domingo, maio 13, 2007

Das coisas que tive, as que mais me fazem falta...


Por alguma razão estranha nos afeiçoamos às coisas. Uma caixinha de música, um cobertor, um carro. É um afeto. Como se essas coisas, esses pedaços de matéria guardassem um valor secreto. Quase como se fossem vivos. Um brinquedo velho, uma correntinha, uma garrafa vazia. O que separa essas coisas do lixo é a nossa imaginação.

Na tv passa Toy Story e os brinquedos conversam e riem e são amigos e são fiéis. Os brinquedos estão vivos e amam seus donos. Os brinquedos estão vivos e aproveitam o momento, antes do esquecimento da vida adulta, do pó e da escuridão do fundo de uma caixa de papelão. Mas o filme termina antes disso com uma alegre cançãozinha.

Só nós conseguimos enxergar nas nossas velhas coisinhas os fantasmas daqueles famosos momentos especiais. E assim alguns acumulam móveis e tranqueiras procurando evitar que os momentos se percam, como se tentassem segurar e reter a própria vida. Outros jogam tudo fora periodicamente. Renovam o guarda-roupa inteiro. Trocam de carro. Porque alguns objetos podem ser assombrados.Uma blusa é uma blusa, mas aquela blusa... ah, você quase sento o cheiro, a pele... a saudade... Você entende o que eu estou dizendo?

Claro que é tudo nossa imaginação. O que assombra e maravilha uns, é entulho para outros. O mundo em si é muito seco, muito sem graça. A gente precisa fantasiar um pouco. A gente precisa acreditar. Então nos tornamos sombras imóveis na escuridão das salas e assistimos os beijos esterilizados dos casais bidimensionais que superam todas as dificuldades para viver um grande amor. “Juntos e felizes para sempre” e sobem os créditos.

E acreditamos que amamos e que somos amados.

Mas a vida é dura, e se você não tomar cuidado os convites acabam indo pra gráfica.

E você vira uma coisa deitada na cama ao lado de outra coisa, assistindo na escuridão o beijo dos fantasmas bidimensionais.

Mas parando pra pensar bem, qual é a opção?

Você está sozinho em casa, diante do vídeo pornô.

Você está sozinho no quartinho mal-iluminado, em cima da puta gostosa.

Você está sozinho na rua, na lanchonete, no meio de todas as suas amadas coisinhas.

As amadas coisinhas nos fitando das vitrines, gavetas, prateleiras, porta-retratos. No fim tudo vira uma coisinha que você queria tanto e agora não quer largar porque tem medo de deixar a vida escapar.

Tudo se vende, tudo se compra, tudo tem um preço e uma medida.


-----x-----


“Das coisas que tive, as que mais me fazem falta, das que mais tenho saudades, são aquelas que eu não podia tocar”.

Existe um livro chamado “O Cheiro do Ralo”. Ele conta a história de um sujeito que compra e vende objetos usados. Esse sujeito sem nome tem problemas, desejos e tesouros. Seu problema é o cheiro insuportável que vem do ralo de seu banheiro. Seu desejo é uma bunda, uma imensa bunda de uma atendente de lanchonete. Seu tesouro é um olho de vidro.

Um livro pesado e denso sobre aquele tipo de pessoa que se arrasta pela vida com a profunda convicção de que falta alguma coisa fundamental, mas que não consegue descobrir o que é antes de ser tarde demais.

O livro virou filme. “O Cheiro do Ralo” com Selton Melo no papel principal. Aqui o comerciante do livro ganha nome: Lourenço. No filme vemos uma vida sem propósito, uma solidão pesada, uma existência miserável. Mas o personagem não se lamenta, não se arrepende de nada. Assume suas decisões e escolhas da melhor maneira possível. E rimos disso. Isso é o mais incrível desse filme. Tudo é muito triste, mas por alguma razão, nós rimos.

Não há uma “grande virada”, não há uma grande paixão, não há um vilão, não há um desafio. Há conversas piradas sobre coisas banais, sobre lixo e encanamento, sobre próteses, sobre a “história de cada objeto”. Há uma trilha sonora muito bacana e diversas pessoas que entram e saem daquele prédio triste. Há uma ausência, uma lacuna que não pode ser preenchida com cimento, areia ou mesmo aquela bunda maravilhosa. E há a bunda. A bunda...

No fim, “O Cheiro do Ralo” não faz sentido.

Igualzinho à sua vida.


“Essa que é a tua fantasia, seu vagabundo?”

“Não. Essa é a minha realidade.”

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