sábado, junho 02, 2007

Momento Filosófico

A questão é que a cultura do consumo e comércio está profundamente impregnada em nosso modo de pensar o Mundo e a Vida. Nas palavras de Oscar Wilde, “sabemos o preço de tudo e o valor de nada”. E aplicamos inconscientemente os conceitos de investimento e lucro em todas as esferas da nossa existência. Avaliamos nossos relacionamentos pelas vantagens e confortos que a outra metade oferece, pesando constantemente o nosso lucro contra as eventuais perdas (defeitos e limitações) do nosso amor. Se nossa companhia não nos oferece o desempenho que esperamos, prontamente a descartamos e partimos para novas experiências, mais satisfatórias. Da mesma maneira avaliamos nosso emprego, nosso carro, nosso apartamento, nosso prestador de serviços, nossas opções de lazer. Se qualquer um destes não atender à nossa demanda e não nos proporcionar lucro (satisfação), não podemos perder tempo em descartá-lo, pois “a vida é feita de momentos”, “a vida é curta” e “precisamos viver o momento presente”.

Obviamente há uma reciprocidade neste jogo. Se avaliamos constantemente tudo ao nosso redor, também somos constantemente avaliados. Em um nível inconsciente, sabemos disso e isso é a fonte de todas as nossas ansiedades. Porque sabemos que não somos perfeitos, que não somos indispensáveis. Sabemos que nossa companheira pode se cansar de nós tão facilmente quanto podemos nos cansar dela e assim a maioria dos relacionamentos contemporâneos se torna um jogo, onde vence aquele que menos se vincula ao outro, preservando sua independência.

Passamos a vida estudando para podermos participar de um mercado de trabalho movido a competitividade solitária e cruel. Hoje não somos mais “empregados”, mas sim “colaboradores”, termo mais politicamente correto que encobre a idéia de servidão e facilita um provável desligamento futuro. Você não é mais demitido, você é “liberado para novas oportunidades”. Os relacionamentos tornam-se superficiais, meras formalidades para embalar a eterna transação comercial em uma máscara de pseudo-cordialidade.

Embora as idéias apresentadas aqui sejam de um ponto-de-vista radical e a Humanidade em si ainda possua valores “sagrados” (solidariedade, amizade genuína, afeto sincero), a verdade é que, para bem ou mal, a Cultura do Consumo é a nossa cultura e estamos profundamente mergulhados nela.


(As idéias desse texto me ocorreram enquanto eu lia sobre indústria cultural e trabalho autoral. Muitas dessas idéias sobre a angústia e desconforto do homem pós-moderno tem grande sintonia com a obra de Zygmunt Bauman. Serão importantes para eu pensar as questões de cotidiano nos trabalhos do Lourenço Mutarelli e cia. Agora eu começo a ser tragado pelo meu texto de dissertação, o que não me impede de me divertir muito com todas essas idéias loucas.)

3 comentários:

Karen ( kika ) disse...

Caro Líber, de loucas suas idéias não tem nada. Concordo com tudo isso e também tenho pensado muito no assunto. Com certeza não é o único a pensar nisso!

ps.: te mandei um email meio urgente hehe.. qdo puder responder agradeço!

ps2.: gostei do blog! vou voltar mais vezes. e estou pensando em como publicar o livro. provavelmente fazendo o que seu texto falou, analisando qual jeito vai proporcionar lucro (satisfação) haha

Anônimo disse...

Salve, "velho amigo". Já que é para falar de cultura x comércio, indústria cultural, segue a referência:

DIALETICA DO ESCLARECIMENTO: FRAGMENTOS FILOSOFICOS
THEODOR W. ADORNO
MAX HORKHEIMER
JORGE ZAHAR EDITOR, 2ED, 1986
254p
DIALETIK DER AUFKLARUNG - PILOSOPHISCHE FRAGMENTE (1969)
BPSJP 193/ADO/DIA


Para facilitar a tua vida há um único exemplar na Biblioteca Pública de São José. O número de chamada está na última linha.

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Liberland disse...

Obrigado pelos comentários e pela visita, amigos.
Estou mergulhado nessa teoria toda de Indústria Cultural, Adorno, Benjamin e Família por causa do mestrado. Tem sido difícil pensar e ler outras coisas ultimamente... hehehe...
Mas obrigado pela lembrança.
Um abraço.