domingo, agosto 19, 2007

Amor maldito, amor pisado, amor cuspido, amor escarrado, amor underground...

Hellblazer n º 143, arte de Marcelo Frusin


Escrever sobre quadrinhos me parece escrever sobre música. Às vezes sento pra pesquisar, pra escrever sobre a galera da Zap Comix e é inevitável ter a sensação de que estou diante de algo tão relevante para a cultura Pop quanto os Rolling Stones ou Janis Joplin. Na verdade, as coisas são bem mais próximas do que parecem. O maldito Crumb, o cabeça por trás da Zap Comix, foi chegado da Janis e chegou a fazer uns desenhos pro disco dela, o Cheap Thrills (que na verdade é um disco da Big Brother & The Holding Company, enfim...)

Ah, espere, estou sendo confuso. Você está chegando agora. Talvez você conheça a Janis Joplin, mas se você for uma pessoa normal, provavelmente não conhece a Zap Comix. Pra encurtar, ela foi uma revista alternativa produzida por uma série de artistas pirados em 1968. Robert Crumb estava na liderança desse grupo. Para saber mais sobre Crumb, procure nas locadoras o filme Anti-Herói Americano (American Splendor) que é um filme que fala sobre Harvey Pekar, mas o Crumb aparece e, enfim, acho que você vai gostar. De qualquer forma, o filme não fala sobre a Zap Comix, mas você pode encontrar em qualquer livraria a coletânea bacana feita pela Conrad Editora. Não precisa comprar, só chegue e dê uma olhada. Talvez você não goste, mas dá pra ter uma idéia do que os caras faziam na época.

Era o que se chamava Contracultura. Vamos foder com o Sistema! Paz e amor, bicho! Paz com você, amor com sua irmã... A Contracultura, os hippies, as drogas, a música... A maravilhosa e inebriante música, nosso grito de guerra, nosso mantra da libertação, a música! Janis, Hendrix, Jagger, Lennon e cia! E nos quadrinhos teve esses carinhas da Zap Comix, que atacaram de frente toda uma estrutura castrante e repressora que existia sobre os gibis. Mas eles não faziam isso pelos gibis, faziam pra atacar o Sistema. Fazia parte da luta contra o Sistema você escapar do esquema comercial. Você não podia ser vendido, não podia ser comercializado senão você faria parte do Sistema. Então esses loucos imprimiam seus trabalhos em gráficas pequenas e vendiam diretamente aos consumidores, geralmente hippies e outros loucos da época.

O trabalho dessa galera chegou ao Brasil a partir da década de 1970, em revistas como a Grilo e O Bicho e começou a influenciar as idéias de uma geração de desenhistas que ia tomar as bancas na década de 80 com Chiclete com Banana, Piratas do Tietê, Circo, Geraldão e Níquel Náusea, só pra citar alguns. Estou falando de Angeli, Laerte, Glauco, Luis Gê e uma galera de gente boa que produziu uns quadrinhos que davam voz às tribos das cidades que emergiam depois de anos de ditadura. Todo um clima, toda uma sensação que se mostrava em traços agressivos, caricatos, disformes, engraçados, pegajosos. Era época de Rê Bordosa, Bob Cuspe, Piratas do Tietê. Daí veio uma crise econômica violenta e o pessoal parou com as revistas e foi procurar abrigo nos jornais, aliás a Folha de São Paulo.

E é como a música, como a loucura dos anos 60, do movimento punk, toda essa energia pulsando num desenho grosseiro, na piada com a tragédia que parece permear nossas vidas e nós insistimos em não ver. (Ou simplesmente não conseguimos ver. Complexo demais pra entender, pungente demais pra ignorar). Não se pode vencer o sistema, e a Zap Comix está hoje completamente assimilada e à venda na Fnac. Não se pode pensar em amor livre, não se pode pensar em verdadeiramente usufruir todos os prazeres da vida, porque estamos imersos numa sociedade de consumo e consumir é nosso prazer, nosso sentido e nosso referencial de sucesso. O cartão Visa é o nosso limite. O amor é uma piada estranha, uma brincadeira que a gente pode comprar pela internet ou no barzinho hoje à noite, uma coisa descartável e vazia que insistem em vender em embalagem de luxo. E no fim todas as estradas nos levam para os caminhos do amor: o amor-próprio, o amor a nossa vida, o amor a nosso trabalho.

O trabalho enobrece o homem.

O trabalho define o homem.

O trabalho consome o homem.

Dos desenhos pegajosos de Angeli caímos nos traços lindos e maravilhosos dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá. Moças bonitas, rapazes bacanas, histórias poéticas e mágicas sobre o amor e fadas, sobre viagens para Londres e namoros em barzinhos, e lá estão os dois na lista dos 100 Top mais promissores da Entertainment Weekly. Eles são os Loucos Underground e o Underground hoje é um lugar cool pra se estar, todas as meninas são lindas e o seu maior problema é se a menina vai ou não entrar na sua.

O Underground.

Você pode dormir na rua e procurar comida no lixo, mas se você sabe que tem um lugar pra onde voltar, você nunca vai entender o Underground. E, acredite em mim, moça bonita de banho tomado, você NÃO quer entender o Underground. O Underground é uma canoa furada, uma rota suicida e não temos tempo pra casamento na igreja e trocar fraldas no lindo bebê. O Underground, o Verdadeiro Underground tem que fracassar pra ser bem sucedido.

Não se trata de escolha, não se trata de ideologia, não se trata de loucura.

Underground é apenas uma questão de que lado da cerca você nasceu.



Rê Bordosa, arte de Angeli. Década de 1980.


Mesa Para Dois. De Fábio Moon e Gabriel Bá. Primeira década do novo milênio.

Um comentário:

Liber disse...

Meu nome é Liber