sábado, fevereiro 24, 2007

Trechinhos de cotidiano

Acordei com a sensação de que tinha passado a noite inteira dentro de uma escavadeira mecânica. Eram sete e meia. Com o entusiasmo de um sapateador artrítico, saí da cama me arrastando e fui tateando até o banheiro, onde abri o chuveiro e mergulhei numa nuvem de vapor. A água quente me fez bem. Quando me enxuguei e comecei a fazer a barba, já estava começando a pensar na possibilidade de me candidatar a interpretar o papel de ser humano. Se eu tivesse sorte, talvez conseguisse fazer uma ponta.

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Para um torcedor de verdade, uma vitória ou uma derrota podem alterar a atmosfera de todo um dia. Seu time ganha, e cada tufo de capim brotando no meio do asfalto é uma linda planta silvestre, testemunho da perseverança da natureza. Seu time perde, e você se vê cercado de ervas daninhas, asfalto rachado e feiúra. Luis estava sofrendo. Não me dei ao trabalho de lhe dizer que era apenas um jogo.

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Um dos fatos da vida moderna é nossa crença na santidade do telefone. As pessoas interrompem as carícias mais passionais ou a discussão mais violenta para atender a seu chamado. Ignorar o telefone é visto como uma atitude anárquica, uma violação da estrutura da sociedade. Peguei o fone quando o aparelho soava pela décima primeira vez. Pavlov ficaria satisfeito de ver.

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(Trechos do conto A Estratégia do Sacrifício. Do livro Da Mão Para a Boca, de Paul Auster. Companhia das Letras, 1997).

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