quarta-feira, julho 11, 2007

Ratatoullie!!!


O homem planeja e Deus ri.

Mas às vezes acontecem surpresas tão bacanas! Cara, esse é o maior barato da vida.

Marcamos pra ir ao cinema, chegamos em cima da hora na bilheteria e descobrimos que, excepcionalmente, naquele dia o filme não seria exibido.

Ei! E agora? A moça tinha pressa, um milhão de coisas pra fazer, a escapadinha pra ir ao cinema comigo foi cheia de culpas e tal. E agora? Sem pensar muito, que outro filme tá passando? Ratatoullie, desenho animado da Pixar. A seção começou faz dez minutos. Vamos? Vamos. Sem pensar muito.

Na boa, eu não estava esperando nada. Sem expectativa nenhuma. Puxa, era o desenho de um ratinho que queria ser cozinheiro. Que você espera de algo assim? Mas tinha dois nomes de peso por trás desse ratinho. Pixar e Brad Bird. A Pixar tem uma qualidade de animação que é notória. Na pior das hipóteses, você vai assistir a um desbunde de recursos técnicos e visuais simplesmente alucinante. E Brad Bird tem no currículo Os Incríveis e O Gigante de Ferro, duas animações que chamam a atenção não só pela estética mas também pelos personagens e roteiro cheio de nuances e referências culturais deliciosas.

O Gigante de Ferro não foi uma animação bem-sucedida comercialmente, mas chama a atenção pela sensibilidade e originalidade com que é contada a amizade entre o garoto e o robozão alienígena. O mais bacana são as referências aos filmes de ficção dos anos 50 e à paranóia da guerra fria, que dão o tom dessa pequena obra-prima.

Os Incríveis brincam com os super-heróis, os filmes família, os clássicos de agente secreto, com a atmosfera pop dos anos 60. Se você olhar bem, vai ver muito de James Bond e até um pouco de Beleza Americana na receita de Os Incríveis.

Certo, mas com tudo isso, eu ainda pensava: “pôxa, é só um rato que quer ser cozinheiro. Que dá pra fazer com isso?”

E o filho da mãe do Bird me mostrou...

Ratatoullie é o tipo de desenho animado que acho que pode agradar muito mais os adultos do que a criançada. Claro, férias de julho, a sessão em que fomos estava lotada e a gurizada se divertia muito com as piadinhas e aventuras do ratinho Remy. Mas entre as correrias e peripécias, Bird falava de outra coisa.

Remy, o rato, era dotado de um olfato prodigioso e um requinte único na degustação dos alimentos. Ele escolhe muito bem o que come e os seus colegas ratos o acham um fresco por isso. Em determinado ponto ele oferece um pedaço de queijo ao seu irmão...

“NÃO!!! Não engula desse jeito! Saboreie! Mantenha o alimento na boca, feche os olhos, sinta o gosto! Isso... agora experimente esse... Que tal? Agora imagine esses dois juntos. Imagine as possibilidades de combinar cada sabor do mundo... Imagine as delícias que ainda podemos criar...”

Remy acaba indo parar no restaurante do seu ídolo, o grande cozinheiro Auguste Gusteau, que tinha sido arrasado pela crítica do jornalista Anton Ego. O filme segue muito do padrão da narrativa de animação, mas podemos ver claramente que há algo mais ali. Por exemplo, o beijo entre do par romântico é feito com uma empolgação e uma sensualidade que eu ainda não tinha visto nos desenhos família. Os dois trocam um amasso gostoso e passam isso para o espectador perfeitamente. E os personagens surpreendem. O sombrio e cruel Ego é uma caricatura bacana dos críticos e faz um monólogo extraordinário ao final do filme, que muda toda a perspectiva que tínhamos do personagem.

Mais do que as aventuras e piadas, o que me fascinou foi a procura de Remy por sua própria identidade através de sua paixão pela culinária. O filme me lembrou muito o delicioso A Festa de Babette. Para Remy e Ego, não se trata de apenas juntar tudo na panela e cozinhar. Preparar um bom prato vira uma metáfora maravilhosa da criação artística. Não das conceituações acadêmicas e das discussões complexas sobre a arte contemporânea, mas o sabor real da expressão espontânea, da busca pela própria linguagem, que é uma das maiores aventuras que um ser humano pode vivenciar.

Puxa, era o desenho de um ratinho que queria ser cozinheiro. Que você espera de algo assim? Bom, parafraseando uma das falas do filme, não é tudo que se faz que se pode chamar de arte, mas as pequenas obras-primas podem sair de qualquer lugar. O verdadeiro artista pode sair de qualquer lugar.

E assim Ratatoullie me surpreendeu, uma daquelas surpresas maravilhosas que te deixam sorrindo e pensando muito tempo depois de voltar à luz do dia. Vou assistir de novo ainda essa semana, porque perdi o começo do filme. E o lugar do dvd já está reservado na minha prateleira, ao lado do Gigante de Ferro e dos Incríveis.

Brad Bird rules!


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