segunda-feira, julho 09, 2007

Os olhos de quem vê

Engraçado como perspectivas diferentes geram visões completamente diferentes de um mesmo objeto. Ou de uma mesma pessoa. Ou de uma mesma cidade. Você fotografa uma pessoa e tem um retrato. A mesma pessoa aparece diferente em uma foto preto e branco. Às vezes você fotografa só uma parte dessa pessoa, um detalhe. Mão, nariz. Fotografa uma sombra, um reflexo distorcido na lataria de um carro. Mil visões de uma mesma pessoa. De um mesmo objeto. De uma mesma cidade.

Qual a relação de um retrato com seu objeto? Por mais inusitado que seja, por mais distorcido, será que um retrato sempre vai manter relação com aquela pessoa, aquele objeto que ele representa? Diferentes visões representam aspectos diferentes e secretos de um mesmo objeto?

Um retrato pode ter vida própria?

Somos bem mais complicados do que imaginamos. O mundo ao nosso redor é bem mais complicado. Por isso as coisas são divertidas. A gente pensa que se conhece bem, e um dia se vê numa filmagem, feita anos atrás. Lá estamos nós na festinha de aniversário de um amigo e parecemos um estranho completo aos nossos olhos de hoje. Ou mesmo uma fotografia recente, em que olhamos e olhamos o nosso próprio rosto ali supostamente representado e alguma coisa nos faz sentir desconfortáveis. Ou surpresos...

Essa é a era das representações. A era das ficções. Dos avatares, dos second lifes e perfis de orkut. Nós escrevemos sobre nós mesmos, nós inventamos a nós mesmos. Sempre fizemos isso, mas os computadores escancaram o processo.

Qual a roupa que mais combina com você? Ou melhor, qual a roupa que mais te traduz como a pessoa que você quer que os outros percebam? Essas são as velhas idéias sobre consumo, mas a questão não é a historinha que você inventa sobre você mesmo. Pense nas múltiplas visões que diversos observadores têm sobre as várias coisas ao seu redor. As pessoas vêem um mesmo objeto de maneiras muito diferentes. E será que todas essas visões não constituem um todo?

Vejamos por exemplo a cidade de Los Angeles.

3 filmes com propostas diferentes. Dois de cinema e o episódio piloto de uma série de TV.



Constantine mostra uma Los Angeles estranha, quente, estorricada, com prédios baixos e criaturas fantásticas correndo pelas penumbras e às vezes sob o sol do meio dia. O diabo existe e há uma guerra entre o bem e o mal. As cores e composição das imagens, a direção de fotografia, a escolha dos ambientes a serem filmados apresentam uma Los Angeles exótica, marcada pela presença latina e ícones cristãos. Há os prédios, as grandes torres cintilantes, mas há o amontoado de predinhos baixos, abrigando lojas diversas. Há sujeira e apartamentos superlotados. Há uma pobreza, uma miséria iluminada por um sol ardente. E no meio disso tudo há magia. O inferno está a um passo. Você só precisa de um gato e uma bacia de água.


Em Crash, Los Angeles é uma panela de pressão. As pessoas não se conhecem. Não conhecem umas as outras nem a si mesmas. Há uma disparidade notável entre as culturas e posições sociais que constituem a população da cidade. Negros, latinos, muçulmanos, brancos, políticos, policiais. O atrito é inevitável. Mas a pessoa não confronta só o seu vizinho, o outro que passa pela rua. A pessoa confronta a si mesma. Atitudes horríveis e covardes que de repente se manifestam. Ou solidariedade e compreensão vindos quando menos se espera. Humanos mesmo. (Eita, filminho danado de bão, sô!) A Los Angeles de Crash não é só uma localização geográfica com um punhado de edificações, mas antes de tudo uma rede viva de intrincadas relações de pessoas e idéias. Uma tensão emocional que paira no ar junto ao calor sufocante. Um conjunto complexo de sensações.

The L Word mostra uma Los Angeles de casinhas com piscina e cerca baixa, uma do lado da outra. Um bairro agradável, habitado por pessoas bem sucedidas. E, em sua maioria, homossexuais. (The L word is “lesbian”, sacou?). As diversas mulheres que protagonizam a série não têm dúvidas sobre com quem vão para a cama. Essa Los Angeles é um cenário agradável de fundo. Não há miséria, não há crime. O principal conflito aqui é “ei, como vamos ter filhos?”. Outra personagem fica em dúvidas sobre sua sexualidade. Tudo bem escrito e filmado, com direito a cenas de sexo bem ousadas pra uma série de tv. Entretanto é uma série feita para um público específico: pessoas com dinheiro. A Los Angeles apresentada é idílica, um paraíso onde se pode sair de uma festa às quatro da manhã e caminhar tranqüilamente para casa. Um paraíso onde todas as lésbicas tem corpinho de violão e menos de 40 anos.

Três Los Angeles, nenhuma delas com certeza um retrato da Los Angeles “real”, mas talvez guardando facetas, fragmentos da identidade dessa cidade.

A Los Angeles Real só será conhecida por você o dia em que você for até lá. E com certeza será a sua Los Angeles Real exclusiva, sua própria, única e indivisível visão da cidade.

O mesmo vale para Curitiba, São Paulo, Florianópolis e outras cidades.

E outras pessoas...

(Ainda sobre The L Word: é uma série bem bacana que dá muito o que pensar, não só pela questão da sexualidade em si, mas a respeito das soluções que as duas mulheres procuram para terem o filho. Adoção não é mencionada. Elas querem engravidar. Então começam selecionando doadores de esperma. A seleção é feita como quem compra um carro ou um apartamento. São relacionadas numa lista as qualidades do possível doador, dando-se preferência ao físico e a atividades artísticas. Surgem uma série de dificuldades e elas não conseguem o doador. Têm uma crise de relacionamento e vão a um terapeuta. Mas o engraçado é como tudo na vida dessas mulheres de ficção é condicionado pela mentalidade de consumo. Tudo parece ser medido por uma questão de lista de compras, de competições bem sucedidas. Há outros aspectos a considerar, mas esse foi o que mais me chamou a atenção, porque, possivelmente, retrata a perspectiva real de muitas pessoas para medir e guiar a própria vida.)

Um comentário:

Anônimo disse...

O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem.

Ferreira Gullar