quinta-feira, abril 19, 2007

Mas que coisa feia!



Recentemente saiu uma historinha do Homem-Aranha lá nos EUA que causou a maior polêmica entre os fãs. Reign é o nome dessa mini-série que mostra um Peter Parker velhinho e solitário, mais deprimido do que nunca, que há muito tempo pendurou as teias. A história é claramente inspirada no Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, apresentando similaridades na arte e no roteiro: num futuro sombrio, o super-herói aposentado e decadente volta à ativa. As controvérsias surgiram por causa de duas situações apresentadas.

Logo no primeiro número, há uma cena onde o velhinho acorda. Ele está sentado na cama, nu. Embora seja um desenho bem caricato, podemos ver que tem uma coisinha ali, no meio das pernas. É. É exatamente isso que você está pensando. Um pênis. Daí começou a primeira polêmica. Donos de lojas e leitores sentiram-se muito incomodados com o “nu frontal masculino”. Questionavam se aquilo era apropriado para o personagem ou mesmo para uma história em quadrinhos. Afinal, o Homem-Aranha é um herói para as crianças e tal. Seria apropriado deixar os pequenos lerem uma história onde aparece um velhinho nu? Mas, pare para pensar um pouco: seria apropriado deixar os pequenos lerem uma história depressiva sobre um velhinho a quem só restaram lembranças e muita solidão? Enfim, a editora Marvel providenciou uma nova edição (a “variante sem pênis”) para os mais pudicos. Abaixo, a imagem original.

Ohhhhh!!!!!

Depois do pênis, o esperma. Na terceira parte da minissérie, vemos Peter Parker delirando diante do túmulo de sua esposa, Mary Jane. Então descobrimos a causa da morte dela: como tinha sido picado por uma aranha radiotiva (o que lhe deu os poderes), todos os fluídos de Peter também se tornaram radioativos. Todos os fluidos. Sem meias palavras, transar com Peter Parker deu câncer a Mary Jane. Hehehe! Gente... o público sentiu uma indignação enorme. Ficaram ensandecidos. Todo mundo censurando, xingando, dizendo que a editora não tinha a menor consideração pelos leitores nem pelo próprio personagem. Acharam a coisa toda uma palhaçada de extremo mau-gosto, coisa de paródia pornográfica. Em muitos aspectos, as críticas estão provavelmente com toda a razão, entretanto...

Entretanto, por trás de todas as reclamações e argumentos, pareceu-me que existia principalmente um grande desconforto com relação à questão da sexualidade em si.

Eu acredito que, em uma boa história, não interessa tanto o que acontece, mas como o que acontece é contado. Não posso dizer se a história é boa ou não sem lê-la. Tentei baixar a história para conferir pessoalmente, mas não consegui. Pelo que pude conferir, o roteiro é bem comum (bem contra o mal e tal). O que realmente me chamou a atenção foi que o principal motivo da indignação dos críticos era o pênis e o esperma. Por que a idéia de que o Homem-Aranha possa ter e exercer sua sexualidade é condenável? Isso macularia sua dignidade? Isso perturbaria e corromperia as crianças que lêem os gibis? Só crianças lêem os gibis?

Os quadrinhos como conhecemos hoje (enquanto mídia de consumo de massa), surgiram no final do século XIX, nos jornais norte-americanos. Aos poucos, a caricatura e os desenhos seqüenciais narrativos foram ganhando as características que conhecemos hoje, como os balões e as onomatopéias. No princípio, o humor predominava entre as historinhas, mas lá pela década de 1930, a aventura se consagra no mundo dos quadrinhos. Detetives, heróis das selvas, heróis do espaço. Surgem Tarzan, Fantasma, Mandrake, Dick Tracy, Flash Gordon...

As ficções refletem muito o pensamento e o modo de ver o mundo da sociedade que as concebem. Nesse começo do século XX, o que tínhamos era uma sociedade patriarcal com valores rígidos e muito bem definidos. A sexualidade era vista como algo moralmente condenável. Existem muitos aspectos complexos referentes à religião e sociedade por trás dessa mentalidade. O que me interessa aqui é como os quadrinhos refletem essas concepções de comportamento da sociedade e suas mudanças ao longo do século XX.



