domingo, março 11, 2007

Match Point


Não posso dizer que sou um grande fã do Woody Allen. Assisti alguns filmes dele e achei legais, mas nunca consegui me identificar com o mundo do burguês judeu novaiorquino. Faltava liga, sei lá. Daí assisti esse Match Point.

Pois é...

Tem um amigo meu com quem às vezes discuto sobre coisinhas corriqueiras da vida, tipo destino e livre-arbítrio. A grande pergunta é: você realmente controla sua vida? Meu colega gostava de pirar em cima da história de um cara, que era o fodão, casado com uma gostosa, bonitão, rico, pauzudo e tal; e daí, um dia, esse cara é assaltado e leva um tiro. O cara sobrevive, mas acaba virando um vegetal. Perde a fala, os movimentos, fica preso a uma cadeira de rodas tendo que receber comida na boca. Foda pra caralho. Daí esse meu amigo fica pensando sobre a vida: a gente conquista as coisas, se exercita, fica gostosão, descola uma mulher legal... e tudo é tão frágil, tudo pode se perder de um segundo para outro. E esse é o ponto: a fragilidade da nossa existência. Claro que não adianta muito pensar nisso, mesmo porque, se você pensar muito nisso, você pira.

Esse filme, Match Point, começa com uma consideração interessante: você prefere ser bom ou ter sorte? Tipo, você acha que pode se dar bem na vida com talento, persistência e trabalho ou acha que o sucesso pode ser muito mais uma questão de sorte? Claro que no fim, o que interessa é pelo menos ter tentado chegar lá. O que vale é competir, certo? É melhor ser um fracassado que tentou do que um covarde do que nunca tentou.

Hm... talvez seja melhor, mas não é lá muito melhor...

Bom, o Chris é um professor de tênis. Ex-profissional, ele jogou com alguns dos melhores tenistas do mundo, mas desistiu cedo, porque não gostava das viagens e da tensão. Durante as aulas de tênis, ele fica amigo de Tom, filho de um milionário e noivo de Nola (a maravilhosa e superpoderosa Scarlett Johansson). Durante o filme, Chris se casa com a irmã de Tom, Chloe, e isso lhe garante um cargo na empresa do sogrão milionário. De repente, Chris, que era filho de irlandeses operários, se vê com um padrão de vida excelente. Dinheiro, muito dinheiro, velho! Nosso amigo Chris tem tudo pra chegar ao fim da grande partida da vida dizendo-se vencedor.

Daí entra a Nola.

Olha só, esse filme do Woddy Allen é muuuuuuuito legal. É o mais longo filme da carreira do Woody e o primeiro a ser rodado na Inglaterra. Foi indicado ao Oscar de melhor roteiro original. E a história dele...

Começa com o nosso amigo Chris fazendo a tal pergunta: o que vale mais, ter sorte ou ser bom? Chris acredita na total falta de sentido do mundo. Ele não acha que as coisas tem uma razão de ser. Ele não acredita em destino. Pra ele, você se esforça e trabalha, mas no fim está à total mercê do acaso. Dar ou não dar certo depende muito mais de forças que você não controla. É nisso que nosso amigo Chris acredita. “Desespero é uma saída fácil”, lhe dizem seus amigos. “Fé é uma saída fácil”, ele responde. E Chris vai ter a oportunidade de descobrir se ele está certo ou não.

Nola é uma gostosa. O Chris fica a fim dela desde o começo e eu entendo perfeitamente porquê. Eu acho engraçado isso. Não sei se é assim com as mulheres também, mas acho muito engraçado como a gente pode perder totalmente a cabeça por causa de uma boceta. Nola era noiva do seu melhor amigo, que era irmão da sua noiva, e ainda assim Chris deu em cima dela. E rolou. E é engraçado ver o cara arriscar o trabalho, a amizade, a esposa e tudo mais só por causa de Nola. Eu ficava pensando “cara, não faz isso, é cagada!”. E me assustava ao imaginar que eu talvez não agisse diferente dele. O ser humano é só estômago e sexo, ouvi uma vez. E ser um ser humano significa que mais cedo ou mais tarde você vai agir como um cachorro no cio.

