quarta-feira, março 28, 2007

Festival de teatro



Era um monólogo, dividido em duas partes. A primeira era um cara, a segunda uma guria. O texto era bem legal, bem interessante e o cara fez uma atuação legal. Mas daí veio a guria. E aqui começa a parte realmente interessante dessa peça.

Um teatro grande, lotado, todo mundo olhando pra moça, sozinha no meio do palco, parada num círculo de luz. Ela fala seu texto, mas não acontece a empatia. O público não entra na dela. Ela prossegue com o texto. Algumas pessoas saem, outras dormem. E eu começo a sentir uma sensação desconfortável. Poderia dizer que a atriz era ruim, que o diretor era ruim, mas tinha alguma coisa a mais naquela situação que me constrangia. Era a solidão da garota no palco, era ela falar para pessoas que dormiam, para pessoas que viravam as costas e iam embora. Por certo não era culpa apenas dessas pessoas, a atriz e o diretor também tinham sua responsabilidade. Eu pensava nisso olhando aquela moça de vestido azul, imóvel, recitando seu texto no palco. Eu ouvia suas palavras e tentava penetrar nos significados que ela queria construir, mas não conseguia. Existia uma barreira entre ela e nós.

Quando comprei o ingresso para a peça, o que me atraiu foi o texto. Falavam que tinha sido indicado pra um Pulitzer, falavam que misturava tragédia e comédia. A Tragicomédia. Gosto de tragicomédias. Comprei meu ingresso, fiz meu investimento, e estava ali, sentindo um desconforto inexplicável enquanto as pessoas saíam e ela recitava seu texto, sozinha no palco. Acho que pensei em pessoas e peças de teatro.

Conhecemos alguém, investimos na pessoa, estamos lá diante dela e percebemos que ela não nos alcança.

O que quer que ela faça não nos desperta atenção alguma e estamos ali olhando pra ela, sem saber o que fazer, imaginando se seria indelicado demais simplesmente levantar e ir embora. Mas não tenho coragem de fazer isso. Olho pra essa pessoa, falando comigo, tentando me cativar, tentando me mostrar alguma coisa única e especial e percebendo que não está conseguindo, percebendo que já me perdeu para sempre. E eu não tenho coragem de levantar e ir embora por causa de uma piedade nauseante que me constrange ainda mais. Silêncios na conversa, palavras quaisquer sem importância alguma imediatamente esquecidas, sorrisos vazios e lábios estalando leve numa bochecha que não vai me fazer falta alguma em toda a minha vida.

Os olhos dela... os olhos.

Ela vai embora.

O resto, eu esqueci.

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