Pegando como exemplo Flash Gordon, encontramos o aventureiro terrestre que luta para livrar o planeta Mongo das garras de Ming, o impiedoso. Alto, branco, loiro, racional, corpo perfeito, Flash Gordon encerra todas as qualidades que o herói ideal da época deveria ter. Sua namorada é Dale Arden, bela, inocente, fútil e submissa, que aguarda passivamente o dia em que Flash decidirá casar com ela. Ela é o estereótipo clássico da mocinha indefesa esperando para ser resgatada. Por outro lado, as vilãs da série possuíam uma personalidade forte, eram líderes, princesas. Ostentavam uma sensualidade mais agressiva e por vezes tentavam seduzir o nobre herói. Podemos considerar que entre as mulheres nas aventuras de Flash Gordon, submissão e passividade eram características das mocinhas de família, do “bem”, enquanto que ousadia e sedução eram coisas das “malvadas”. Flash e Dale representam a idéia típica de casal que se tinha nessa época: o homem dono do mundo e sua mulher de estimação. Esse casal era a base da sagrada estrutura da família, em que os filhos devem submissão e reverência à figura do pai e respeito e carinho completamente assexuado à mãe. O pai é o deus protetor e a mãe é uma santa imaculada. Sexo parecia ser algo que ameaçava essa estrutura. Essas idéias e maneiras de ver a sexualidade e a relação entre casais estão presentes nas histórias de muitos outros aventureiros da época. Lois Lane, Jane e Diana Palmer são as noivas eternas de Superman, Tarzan e Fantasma. E há vários outros exemplos.

Sim, vamos casar. Mas é melhor você esperar sentada, minha filha...


Mas nem tudo era “a aventura da batalha do bem contra o mal” na década de 30. Enquanto Flash Gordon lutava bravamente contra Ming e Dale Arden retocava a maquiagem, Betty Boop cantava.

Betty Boop surgiu nos desenhos animados dos estúdios de Max Fleischer, lá por 1932. Em 1934 ela virou personagem das tirinhas de quadrinhos. Sem ter um inimigo a quem combater ou um namorado a quem servir, Betty vivia aventuras simpáticas e bem humoradas, embaladas com muita música. Boop incomodou muita gente porque foi a primeira personagem de desenho animado a representar uma mulher de verdade. E isso incluía a sexualidade. Para se ter uma idéia, um exemplo típico de personagem feminina da época era a Minnie, namorada do Mickey. Acostumados a ver coisinhas cuja feminilidade era definida por um lacinho na cabeça, o público não ficou impassível diante de Betty Boop. O rosto era inspirado na popular cantora Helen Kane e o corpo imitava as curvas de Mae West. Cinturinha fina e cinta-liga, peitinhos proeminentes e movimentos provocantes que às vezes mostravam sua calcinha, Betty se tornou um sex simbol e pagou caro por isso. Em 1934, a Liga da Decência Americana considerou a senhorita Boop uma ameaça aos valores puros e íntegros e conseguiu tirá-la de circulação. E de sex simbol ela se tornou ícone pop cult.



Repare que até aqui estivemos falando dos Estados Unidos da América do Norte da década de 1930. E no Brasil?

Embora exista uma produção de quadrinhos feita por artistas brasileiros, a influência dos gibis estrangeiros, principalmente americanos, é notória em nosso país. Na década de 1930, Adolfo Aizen foi um dos pioneiros em trazer para o Brasil os personagens norte-americanos. A princípio as historinhas vinham como encarte nos jornais, mas sua popularidade logo incentivou o lançamento de publicações exclusivas de quadrinhos. O sucesso de vendas era tão grande, o consumo de quadrinhos era tão numeroso, que os educadores do Brasil começaram a se preocupar se esse tipo de leitura não era prejudicial às crianças. (Sempre as crianças...). Essa preocupação não era original. Na França já existia esse tipo de debate, de que as histórias em quadrinhos podiam transformar crianças em marginais.

Naquela época, a Igreja Católica no Brasil tinha força e influência bem maiores sobre a sociedade e estava muito preocupada com a moral e bons costumes de seus membros. Muitos bispos e padres condenaram os quadrinhos violentamente, acusando-os de todo o tipo de vilania que se possa imaginar (desde o incentivo à marginalidade ao prejuízo do desempenho intelectual). No meio da década de 40, Adolfo Aizen fundou sua editora, a EBAL, que publicava uma série de revistas com versões traduzidas das hq’s ianques. Num clima hostil de conservadorismo e puritanismo castradores, Aizen procurava manter as melhores relações possíveis com todos os críticos, especialmente a Igreja Católica. A EBAL publicava revistas com matérias educativas, hq’s sobre grandes vultos da história brasileira, sobre santos e episódios da Bíblia. Esses títulos não vendiam muito e eram publicados só pra agradar a velharada conservadora. Aizen até conseguia uns elogios do clero, mas várias vezes sofreu duras repreensões, mesmo com toda sua política de boa vizinhança.

