domingo, abril 15, 2007

Ideologias


“Obrigado por fumar” é a história de um lobista que procura defender os interesses das indústrias do cigarro nos Estados Unidos. O filme me conquistou por dois aspectos: primeiro apresenta um protagonista que é um “outsider”, que procura defender aquilo que é indefensável. Um subversivo. Segundo, porque o filme aborda a questão do discurso, do pseudodiálogo que leva à manipulação. Como dizem no filme, todos queremos a verdade, mas chegamos a ela através de filtros.

O lobista Nick Nailor (interpretado por Aaron Eckhart) é odiado por milhares ao defender o direito de uma pessoa fumar (ou defender o direito da indústria vender seus cigarros, depende do ponto de vista). Ele se reúne à noite com dois amigos, lobistas da indústria de armas e de bebidas alcoólicas. Juntos eles formam o clube autodenominado MDM (Mercadores da Morte) e trocam idéias sobre as dificuldades de seu trabalho. Um lobista, pelo que o filme apresenta, é basicamente um enrolador, um sujeito que argumenta e procura defender uma interpretação de realidade, um daqueles caras que usa com freqüência a frase “veja bem...” Muito divertido e com ótimos diálogos, o filme dava a impressão de ser um esperto discurso subversivo sobre manipulação e liberdade de escolha.

Eu curti a idéia de alguém defender o cigarro. Apesar de ser produto nocivo e tal, eu gostei da idéia de que um filme levasse em consideração que o ser humano tem responsabilidade sobre suas escolhas e pode sim escolher fumar. Esse foi o olhar preliminar que me agradou sobre o filme. Era um filme sobre escolhas, sobre o bom-senso, sobre poder pensar e não aceitar mastigadinho o que te dizem. Mas era um filme de Hollywood. E embora venha vestidinho de “politicamente correto”, ainda é um filme hipócrita.

Pra começar, não se vê em nenhum momento alguém fumando no filme. Nada. Nem uma fumacinha. Nick Nailor, o lobista, é um fumante inveterado, mas sabemos disso porque as pessoas falam no filme e em uma cena ele percebe que sua carteira de cigarros está vazia. Mas ele não aparece fumando nenhuma vez. Considerando tudo, isso é no mínimo estranho.

Segundo, temos a velha estrutura que os americanos adoram: o bem contra o mal. Nailor é nosso herói e o senador que quer estabelecer medidas duras contra o comércio de cigarro é o vilão. Nos extras do DVD, o diretor Jason Reitman explica que foi difícil construir antipatia por um senador que defende nosso direito à saúde. É o mundo na ótica ianque: existem pessoas más e nós somos os bons. TEM que ser assim. TEM que ter um adversário, pra estimular uma competição. Senão que graça teria? E você está assistindo ao filme e tem alguém te pegando pela mão e dizendo com qual personagem você deve se identificar e qual você deve condenar. Sempre foi desse jeito, mas em um filme que fala sobre manipulação, essa característica parece se ressaltar.

E por falar em estrutura, temos a obrigatória apologia à família, presente em qualquer filme americano. Nailor é divorciado, mas é um pai presente na vida do filho, que o ajuda na tarefa de casa, diverte-se com ele no parque e conversa sobre os assuntos mais relevantes sem tratar o garoto como um imbecil. Em um dos momentos mais cruciais do filme, é o filho que inspira o pai a dar a volta por cima (aliás, o guri faz uma das famosas cenas de discurso. Já viu como os gringos gostam de discurso?) Enfim, a instituição sagrada da família está bem representada nessa relação pai e filho. Uma relação idealizada ao extremo, diga-se de passagem. Ah, a ex-esposa é tratada como elemento cenográfico.

Sim, é só um filme e ainda assim eu gosto dele, mas não dá pra parar de pensar em como esses filmes, essa novelas e ficções ajudam a construir nossas visões/ilusões de realidade. Que somos livres, que a felicidade está logo ali, que vamos encontrar uma pessoa perfeitinha e ter uma família estilo propaganda de margarina. Que a única fonte de felicidade é o amor romântico, que se trabalharmos muito, seremos vencedores. Que se tivermos um bom caráter, seremos recompensados no final. Que o mundo está dividido em bons e maus, em vencedores e perdedores, em nós e os outros.

Um pouco de ilusão é necessária, mas às vezes tenho a impressão de que estão nos chamando de idiotas...


“Ideologia: um mascaramento da realidade social que permite a legitimação da exploração e da dominação”.
Marilena Chauí.

5 comentários:

Anônimo disse...

Bem, velho amigo (ou inimigo, dependendo do ponto de vista é claro!), a frase final vindo de quem veio, me parece uma faca de dois gumes. Fato é que ela, Marilena, vem defendendo o Lula, como se ele fosse o Salvador da Pátria. Puro maniqueísmo da parte dela? O Lula contra o Mal? Lobby, Pró-Lula? Podemos concordar que este governo foi/é um dos maiores manipuladores de todos os tempos? Talvez, a institucionalização da ética de Macunaíma?
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André Caliman disse...

Cara, adoro seus comentários sobre qualquer coisa que seja!

Abraço!

Liberland disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Liberland disse...

André! Daniel! Obrigado pelos comentários e por lerem meu blog.
Grande abraço!

Anônimo disse...

Não concordo. Acho que o filme não está defendendo quem escolhe fumar. Acho que Nailor não é um heroi. Acho que a idéia do filme é justamente mostrar a seguinte situação: os caras q manipulam a gente com grande habilidade e nos convencem q é uma escolha normal vc querer se matar fumando VS. o pessoal que quer mostrar que merda que é fumar, mas que não tem capacidade persuasiva, são chatos e burros. E por fim, o filme está falando: OLHA COMO VC É MANIPULADO! ACORDA! Ou seja, o filme é contra o cigarro. Não vende nenhuma ilusão, e sim tenta desmascara-la.