quinta-feira, abril 05, 2007

ESPARTA, BOAS MANEIRAS, QUADRINHOS, REINVENÇÃO DE SI MESMO E OUTRAS BESTEIRAS RELEVANTES...


Tanta coisa, tanta coisa acontecendo, gente...

Tem dias que eu levanto e as palavras simplesmente vêm, as idéias vêm, dá vontade de falar de tudo, de olhar e descrever tudo. Falar, falar, falar por falar, porque já desisti de esperar por uma resposta. Estou começando a acreditar que as pessoas realmente não vêem as coisas que eu vejo, mas se eu manter isso em segredo, minha posição como membro participativo e equilibrado de nossa maravilhosa sociedade burguesa-cristã estará assegurada.

Mas... mas... mas será?

E sobre boas maneiras? Vamos falar sobre boas maneiras? Educação. Bom convívio social. Sorria, agradeça, peça licença e, principalmente, NÃO incomode! Cinema. Você vai ao cinema. Daí tem aqueles chatos. Sabe os chatos? O pessoal que sussurra no celular: “Agora não posso falar, tô no cinema!”. A moçoila que TEM que levantar pra ir no banheiro no meio (NO MEIO) da melhor parte do filme, passar na TUA frente e ainda pisar no teu pé. O pai mala que leva a filha de quatro anos e fica lendo as legendas pra ela. Essas pessoas insuportáveis! Mas o pior mesmo são os engraçadinhos, os malditos engraçadinhos. Aqueles caras que comentam o filme, aqueles caras que riem do filme, aqueles malditos que pensam que ir ao cinema é como ir a um jogo de futebol e fazem questão de torcer pelos personagens como se aquela palhaçada toda fosse real. Em resumo, os chatos dos cinemas, aquelas figuras sem consideração nenhuma, sem educação nenhuma, que fazem questão de nos lembrar que existem! E que (pior!) estão ali, sentados do nosso lado, estorvando nosso sossego, nossa solidão na multidão! Eu não pago 14 reais pra sentar numa sala de ilusão e ser brutalmente incomodado!Lembrado que existe uma pessoa de verdade do meu lado? Isso é absurdo! Sou inteligente, tímido, educado, recatado, comportado, civilizado! Sou melhor do que os outros! Sou curitibano, porra!

Esses MALDITOS CHATOS DE CINEMA!!! MORTE A ELES!!!!

Eu sou um deles.

Eu sou um dos caras que fala “puta que pariu” quando o chicote arranca um pedaço das costas de Jesus Cristo. Eu sou um dos caras que ri, ri MUITO, do Jack Sparrow nos Piratas do Caribe. Eu falei “AEEEEEE!!” quando o King Kong matou aquele dinossauro e cheguei a bater no peito junto com o gorilão. Ainda hoje eu vibro quando lembro da seqüência final do primeiro filme do Homem-Aranha. Eu vibro. Você consegue entender isso?

Eu!

Vibro!

No filme do Demolidor, tinha um biruta no fundo da sala que ficava gritando “VAI, DEMOLIDOR!” e ele conseguiu tornar o filme quase legal. Esses filmes pra mim são eventos, são mais como jogos de futebol, você vai lá, você torce, você entra no filme, você curte. Você vive. São os blockbusters, os enlatadões norte-americanos, são as grandes besteiras que você assiste se divertindo. E você raramente está sozinho na sala de cinema. Cinema é interação social, quer você goste ou não. Claro que existem limites, que existem padrões de bom comportamento e tal, mas, se o meu irmão tem uma crise de riso quando vê o Tom Hanks tentando arrancar um dente usando um patins como formão (no filme Náufrago), que eu posso fazer além de rir com ele? Sim, é uma cena trágica, mas você sabe o quão fácil é o trágico descambar para o cômico? Eu não ri durante a Lista de Schindler (só um pouquinho, mas disfarcei bem).

Então.

300 de Esparta. O filme 300. Fui assistir com um amigo meu, e nessas horas você percebe porque tem amigos e o que isso realmente significa. Amigo é aquele que tá do teu lado no front da batalha! Não tem como você assistir 300 impassivelmente. Impossível. O filme é um grito, um exagero, um espetáculo barroco! Falamos um monte “puta que pariu”, “ah, loooooco!”, “meu Deeeeus, cara!” e “caraaaaaalho!”. Falamos “tomou no cu” pra um personagem (que realmente tomou no cu). Rimos, rimos MUITO durante as batalhas. O olhar alucinado dos Espartanos, a coreografia estupenda, as cores das imagens, a beleza artificial das cenas! O fake, o exagero. Rimos de curtição, rimos como a gente riu naquele 6 a 4 do Atlético em cima do Santos ano passado, uma das melhores partidas de todos os tempos. Rimos de alegria diante do espetáculo, cara. Foi por isso que rimos. Mas o pessoal em volta não entendeu não... “Do que que esses caras tão rindo? Por que não param? Por que não se comportam, ficam quietos e fingem que não existem como todo mundo mais?”

O seu direito termina onde começa o direito do outro. Sinto muito se meus risos incomodaram seu silêncio, mas sua repressão também incomodou minha espontaneidade, então estamos quites.





Ah, os 300. Filme do caralho. Como você já deve saber, é baseado nos quadrinhos do Frank Miller. Segue a mesma linha do filme do Sin City, com cenas que são praticamente transposições exatas de imagens dos quadrinhos para a tela. Mas o filme 300 consegue ser bem melhor do que os quadrinhos. Há um background maior para os personagens, eles estão mais convincentes, menos rasos. É um filme maniqueísta e bem ingênuo, mas ainda assim está 300 vezes melhor que o roteiro dos quadrinhos. A HQ dos 300 é linda e irritante. Frank Miller devia ter dado uma de Mel Gibson e deixado o texto em grego antigo pra ninguém entender, porque o maior problema de 300 é aquele textinho vagabundo. Preconceituoso, agressivo, arrogante, o texto da HQ deixa claro que Esparta é uma alegoria dos Estados Unidos, “a única nação livre do mundo, a última esperança de razão e justiça para o mundo”. Embora muito dessa pataquada esteja no filme, acaba diluída entre os diálogos e cenas que o diretor Zack Snyder acrescentou.

