terça-feira, julho 03, 2007

Jornalismo 1

Não sou jornalista. Sou espectador.

Domingo de noite, finalzinho do final de semana.

No Fantástico, eles faziam uma reportagem sobre a empregada espancada pelos "estudantes de classe média". Música melodramática, super-closes nos hematomas da mulher e a Glória Maria perguntando a cada 30 segunddos: "Mas como você se sentiu quando eles vieram pra cima de você? Como você se sentiu quando eles chutaram você? Como você se sentiu quando viu eles na cadeia?"

Bom, como você se sentiria na hora que cinco sujeitos que você nunca viu na vida começassem a te espancar? Eu sentiria medo, terror, pânico. Entraria em choque. E você? Afinal, qual o sentido de perguntar pra moça o que ela sentiu quando os moços a espancaram? Fazer ela chorar na frente das câmeras? Escancarar a impotência da moça e por tabela a impotência de todos nós que ficamos sabendo dessa barbaridade e não pudemos fazer nada? É isso? O propósito dessa montagem toda é gerar revolta no espectador, isto é, na gente?

A matéria ficou mostrando a moça chorar, lamentar pelos seus agressores mas exigir que a lei fosse cumprida. Mostrou a casa humilde dela, mostrou o pai dela, pedreiro, trabalhando. Ele estava pintando uma sala num apartamento. Fico pensando como essa cena foi gravada. Chegaram com ele e falaram "Seu Renato, finja que está trabalhando pra gente construir uma imagem de cidadão exemplar e trabalhador honesto e humilde, pra aumentar a empatia do espectador". Como se isso fosse necessário. Uma moça é atacada por cinco filhos da puta e você precisa de recursos narrativos baratos pra incitar ainda mais a indignação de quem ouve essa barbaridade.

O pior dessa matéria, o que me deixou mais chocado, foi que ela não concluiu aquilo que começou. Mostrou a vida da moça, mostrou o choro dela e procurou fazer ela chorar ainda mais com perguntas especfícas, mostrou a indignação da população. Através de uma edição cuidadosa, relembraram os casos anteriores, como o do índio Gaudino.

Gaudino foi morto no dia 20 de abril de 1997, queimado vivo por cinco (repare, eles andam em cinco) estudantes de "boa família". Eles encontraram o índio dormindo em um ponto de ônibus, pensaram que ele era um mendigo e atearam fogo nele por brincadeira. Convém notar que os estudantes que espancaram a empregada doméstica pensaram que ela era uma prostituta. Daí se conclui que na cabeça dessas pessoas não há problema em espancar e queimar mendigos e prostitutas. Afinal, mendigo e puta num é gente, né?

A reportagem do Fantástico reconstituiu todos esses eventos, utilizando uma montagem que exibia declarações de pessoas indignadas, emocionadas e, acima de tudo, impotentes. Porque o que essa reportagem celebrou realmente foi a impotência. Perto de sua conclusão, a reportagem mostrou que os cinco sociopatas que queimaram o índio estão por aí, de boa. Mas a matéria não foi atrás desses cinco, a matéria não foi verificar quais são as implicações legais e o que pode ser feito para mudar possíveis falhas. Os conceitos de responsabilidade e punição foram esquecidos completamente. O que a matéria fez foi entrevistar uns psicólogos e educadores sobre qual o papel dos pais nisso. Você acredita? Uma matéria que virou "dicas de comportamento pra sociedade classe média alta". Virou coisinha de revista Veja. Virou "oh, como educar nossos filhos?". MEEEEU DEUUUUUUUUSSSS!!!!!

O que eu vi foi uma reportagem com intuito de despertar "muita emoção", uma reportagem com cara de novela vagabunda, que só tem a função de despertar indignação e confirmar a impotência de todos nós. É assim que funciona essa droga de sistema. Não se fala em RESPONSABILIDADE, não se fala NO QUE VAI SER FEITO A ESSE RESPEITO, fala-se apenas em "como você se sente?" e "oh, como educar nossos filhos?" Uma matéria que não faria a menor diferença se tivesse ou não ido pro ar. Uma exploração desavergonhada da dor da menina pros desgraçados que assistem esse programa. E uma afirmação que, enquanto cidadãos, temos o direito de nos indignar diante de espancamentos, queima de indígenas e corrupção, mas efetivamente falando NADA vai mudar.

E depois de tudo isso, entrou uma matéria sobre a eleição do "Cachorro mais feio do mundo". Ele está ali embaixo na foto. Não, peraí, deixa eu te explicar, eles falaram da moça espancada, fizeram toda uma montagem pra indignar qualquer um, colocaram musiquinha triste de fundo, não foram atrás de esclarecer se vai ou não haver punição e quando a matéria conclui, eles aparecem sorrindo, andando naquele cenário kitsch-high-tech-do-caralho e dizendo: "agora vamos ver o cão mais feio do mundo"!
Você está entendo o que eu estou dizendo????




Há uma razão para a maioria dos suicídios acontecerem no domingo de noite.

E os óculos do Bial são de uma sofisticação tenebrosa, ridícula e de gosto duvidoso.
É. São a cara dele.


(Não, não estou acostumado a assistir o Fantástico. Eu sei que é "o show da vida", uma "revista" semanal com objetivo de ser mais espetáculo do que jornalismo, mas ainda assim... ainda assim... pôxa!)

Nenhum comentário: