segunda-feira, março 19, 2007

Os Mutantes

Da espetacular e mui profunda série "O Mundo em Que Vivemos":
(Sim, Marcelo, fui eu que fiz a tirinha).






E, de repente, é domingo de novo.
Ontem teve show dos Mutantes.
Show dos Mutantes, velho...

Eu lembro da gente, naquela sala dos bolsistas do laboratório de computação gráfica. Eram os fins de tarde, quase ninguém aparecendo naqueles dias. Na tranqüilidade, a gente escutava de tudo, ali naquela sala das paredes de vidro. Eu e a Natacha. Ela tinha um cabelão lindo, muito parecido com o da Rita Lee na época dos Mutantes. Parando pra pensar, ela tinha muito mais em comum com a Rita. Eu me lembro de um finzinho de tarde em especial, antes do chope, o sol caindo por trás dos prédios, aquela luz maravilhosa e ela colocou a Balada do Louco. A gente achava que aquela música devia virar hino nacional. O Hino Nacional do Nosso País, Nosso País sem fronteiras, sem governo e sem população definida. O Nosso País. Natacha, a Caminhante Noturna...

Ontem.
O Show dos Mutantes.
Imperdível. Impagável.
Ou quase. Arnaldo Batista e Sérgio Dias. Cadê a Rita Lee?

Daí, anos depois, a Adriane me emprestou a biografia dos Mutantes. Livro concorrido, raro, parece que publicaram uma nova edição dele recentemente. Os Mutantes, pra mim, são três. Sim, existem outros e eu não estou sendo justo nem falando exatamente a verdade, mas pra mim, eles são três: Arnaldo, Sérgio e Rita.

A Rita não estava lá no show, não quis aceitar participar da turnê. Por um lado, ela deixou de aproveitar uma ótima oportunidade. Ela faz falta. Por outro, eu entendo perfeitamente por que ela recusou o convite.
Arnaldo Batista estava lá... mais ou menos. Olha só, o Arnaldo é um músico extraordinário, um puta talento. Mas olhar pra história dele é algo meio assustador. As drogas, a depressão, a clínica, a tentativa de suicídio e a traqueostomia deixaram suas marcas. Mas o homem ainda é o Arnaldo e o que importava era a presença dele. Ele até conseguiu cantar algumas canções.
O Sérgio levou o show nas costas. Sensacional, poderoso, supremo. O som, a presença no palco, a energia. Ele deve ter o quê? Uns sessenta anos? O cara é sensacional!
O show valeu cada segundo, foi muito bacana. Chamaram a Zélia Duncan no lugar da Rita Lee. (Mas, digam o que quiserem, com tudo de bom que tenha, a Zélia ainda não é a Rita.) Tinha mais uma banda de apoio e uma Simone maravilhosa na batera (ah, sempre tem uma Simone). Eles tocaram as óbvias (Ando Meio Desligado, Balada do Louco, Panis et Circensis) e também tocaram uma seleção para iniciados (Ave Lúcifer, Ave Gengis Khan, Tecnicolor). Foi legal ouvir “Ela é minha menina” sem ser um cover pelo Reles Pública... (hahaha).

Mas legal mesmo era ver o Sérgio tocando ali, ver o Arnaldo, sentir a ausência da Rita e só poder imaginar o que era estar no show dos caras no finalzinho da década de 60. Porque no fim, o show foi isso: uma idéia do que era ver os Mutantes no auge. Cara, eles fizeram a Tropicália ao lado do Caetano e do Gil! Eu ficava olhando aqueles dois no palco, ficava ouvindo as canções, viajando pelos rostos da platéia, gente nova, gente velha. Eu ficava pensando na história, sabe. Na nossa história, na história de cada um, as marcas que cada um carrega, o que fazemos com a vida e o que a vida faz com a gente. Como as coisas mudam. Ou não.

No fim, o que mais me fascina são essas pessoas sensacionais que cruzam a vida uma das outras, e se amam e constroem juntas todo um mundo diferente. Um país. O Nosso País. E é engraçado como essas pessoas podem não permanecer juntas. É assustador ver como o amor pode não ser correspondido ou como ele pode se corromper ou como ele simplesmente se desvanece lentamente como as cores de um impresso vagabundo. E o Nosso País se desfaz, sem deixar ruínas, sem deixar traços, sem deixar nada que nos dê a certeza de que um dia ele realmente existiu.

Esse tal amor ainda é a mais poderosa experiência dessa vida, excetuando talvez a morte. Mundo louco esse.

Enfim, um dia eu espero fazer uma história sobre esses três. Não uma história real, fiel, mas uma história sobre o que eles me fazem pensar. Sobre querer cantar canções iluminadas de sol e sobre as pessoas na sala de jantar. Sobre como a vida transforma crianças em adultos.

Faz uns seis anos que não vejo a Natacha. E mais de 10 desde aquelas tardes no laboratório. Ela era... ela é uma pessoa maravilhosa, sabe.

É engraçado não sentir saudades.


Mandei fazer
De puro aço luminoso
U
m punhal
Para matar o meu amor

E matei

Panis Et Circenses (1968)
De Caetano e Gilberto Gil
Performed by Os Mutantes

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