Na década de 50 aconteceu um episódio curioso. A revista Edição Maravilhosa costumava trazer em seu verso a reprodução de uma pintura de algum artista famoso, brasileiro ou não. Por duas vezes a editora EBAL recebeu severas críticas por publicar material pornográfico e prejudicial à pureza da juventude. Um padre escreveu cartas e fez uma série de sermões condenando a pornografia e as histórias em quadrinhos e apelando para que os pais não deixassem os filhos lerem as revistas. Essas imagens "pornográficas" foram publicadas nas edições de 1953 e 1954. Abaixo você pode vê-las.



"Verão", do pintor brasileiro Eliseu Visconti


"A Grande Odalisca", de Ingres

Uma barbaridade, não?

A história da publicação de quadrinhos no Brasil nas décadas de 1930 a 1960 pode ser encontrada no livro de Gonçalo Junior, muito apropriadamente chamado de “A Guerra dos Gibis”.

A repressão contra os quadrinhos era geral e teve seu ápice a partir de 1954, nos EUA, quando foi publicado o livro Seduction of the Innocent, do psiquiatra Frederic Wertham. Basicamente, o livro dizia que as histórias em quadrinhos eram extremamente nocivas para as crianças, podendo levá-las ao alcoolismo, homossexualismo, assassinato, roubo e baixo rendimento escolar. Esse livro foi a base para um violento processo contra os quadrinhos, que originou um código de regulamentação, o Comics Code. A principal preocupação desse código era com as questões de violência e criminalidade apresentada nas hq’s, mas encontramos alguns itens bem interessantes no que se refere à sexualidade. Por exemplo...

  1. Paixões ou interesses românticos jamais devem ser representados de modo que estimulem sentimentos inferiores e vulgares.
  2. As histórias sobre amor romântico devem enfatizar o lar como valor e o caráter sagrado do casamento.
  3. O divórcio não deve ser tratado com humor nem deve ser representado como algo sedutor.

As revistas que desrespeitassem o Comics Code não recebiam o "selinho de qualidade" e eram consideradas impróprias para os jovens leitores.




O livro de Wertham e o Comics Code tiveram um forte impacto nos quadrinhos norte-americanos. Do ponto de vista criativo, foi uma tragédia. Quando esse código surgiu estava rolando o auge da guerra fria, o medo da invasão comunista, o surgimento dos movimentos de contracultura. Daí os esforços para proteger todos os valores tradicionais. No Brasil aconteciam movimentos de censura semelhantes, porém motivados mais por conservadorismo puro e politicalhas.

Na década de 1960, o movimento de contra-cultura, o underground, explode com força no mundo todo. Não se trata apenas de uma contestar os velhos valores tradicionais. As pessoas começam a se dar conta que a moral e os bons costumes de fato serviam como um auxílio para manter uma situação de poder e controle entre grupos sociais. E lá vem os hippies, as feministas, a maconha e as drogas, sexo livre e o rock. A luta contra o Sistema. A cultura ferve, o mundo se agita, o circo pega fogo.

O sexo passa a ser uma maneira de contestar as tradições e hierarquias pré-estabelecidas. Daí surgem os célebres trabalhos de Robert Crumb, Gilbert Shelton e cia. Eles criaram uma revistinha chamada ZAP Comics. Eles mesmos desenhavam e escreviam, fazendo cópias em gráficas pequenas e vendendo de mão em mão. Era a essência do fanzine, da publicação underground, fora do controle do sistema. Eles não só não precisavam se submeter ao código, como procuravam desobedecer escancaradamente cada item do Comics Code. E se divertiam muito com isso.

Arte de Robert Crumb dando uma idéia do espírito da época

No começo da década de 1960 surge a pílula anticoncepcional. A liberação sexual explode. A emancipação da mulher dos anos 60 encontra reflexo no surgimento de diversas personagens femininas como Paulette, Modesty Blaise e Valentina. A primeira e provavelmente mais popular dessas personagens foi Barbarella, criada em 1962. A aventureira espacial usava sua sensualidade como vantagem sobre seus oponentes. Mas também adorava dar umazinha só de farra.

Barbarella barbarizando. (Sem discriminar ninguém...)