E daí Chris acaba casando com Chloe, mesmo se consumindo de tesão por Nola. Esse casamento de certa forma é mais culpa de Nola, que não deu corda pro nosso Chris. Ela queria casar e o tal Tom era bom partido. Bom papo, rico e de convivência fácil. Que mais uma garota pode querer? Daí o Chris casa, vira empresário bem sucedido dentro da empresa do sogrão, tudo uma beleza.

Súbito, um dia Tom termina com Nola e ela some da cidade.

E, um dia, um ano ou dois depois, ela volta. Chris a encontra por acaso numa galeria de arte. Adivinha...

Enquanto Chloe está empenhada em tentar engravidar (sem conseguir), Chris rebola pra conseguir escapar de uma agenda congestionada e trepar com Nola. Ah, Nola... Ela começa a gostar de Chris ou algo assim, e começa a sentir ciúmes. E, um dia (surpresa!!!) Nola engravida. E, de repente, os sentimentos de Chris por Nola começam lentamente a mudar. De repente, ele parece se dar conta do que pode vir a perder se assumir seu relacionamento com Nola, que frustrada, desesperada, recusa-se a abortar e começa a pressionar cada vez mais nosso amigo Chris.

E é aqui que o filme fica superparecido com o romance Crime & Castigo de Dostoiewski (que por sinal é lido por Chris em um momento do filme). É muito bacana a maneira lenta como Woody Allen constrói o cenário para entendermos porque Chris vai fazer aquilo. Não concordamos moralmente, não podemos aceitar, mas entendemos perfeitamente. Um sensacional misto de fascínio e repulsa...

Como eu disse, não sou um grande fã do Woody Allen. Não conheço muita coisa dele. Dos filmes mais recentes eu assisti Dirigindo no Escuro (que é bem engraçado) e Melinda & Melinda (que não me conquistou). Match Point me surpreendeu e pareceu bem mais interessante enquanto filme. Muito mais perturbador, coeso e poderoso.

E você, o que acha?

Ter sorte ou ser bom?

2 comentários:

Anika disse...

LÍBER! PELOAMORDEDEUS
vc tem q assistir mais filmes do Woody! Tá bom, eu sei que eu sou muito suspeita, pq eu ADORO. Não todos os filmes. Mas muitos. Porque ele retrata nós, humanos, como, olha só, HUMANOS! Traições, desgraças, crimes, pecados, contradições, neuras e mais neuras, crises existencias, crises morais...quer mais humano que isso?? Isso é mto LEGAL! E sim, se vc batalhar, um monte, fizer td certo, o bandido ao lado pode se dar mto melhor! Bom, vou t indicar uns (q eu tenho por sinal e qndo vc aparecer no PPGTE e me avisar antes eu levo pra t emprestar!)! Noivo neurótico, noiva nervosa, descontruindo harry, maridos e esposas, igual a tudo na vida, hannah e suas irmãs, crimes e pecados, interiores. Esse é um bom começo. Talvez os melhores filmes deles fiquem por aí. Falta um bocado ainda pra completar a filmografia do garoto (garoto?) que fez aí uma média de 38/40 filmes. Fora isso, ele repudia Hollywood, os estúdios norte-americanos em geral, cita mto Dostoiesvski nos seus filmes, inspiradíssimo em Bergman, Hitchcoock e Fellini...E caramba, em Descontruindo Harry ele dá uma cutucada (mto sutil e mto bem humorada) no judaísmo, não ao judaísmo em si, mas às entidades religiosas em geral, MTO BOA (o diálogo é mais ou menos assim, o Woody Allen pergunta pra irmã que é uma judia fervorosa: "Se tivesse um judeu, um negro e um japonês sofrendo, vc sentiria mais pena do judeu?", "sim, é meu povo!", "não é seu povo!todos são seu povo!", "mas é uma tradição!") ! E a tradição? Bom, "tradição é a ilusão da permanência". haha, mto bom. Bem, chega, me exaltei um pouco! E me avisa qndo passar pelo PPGTE que te levo alguma coisa!!!

Anônimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado