sábado, junho 23, 2007

Um Lindo Dia de Sol


Vi na quinta-feira à tarde, lá na Cinemateca. Aquela sala antiquada, aquelas cadeiras duras, a bilheteria que fica naquela casa de esquina que um dia já foi um salão de baile. A região se chama São Francisco e tem algo de diferente. Não sei. O verde. O céu que a gente vê mais por causa dos prédios mais baixos. As cores das casas. As ruas que passam a impressão de sempre ser sábado. Não sei. Acho que eu queria morar no São Francisco.

Daí fui assistir Estamira na quinta-feira à tarde. Me senti meio marginal, estar indo no cinema quinta-feira à tarde, as pessoas trabalhando e eu caminhando pelo São Francisco curtindo o sol. Tem os predinhos de apartamentos e aquelas casas que devem ter uns 60 ou 70 anos de idade. Numa das janelas uma moça passava roupa, da rua eu era vouyer.

Fui assistir Estamira.

Paguei meia entrada, sentei naquelas cadeiras duras, eu e meia dúzia de pessoas na sala. Na tela uma cópia riscada, danificada, mas os ruídos pareciam fazer parte das imagens do filme.

Estamira...

Estamira conta a história de uma mulher de 63 anos que sofre de distúrbios mentais e vive e trabalha há mais de 20 anos no Aterro Sanitário de Jardim Gramacho, um local renegado pela sociedade, que recebe diariamente mais de oito mil toneladas de lixo produzido no Rio de Janeiro. Com um discurso eloqüente, filosófico e poético, a personagem central do documentário levanta de forma íntima questões de interesse global, como o destino do lixo produzido pelos habitantes de uma metrópole e os subterfúgios que a mente humana encontra para superar uma realidade insuportável de ser vivida.
(Sinopse apresentada no site oficial do filme).

Uma realidade insuportável de ser vivida.

Lá fora o sol brilha sobre o São Francisco. Você pode ouvir o riso das crianças vindo daquele colégio.

Aqui dentro, na escuridão, eu vejo Estamira. O vento levanta sacolas e trapos que se juntam ao vôo dos urubus e gaivotas sobre o lixão. O Aterro Sanitário. O Lixão. Onde vão parar todas as coisas que ninguém mais quer. Moscas, restos de comida, restos humanos. Relâmpagos se perdendo no horizonte. Lagos de água morta borbulhando com os gases da matéria que apodrece lá embaixo. Explosões de fogo que me lembram a maquete-cenário do Blade Runner. Diante da Filial do Inferno na Terra eu penso no Blade Runner...

E Estamira fala.

Estamira pragueja contra Deus, ela cospe o Santo Nome num jorro desesperado de blasfêmias. Ela filosofa, ela balbucia idiomas incompreensíveis, ela ri. Estamira foi estuprada duas vezes, Estamira foi traída pelo homem que amava, Estamira tira seu sustento do Aterro Sanitário e com ele criou dois filhos. A terceira filha tiraram dela pra que fosse criada com outra família.

Loucura é uma conseqüência ou uma maneira de se proteger? Ou os dois?

O filme termina e eu saio pra luz do São Francisco e penso sobre as realidades, sobre as possibilidades. Sobre tudo o que existe por aí e fazemos questão de ignorar. Ignorar é uma maneira de nos proteger, um modo de manter nossa própria sanidade.

Fico curioso sobre como o filme foi feito. Como conseguiram ficar junto de Estamira com a câmera, registrando sua vida, seus filhos, seus amigos e como conseguiram apagar completamente a própria presença no filme. O antropólogo invisível, o pesquisador que não está lá... Fico imaginando se não seria interessante e talvez ainda mais próximo da realidade se na montagem do filme, na narrativa do filme, fossem consideradas as presenças dos que o fizeram. Por outro lado, isso poderia tirar o foco da vida de Estamira. Mas será?

Estamira vai ficar em cartaz na Cinemateca provavelmente mais essa semana, até dia 28 de junho. Confirme os horários e vá assistir. Eu recomendo. Como diz o Lourenço Mutarelli, é um filme “heavy metal”, mas vale a pena.

No mínimo, ajuda você a valorizar mais o sol sobre sua cabeça.



Site oficial do filme: www.estamira.com.br

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