Na maioria, essas personagens foram criações européias e refletem todo um espírito da época. No começo, a questão não era apenas transar por transar. O sexo também era visto como uma atitude de rebeldia contra a repressão estabelecida. Rapidamente, porém, as histórias em quadrinhos deixaram de lado os ideais libertários e mergulharam nas fantasias pelo puro prazer.

E acontece uma pequena reviravolta. A liberação sexual acaba sendo absorvida pelo “sistema”. Ao longo das décadas seguintes, começa a se delinear um tipo de cultura onde o sexo não é somente um prazer e uma opção, mas passa a ser também uma mercadoria. De certa forma, as velhas estruturas de controle se mantiveram, trocando quando conveniente as tradições morais por uma filosofia hedonista caracterizada pelo consumo desenfreado e satisfação imediata dos prazeres. Afinal, como dizem, “doma-se um povo como se domam os leões: com masturbação”. Em outras palavras, não estamos melhor do que no começo do século XX. A aparente liberdade que temos apenas encoberta uma forma mais sutil de controle. O prazer passa a ser um produto comercializável. O erotismo vira recurso publicitário.

É óbvio que toda essa liberdade sexual de hoje possui muitos “poréns”, principalmente quando se refere aos quadrinhos. Além do caso do “Pipi do Homem-Aranha” lá do começo do texto, há uma outra historinha recente, embora não tão polêmica. Gotham Central é uma série de quadrinhos baseada no universo do Batman. Conta o dia a dia dos policiais de Gotham City e apresenta personagens sem poderes. Pessoas normais e seu cotidiano na delegacia de uma megalópole violenta. Muito parecido com Nova York Contra o Crime ou outra série de tv similar, só que às vezes aparece um super-vilão ou o próprio Batman. Uma das histórias dessa série ganhou uma série de prêmios em 2004. E gerou polêmica também. Nela, uma das policiais do departamento é chantageada e atormentada por um inimigo desconhecido. Aos poucos, a vida da mulher vai desabando. Um dos duros golpes é ter sua sexualidade revelada: ela era homossexual. A partir daí, ela começa a lidar com o preconceito dos colegas e o repúdio da própria família. A história é muito bem escrita, desenhada e, na minha opinião, é super-comportada. Isso não impediu seus autores de, mesmo com os prêmios, serem severamente criticados. O autor, Greg Rucka, declarou em uma entrevista:


“As pessoas ficaram bravas com essa história. Elas acusaram a mim e ao Michael Lark (desenhista) de uma série de coisas, todas elas sem base nos fatos, e quase todas revelando bem mais dos acusadores do que dos acusados.

Quadrinhos são arte, e eles são literatura, e, sim, eles são entretenimento. Nenhuma dessas coisas deve excluir as outras. Para qualquer história ter sucesso, deve refletir as verdades do nosso próprio mundo, as coisas que todos nós dividimos – amor e perda, dor e medo e, até as pequenas coisas, como a frustração de perder as chaves do carro, a alegria de achar dinheiro no bolso de um casaco. Assim como no nosso próprio mundo, os quadrinhos não podem ser apenas histórias de homens brancos, cristãos e heterossexuais.”





É...

Chega por hoje.

Falou, people.


(Para saber mais:
Psicologia e História em Quadrinhos de Francisco B. Assumpção Jr. Editora Casa do Psicólogo.
A Guerra dos Gibis de Gonçalo Junior. Editora Companhia das Letras.
Zap Comix de Robert Crumb e um monte de caras. Editora Conrad.)

5 comentários:

Julio disse...

caraca,,, como vc gosta de escrever em liberato... tive que dividir minha leitura em 2 tempos...t erminei o primeiro agora... o maximo que posso dier até agora é que vc escrevve bem pacas... depois quando eu terminar, eu digo o que eu achei de tudo... se é que te interessa né.. hauhauh falow...

Julio disse...

eita... como esse blogger sabe que eu sou???????????????

Liberland disse...

Oi Julio!
Obrigado pelos comentários. Claro que sua opinião interessa! Espero te ver aqui mais vezes.
E meu blog é mágico... ele guarda nomes e endereços... Buahahahahah!

Grande abraço
Liber

Teca disse...

putz, se isso é um simples post num blog, eu já tô imaginando como vai ficar tua dissertação do mestrado..afe....muuuuiiito legal!!!!!beijocas!

Liberland disse...

Oi Teca!
Obrigado! Quanto à minha dissertação, só posso garantir que ela vai ter bastante figurinhas... haahahah!
Beijos