segunda-feira, abril 30, 2007

O Grande Truque

(Você está prestando atenção?)

Todo truque de mágica consiste de três partes ou atos.

A primeira parte é chamada de a Promessa. O mágico mostra a você um objeto normal, ordinário... um maço de cartas, um pássaro, uma pessoa. Ele mostra esse objeto e talvez até peça que você o examine, para que possa confirmar por si mesmo que, realmente, é um objeto comum, sem alterações.

É. Parece um objeto completamente normal.

(Mas, é claro, provavelmente não é.)

O segundo ato é chamado a Virada. O mágico transforma o ordinário em algo extraordinário. Objetos se interpenetram. Pessoas desaparecem no ar. “Como ele fez isso?” E agora, diante da mágica, você procura pelo segredo, mas não vai descobri-lo porque, é claro, você não está procurando de verdade. Você realmente não quer saber.

Você quer ser enganado.

Mas ainda não há aplausos porque fazer algo desaparecer não é o suficiente. É preciso trazê-lo de volta. É por isso que todo truque de mágica tem um terceiro ato. A parte mais difícil. O seu fechamento, a sua conclusão espetacular. A Apoteose.

* * *


A viagem de São Paulo à Curitiba tem cerca de 6 horas.

Imagine um embarque no terminal Tietê à meia-noite, em um ônibus convencional. Imagine que seja uma quarta-feira. Ônibus quase vazio. Os burburinhos da viagem, o assento vazio ao seu lado, os borrões indistintos do outro lado da escuridão da janela. Você sempre dorme na viagem, mas hoje, justo hoje, você não consegue. Você não tem um sonzinho para ouvir, você não trouxe nada para ler. O tempo é diferente aqui. O tempo é um movimento contínuo na escuridão, um embalo constante. Um silêncio sem mudanças, uma solidão sem perspectivas.

Aqui você só tem a si mesmo.

Promessa, Virada, Apoteose.

Racionalização e esquematização em três momentos definidos. Receita não só para truques de mágica, mas também para filmes, para livros, para novelas. Para todas as formas de representação. Namoros, amizades.

Solidão.

É lógico que é tudo uma grande representação, um grande truque. Somos ilusionistas e platéia ao mesmo tempo. Tão acostumados a representar para os outros que não percebemos o quanto representamos para nós mesmos. Não queremos perceber, não queremos saber.

E na longa viagem pela escuridão entre as duas cidades, o que temos é um objeto comum, ordinário, uma pessoa sentada sozinha. Você. Eu. Homem. Mulher. O objeto ordinário, a base da expectativa. A Promessa.

E a Virada. De repente não somos mais uma pessoa sentada na escuridão. De repente estamos olhando alguém pela primeira vez, de repente estamos beijando, dormindo juntos pela primeira vez. Promessa, Virada, Apoteose. Mas não termina ali. Esse é o maldito problema. Na manhã seguinte acordamos ao lado de uma nova Promessa, um novo objeto ordinário e passa-se a viver da expectativa de uma Virada incerta e uma Apoteose improvável. A teoria é falha. Não se pode racionalizar a Decepção, então pegamos um ônibus e vamos pra Curitiba, deixando a Promessa ordinária para trás e nos vemos na madrugada, sentados no ônibus sem conseguir dormir, sem conseguir parar de pensar, imaginando se fizemos certo, se daria certo ou não, se a culpa não foi nossa. Mas a Dúvida também não aceita racionalizações.

E pensa o que será na cidade nova, quem irá conhecer, quem será a nova Promessa. Pensa no seu aniversário de 32 anos na semana que vem. Pensa no dinheiro que não tem. Pensa no quanto estudou, viajou e trabalhou e ainda assim não há garantias de nada. Ansiedade. Apreensão. Na escuridão da viagem, não temos Promessa alguma, quem dirá Apoteose.

Na escuridão da viagem o celular está sem baterias.

Na escuridão da viagem você só pode olhar para si mesmo.

Conhece-te a ti mesmo, mas quem ia querer uma coisa dessas? O Mundo é sólido feito uma pedra, é seco, é triste. Quem quer realmente deixar de se ver como Promessa de Virada para a grande Apoteose? Quem quer saber o que aconteceu com o casal feliz depois do fim do filme? Quem quer se aceitar de verdade?

E, aos poucos, o escuro se torna uma tênue iluminação amarela e o ônibus pára no posto em Registro. Desce, entra na lanchonete. Luzes amareladas, uma tonalidade laranja irreal em tudo, mas parece ser tão frio. Um café, um assento ocupado na mesa de quatro lugares. De repente percebe que está ouvindo música. Que sera, sera sussurrado das caixas de som escondidas. Na xícara, a gota de leite vira uma galáxia espiral na escuridão do café. Ao levantar os olhos, enxerga a oficina, do outro lado da rodovia.

Quando percebe, está caminhando para lá. As letras mal desenhadas usando vermelho para dizer “Borracharia” na parede. Um poste mal ilumina a porta da oficina. Lá dentro. Uma lâmpada pende do teto com luz fraca e oscilante. Pneus amontoados, pôsteres de mulheres nuas se desintegrando na parede imunda. E no canto, debaixo da lona, está a menina. Ela foi violentada, ferida com ódio selvagem, descontrolado. Ela foi punida e está morta, debaixo da lona seu corpo massacrado, hematomas, cortes, pequenas mutilações. Ela está morta, mas numa fração de segundo a lona é puxada e vemos o seu olhar, vemos o sangue seco em seu rosto. Ela nos vê.

Uma fração de segundo.

Estamos de volta à mesa do café, a galáxia ainda rodopiando nele. Nunca nos levantamos. Nunca houve borracharia do outro lado da rua. Que sera, sera a voz canta de lugar algum. Whatever will be, will be.

The Future is not ours to see.

Hora de embarcar de novo no ônibus.

Mais 3 horas de viagem.

Na mágica, às vezes você precisa sujar as mãos. Sacrifícios pelo espetáculo, pela ilusão, pelo maravilhamento do público e o seu próprio. Esmagar canários em gaiolas para simular seu desaparecimento é coisa corriqueira. Mas fingir a vida inteira ser alguém que você não é... Fingir o tempo todo, até quando se está sozinho... Ah, isso é o supra-sumo da arte, o sublime da disciplina. Fingir ser algo com tanta dedicação que ninguém, nem você mesmo, jamais vai saber quem você era realmente, quem você poderia ter sido.

Eu sou um ilusionista. Eu vivo num mundo de máscaras e espelhos. Eu sou um mentiroso convicto, um sonhador, um alucinado. Eu invento histórias para os outros e para mim mesmo. Eu não saberia dizer o que é real ou não.

Nem você.

(Carla e Joana. As moças das viagens, das conversas sobre tudo e nada. Para vocês. Leiam ouvindo “Mad World” de Gary Jules. )

2 comentários:

Julio disse...

eita líber, tá meio profundo demais. vou por minha máscara de "não entendí" e perguntar se vc tem visões de filme de terror sem querer, ught, se vc me conhecer vai saber que eu não queria ser vc nessas horas.

Mudando de assunto. "Viva as quartas feiras"

Liberland disse...

VIVA AS QUARTAS FEIRAS!!!!! heheheh!

Valeu!
Abração!