso acontece com você ou é só comigo?

Eu era muito chato comigo mesmo. Ainda sou. Quando eu tinha 17 anos, achava que só ia conseguir fazer coisas relevantes aos 25. Aos 25, estava ocupado demais tentando sobreviver e não tinha tempo pra tentar fazer alguma coisa legal, como escrever um livro ou uma história em quadrinhos. Na verdade, estava me enganando, me iludindo, arranjando desculpas (trabalho, faculdade) pra evitar tentar fazer qualquer coisa do tipo arte. Eu não sou apenas chato. Também sou um covarde. Tenho medo de tentar.

No fim, as coisas não deixam de acontecer só por caprichos do destino. Elas deixam de acontecer porque somos covardes. Eu pelo menos sou, não sei quanto a você.

Bom, ano passado eu assisti a uma peça chamada Graphic. Excelente. Eu vi duas vezes. Cara, era boa mesmo! Deviam fazer um filme com ela pra eu poder comprar o DVD!

“Artie faz manuais instruções. Becca faz gráficos financeiros. Raf faz stencil nos muros da cidade. Todos eles desenham para viver, mas mesmo assim todos têm um pequeno problema de perspectiva”.

Não tinha como eu não gostar da peça. Ela tem tudo a ver com o que escrevi até aqui, tem tudo a ver comigo. E é du caralho. O texto é bom, os personagens são bons, a história é boa. A peça tem desenhos de um monte de conhecidos meus, o Olho, o Zé Aguiar, o DW... Mas eu confesso que o que mais me cativou foi a identificação com os três personagens. Esse lance do desenho. Das aspirações da nossa juventude, do medo e conformismo da vida adulta. Ainda bem que você não é assim.

Na minha parte favorita da peça, eles dançam uma música do Talking Heads. É a “Road to Nowhere”. Eu curti um monte essa cena, sei lá por quê... acho que a música era legal, acho que a cumplicidade dos personagens naquele momento me cativou. Não sei.

Enfim, veio esse carnaval. Estou sem um centavo no bolso e não estou com a menor vontade de partilhar da “alegria contagiante do carnaval”. Na verdade, eu não me dei sequer ao trabalho de ignorar o carnaval. Passei os dias num retiro voluntário, longe de Deus e de todo mundo, lendo, escrevendo... e desenhando.

Desenhando.

Começou meio assim, eu e uma folha de papel e daí eu estava... desenhando. Foi estranho... indolor... espontâneo... e... acho... que foi muito... agradável.

E eu me lembrei da peça. A Graphic. Daí cheguei no meu possante computador e baixei o the Best of Talking Heads. Uau.

Eu descobri Talking Heads muito tarde. Descobri ontem. Ouvi Road to Nowhere acompanhando a letra. Descobri que David Byrne compôs essa letra. David Byrne... É. Aquele David Byrne... Talking Heads é uma banda que se formou no mesmo ano em que eu nasci. E o som deles é muito bom. As letras são muito boas. Sabe, daí eu me fiz aquela clássica pergunta: “Por que não ouvi isso antes?”. Na verdade, eu ouvi sim. Eu ouvi isso antes. Mas não fez sentido na época. Ah, bem, talvez eu não tenha valorizado porque não era o momento certo. Porque eu não era a pessoa que sou agora. Talvez realmente as coisas cheguem e aconteçam nos momentos certos. Talvez o mundo faça sentido. Ou talvez não. Enfim, foda-se.

E daí eu estava sentado, desenhando, fazendo a primeira página em não sei quanto tempo, sem saber se vou ou não terminar a história. E tocava Road to Nowhere e eu me lembrava da dança do pessoal de Graphic e desenhava e sorria e de repente estava sozinho no quarto cantando a plenos pulmões, gritando, rindo. Road to Nowhere! Wild Wild Life! Psycho Killer! HÁ!

Talvez o mundo faça sentido.

Ou talvez não.

Enfim, foda-se.


Road to Nowhere
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WELL WE KNOW WHERE WE'RE GOIN'
BUT WE DON'T KNOW WHERE WE'VE BEEN
AND WE KNOW WHAT WE'RE KNOWIN'
BUT WE CAN'T SAY WHAT WE'VE SEEN
AND WE'RE NOT LITTLE CHILDREN
AND WE KNOW WHAT WE WANT
AND THE FUTURE IS CERTAIN
GIVE US TIME TO WORK IT OUT

We're on a road to nowhere
Come on inside
Takin' that ride to nowhere
We'll take that ride

I'm feelin' okay this mornin'
And you know,
We're on the road to paradise
Here we go, here we go

CHORUS

Maybe you wonder where you are
I don't care
Here is where time is on our side
Take you there...take you there

We're on a road to nowhere
We're on a road to nowhere
We're on a road to nowhere

There's a city in my mind
Come along and take that ride
and it's all right, baby, it's all right

And it's very far away
But it's growing day by day
And it's all right, baby, it's all right

They can tell you what to do
But they'll make a fool of you
And it's all right, baby, it's all right

We're on a road to nowhere



(A peça Graphic vai estar no Festival de Teatro de Curitiba dias 24 e 25 de março. Eu vou! Te encontro lá.)

(A imagem utilizada na abertura desse post é de um stencil de Juan Parada, Claudio Celestino e Olho. A foto da peça é da Lúcia Biscaia. Mais detalhes sobre Graphic e outros trabalhos da Vigor Mortis você encontra aqui.)

2 comentários:

Anika disse...

pô líber
numa madrugada não dormida e frustrada de carnaval, confusa, com cheiro de mofo e chuva na calçada eu resolvi fazer um blog tb, seguindo o seu exemplo! hahahaha, axo q vai me ajudar a dormir um pouco menos desregradamente! e mto bons seus escritos hein! bjokas!

Hum... disse...

Liberrrr
Acabo de conferir uma coisa, Graphic é do msm diretor de Morgue Story que CARAMBA, talvez, a melhor peça q eu já vi, humor negro de primeira qualidade, interação quadrinhos, vídeo e teatro como eu nunca axei q era possível! WOW! Ctza que vou garantir meu ingresso pra Graphic!!