Frank Miller já foi bem melhor do que é hoje. Sin City e 300, na minha opinião, estão bem longe, beeeeem longe de serem seus melhores trabalhos. Quando se fala de Frank Miller é inevitável falar do Cavaleiro das Trevas (The Dark Night Returns).





Vejamos, a edição encadernada que eu tenho é de 1987, então eu tinha uns 13 anos quando li o Cavaleiro das Trevas. Se eu fosse falar do meu livro favorito, da obra que marcou a minha adolescência e provavelmente ajudou a moldar alguma coisa em mim, essa obra seria o Cavaleiro. Uma história em quadrinhos do Batman. O pessoal fala muito do Cavaleiro, diz que, ao lado de Watchmen, revolucionou a indústria de quadrinhos, a maneira de pensar os quadrinhos de super-herói. O Cavaleiro chegou a ser capa da revista Rolling Stone nos EUA, na época em que foi lançado.

No começo do Cavaleiro das Trevas, a televisão, um dos personagens principais, nos apresenta uma cidade de Gotham consumida por uma onda de calor e violência sem precedentes. Nesse cenário, comemora-se os 10 anos de aniversário da última vez em que Batman foi avistado. A partir daí, Miller apresenta Bruce Wayne, um velho amargurado, contrariado, que abriu mão de ser aquilo que dava sentido à sua própria existência. Porque uma pessoa muito próxima morreu por sua culpa, Wayne abandona o manto do morcego. Por 10 anos. 10 anos é o tempo que ele demora pra perceber que Batman era o verdadeiro rosto sob a máscara de Bruce Wayne.

A maneira como Miller conta essa história é empolgante, envolve diversas narrativas, apresenta vários pontos de vista, faz referências políticas, tudo em um ritmo espetacular e intenso. O Batman de Frank Miller, que se tornaria um modelo para o personagem pelas décadas seguintes, é um homem extraordinário, um personagem riquíssimo e inspirador, algo como um animal selvagem, cheio de vida, capaz de superar qualquer desafio. “O mundo só faz sentido quando você o obriga a fazer”, ele diz. A cada minuto da história o personagem é lembrado da sua idade, sente a falta da juventude perdida, tropeça, comete erros, cai... e levanta-se e ultrapassa os próprios limites.

Reli essa história agora, vinte anos depois. Ela é bem marcada, datada dos anos 80, mas ainda empolga, ainda tem o vigor, a energia.





O tema do sujeito que supera a si mesmo se repete em outra história sensacional, A Queda de Murdock (Born Again), uma história do Demolidor (Daredevil) que o Miller escreveu logo depois do Cavaleiro. Nessa história, o Rei, o maior chefão mafioso, descobre a identidade secreta do Demolidor, super-herói que o estorvava há tempos. Mas ao invés de preparar um ataque direto contra Matt Murdock, o Rei usa toda sua influência e leva o herói a falência completa. Sem dinheiro e amigos, enlouquecido e paranóico, Murdock mergulha num inferno pessoal de miséria e solidão. E se reinventa enquanto ser humano. Cara, simplesmente sensacional.

Demolidor e Batman eram os sujeitos de vontade inquebrável, que enfrentavam qualquer parada, que empolgavam e inspiravam o leitor. Mas de uns anos pra cá, o tal Frank Miller parece que se perdeu na sua própria receita... em Sin City e nos 300 encontramos caras durões. E só. O filme 300 ainda passa um pouco dessa inspiração, sabe. Não dessa baboseira anabolisada de sair batendo em todo mundo por aí, mas de você ser livre pra ser você mesmo. De você enfrentar suas próprias batalhas e vencê-las. Como rir e se divertir dentro de um cinema lotado de caretas, por exemplo. No fim, aprender a se divertir e não levar a vida tão a sério pode realmente ser uma grande batalha.


(ah, sim, o Rodrigo Santoro está impagável. Repare nos cílios daquele olharzinho meigo de desenho do Bob Esponja. “Não é do meu chicote que eles tem medo”. HÁ! Pelo amor de Deus...)

5 comentários:

__cammy__ disse...

Olá amiguinho virtual meu....

Por causa da correria no trabalho e por causa de um certo desânimo em falar das mesmas coisas fiquei em silêncio um tempo....


Mas aos poucos vou voltando à minha vida virtual normal... hehehe...

putz vc me lembrou do cavaleiro das trevas... meu irmão tinha esse...
aonde será que isso foi parar?!?!?! Vou procurar...


Beijos... sempre adoro visitar vc...

__cammy__ disse...

Ahhhh e eu fiz milhões de comentários, falei palavrão e xinguei muito qd fui ver o filme no cinema.... hauhauhau
Nas 2x que eu fui ver o filme, inclusive!!!!

Daniel disse...

Liber, o 6x4 foi contra o Vasco.

Liberland disse...

Daniel,
Isso mesmo!Grande partida!
Inesquecível!!!!

Anônimo disse...

O comentário anti-americano tem uma falha. O berço da democracia foi a Grécia. É bem verdade que era aplicada a não mais do quê 10% dos cidadãos, o quê excluía mulheres e escravos. Mas, pelo menos evitava a chamada Tragédia dos Comuns.
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