sexta-feira, julho 13, 2007

Vastas Desilusões & Casamentos Imperfeitos

Antes de mais nada, o casamento é um erro. Ou não. Tem gente que parece feliz. Mas o dele tinha sido um erro. Ou não? Afinal de contas, o que tinha acontecido?

O sol nascia lá do outro lado do oceano. Ele assistia sentado na pedra. Fazia um frio do cacete. Quando tinha sido a última vez que tinha visto o sol nascer na praia? 15, 20 anos atrás? Quando bebia um monte, entrava no carro com seus amigos inconseqüentes e descia pra praia. Jesus, aquilo era como brincar de roleta russa. Como ele tinha sobrevivido à adolescência?

Como ia sobreviver à vida adulta?

15, 20 anos desde aquela época e dia a dia ele via no espelho sua testa avançar ao encontro na nuca. O cabelo ia rareando e ele pensava nas árvores sem folhas daqueles filmes europeus malucos... as árvores sem folhas, como um tipo esquisito de esqueleto, como um tipo de nudez mórbida.

Ele tinha acordado no sofá umas horas atrás, a luz da tv dançando no teto escuro da sala. Eram quatro da manhã. Suas costas doíam, mas não podia se deitar na cama. A porta do quarto estava trancada. Ela estava zangada. Sem saber bem por que, de repente estava no carro descendo pra praia. Fazia muito tempo que ele não fazia algo por impulso, sem pensar. A sensação era boa. Quase como se a vida valesse a pena. Achou a praia, achou a pedra, sentou e esperou. Sentiu falta de uma garrafa, senão de cachaça, pelo menos de café quente. Frio da porra!

O que tinha dado errado? O mundo estava errado? Aos 17 anos ele teve que decidir qual seria sua profissão e optou pela mecânica que o levou para a engenharia. 17 anos! Ninguém tem cabeça pra escolher o que quer fazer da vida aos 17 anos! Ainda mais escolher com quem passar a vida.

E daí ele conheceu a moça. Na verdade, conheceu várias, mas ela era especial. Como assim especial? Sei lá, o cheiro, o sorriso, a voz e tal. Uma paixão maravilhosa que durou anos. Um fascínio que foi se apagando, apagando, apagando... Ele nem se deu conta. No começo ele achava a “personalidade forte” dela mais um encanto, uma força que a fazia diferente das demais. Hoje a “personalidade forte” ganhou definições mais precisas com adjetivos como “cruel”, “tirana”, “mesquinha”, “insensível”, “egoísta”, “irascível”...

E o cheiro? Ele não sente mais aquele cheiro maravilhoso, aquele calorzinho que ela tinha. Simplesmente sumiu. Antes dormiam abraçadinhos, o seio dela em sua mão e hoje... hoje ela tranca a porta do quarto porque ele esqueceu de por o lixo pra fora!

Ah, ele tinha uma amante. Era mais um passatempo: uma transadinha aqui e ali. Tinha a brincadeira de dissimular os encontros, um joguinho de esconde-esconde bem sapeca. Isso que dava toda a graça, porque a trepada em si era bem burocrática. Era mais um alívio de tensão, tipo bater punheta usando uma mulher como acessório. Ainda assim, por um tempo ele se sentiu culpado. Até que um dia, uns meses atrás, numa espiada “sem querer” no celular da querida esposa, descobriu que ela possivelmente também tinha alguém pra brincar. Sentiu um monte de coisas que não sabia definir, mas ficou quieto. Assim como, provavelmente, ela também tinha ficado quieta. E deixa passar.

Deixa passar.

O que era isso de amor afinal? Com certeza, não era o perfume de sonho que desaparecia com os anos. Era esse sacrifício, essa imolação em vida? Por quê? Ele a conhecia bem e não conseguia entender por que ela não o largava. Por que ela não dava o primeiro passo? Ela sempre tinha feito isso. Como ele poderia tomar a iniciativa? Por que ela não o largava?

As nuvens são violeta, cor-de-rosa, rubi, a noite se apaga em luz, o sol joga um milhão de moedas de ouro nas ondas, como naquelas descrições dos livros de fantasia que ele lia antes. Quando era uma criança, o mundo era uma maravilha... Oras, o mundo é uma maravilha! Olhe pra tudo isso diante de você! O que você fez da sua vida, malandro? O que você está fazendo?

Há mais de 10 anos vai para a mesma empresa, senta na mesma sala e repete as mesmas ações, confere os mesmos dados. Um emprego seguro e um bom salário, pra pagar a escola dos filhos. No fim, as crianças são a parte que realmente vale a pena. Um guri de nove e uma meninha de seis anos que é simplesmente adorável. Eles fazem tudo valer a pena. Eles têm a chance que o pai deles não tem mais. De fazer as coisas direito. Seja lá o que isso signifique. Eles são a esperança de algo melhor. A presença de algo melhor.

Mas eles crescem. Eles mudam. No fim todas as crianças desaparecem. Talvez esse seja o problema. Todos nós mudamos. Começar uma nova vida ia significar o quê? Chegar em casa agora e conversar com ela e dizer que acabou. Acertar todos os detalhes, a visita das crianças, a pensão e tal. Por que não? Se sua digníssima esposa decidisse pelo divórcio, ela provavelmente já o teria feito. Se ele propor, ela provavelmente vai deixar as coisas bem difíceis. Mas ainda assim, depois da separação o que fazer? Começar de novo o quê? Ir pra onde?

Deixa passar.

Deixa a vida passar.



(O título é uma brincadeira, talvez infeliz, com o Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos do Rubem Fonseca. Livro bacana, mas nada a ver com o que foi escrito aqui...)

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