sexta-feira, março 16, 2007

Um dia de cada vez





Eu toco flauta transversal.

Estou aprendendo.

Sempre que posso eu tiro uma hora do meu dia pra brincar com a flauta. Hoje já eu não consegui, as coisas são corridas, o horário apertado. Mas ontem e anteontem eu consegui e isso me deixa bem animado. Eu acho legal como vou conseguindo tirar um som melhor da flauta, acho bacana como aquele exercício da nota longa vai fazendo efeito bem devagar.

(Ah, o exercício da nota longa.
Por uns quarenta minutos, alterna-se o som vibrato com o som contínuo, nota por nota, da flauta. Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si e essas são as notas de uma oitava. Dó sustenido, ré sustenido, fá sustenido, sol sustenido e lá sustenido são os acidentes. Total de sons em uma oitava: doze. A flauta transversal tem três oitavas. Cada som ou nota requer uma combinação de teclas fechadas e sutis variações de posição da boca para a passagem de ar. O vibrato e a potência do som são obtidos através do diafragma e a intenção do exercício da nota longa é aprender a tirar tudo o que puder do diafragma. O diafragma é um músculo que fica entre o tórax e o abdômen, dentro da gente. Em outras palavras, o exercício da nota longa é ginástica pra um músculo que você não consegue enxergar. Também serve pra você aprender a deixar o ar escapar da maneira correta e a usar a boca, garganta e cabeça como caixa de ressonância. Com isso, você vai melhorando o som.)

A minha vontade é de um dia tocar em público, sabe, num lugar tipo o Wonka. Tocar algo como um jazz ou um Jethro. Mas não pra ganhar dinheiro. Eu só queria ser capaz de tocar em público e tocar bem. Ali, junto dos meus amigos, bebendo, curtindo. Tocando de verdade, fazendo a música fluir. Ainda estou bem longe disso (beeeeem longe meeeeeeesmo). Mas eu vou indo aos poucos, bem devagarinho. Às vezes dá a impressão de que nunca vou chegar lá, sabe... Daí eu procuro não pensar em aonde eu quero chegar. Penso só naquela hora de treino, naquele minuto de ensaio. E, de repente, acertar aquela única nota, naquele instante e nada mais, é a única coisa que importa e eu às vezes me perco no momento, esqueço de mim mesmo e tudo parece fazer sentido. E daí acaba.

Isso me faz pensar nos alcoólatras anônimos. Sabe o lema deles, algo como “um dia de cada vez”? Pois é... No fim, todos nós temos nossos sonhos, nossas vontades, mas a verdade é que não temos garantia nenhuma de que vamos conseguir. Eu não tenho garantia nenhuma de que vou chegar lá, nem sei se “lá” existe. No fim, a única coisa que realmente possuo é o momento presente. Deve ser o suficiente.

E eu treino.

E leio, escrevo, pinto, pesquiso, estudo, nado, corro, bebo, converso, escuto, falo, rio. Aos pouquinhos. Um dia de cada vez.

Nem sei aonde vou chegar.

A vida é muito curta, a gente precisa achar tempo pra fazer o que realmente interessa.
E saber o que realmente interessa é coisa de cada um.


Parando pra pensar bem, acho que a minha vontade era ser feliz.

Enfim...


(Simone, obrigado por perguntar...)

Um comentário:

Anônimo disse...

ola o meu esposo toca flauta tranversal, eu acho lindo o som dela, parabenss pela escolha e pela força de vontade...
Abraço, scarllety