quinta-feira, agosto 23, 2007

The Authority

Os personagens de HQ existem apenas para viver intensamente”.

A frase é de Pierre Fresnault-Deruelle, um pesquisador francês que escreveu muitas coisas interessantes sobre as histórias em quadrinhos e teorias da representação e semiótica. Esses europeus parecem levar os quadrinhos muito a sério...


Estréia do Super-Homem em 1938 por Jerry Siegel e Joe Schuster


Quando a gente fala de histórias em quadrinhos, é legal pensar também o lance de indústria cultural. A indústria cultural produz bens de consumo relacionados ao entretenimento, caracterizados pela produção em série e distribuição em grande escala. Por exemplo: as novelas da TV, os romances do Dan Brown, a música do Franz Ferdinand, os filmes da Meg Ryan... e as histórias em quadrinhos. Todos esses exemplos são produtos culturais. Não se trata aqui de discutir estética ou se qualquer um dos exemplos citados é “bom” ou não. Nada a ver com a qualidade dos produtos.

Produtos culturais são criados dentro de uma série de parâmetros com objetivo de preencher as expectativas do espectador e conquistar sua preferência. A principal função de um produto cultural é criar algo que as pessoas queiram possuir e despertar nelas a disposição de pagar por isso.

Há quem diga que eles também promovem a alienação e a manipulação de opinião. Serviriam pra manter os espectadores narcotizados e incapazes de formular uma opinião crítica a respeito da sua realidade. Também incutiriam valores que ajudariam no controle comportamental das pessoas, como o respeito as leis, o valor da família e os desejos de consumo.

Na década de 1930, os super-heróis surgiram nas histórias em quadrinhos. Era uma época de incertezas e medos. Os EUA se recuperavam da Grande Depressão Econômica de 1929, que tinha levado muita gente à falência da noite para o dia. Na Europa, o nazismo e o fascismo ganhavam forças. Faltava dinheiro, emprego. Dias sombrios.

Os super-heróis foram uma criação completamente original das histórias em quadrinhos. Eles misturavam elementos fantásticos de diversas procedências de um modo totalmente original. O Super-Homem, por exemplo, o primeiro e maior dos super-heróis, tinha algo como os poderes divinos dos deuses antigos, a integridade dos santos e a roupa dos ousados artistas de circo. Ele salvava pessoas, resolvia injustiças, prendia os criminosos.

Talvez o super-herói tivesse sido uma tentativa de total fuga da realidade ou de tentar criar uma nova realidade mais empolgante, maravilhosa. Talvez mais justa. Mas a questão de justiça está diretamente ligada à questão de cultura. E cultura não é só uma “manifestação artística”... também é um código de conduta de uma sociedade. O Super-Homem salvava as pessoas e prendia os criminosos, mas ele jamais tentou entender ou resolver os “reais” problemas do mundo. Nunca tentou entender o que levava uma à criminalidade e, em suas histórias, a pobreza não parecia existir. Na verdade, com todas as suas habilidades extraordinárias, o Super-Homem dedicava-se a manter o mundo do jeito que era: ordinário. Sem grandes mudanças. O importante era manter a lei, a ordem e o status quo.

Assim, nas HQs do Super-Homem da década de 1940, o leitor escapava para um fantástico mundo paralelo, feito de cidades imaginárias, como Metrópolis e Gotham City. Um mundo mais simples, sem grotescas desigualdades, sem injustiças, sem ambigüidades. Era muito fácil saber o que era certo ou errado. Além de escapar para esse mundo, o leitor também aprendia a respeitar a lei, a obedecer as autoridades, a ser um “bom moço”.

Esse era o mundo dos super-heróis em 1940.

No começo da década de 90 os quadrinhos de super-heróis iam muito bem, obrigado. Mas, a idéia era que, sendo os quadrinhos um produto, não interessava quem os fazia. Isto é, as pessoas continuariam comprando o gibi do Batman, porque era o Batman e não interessava quem o escrevia ou desenhava. Acontece que os fãs sabiam reconhecer o estilo de desenho de seus artistas favoritos e existiam, por incrível que pareça, pessoas que compravam uma revista mais por causa dos desenhos do que pelo personagem (sim, eu confesso, sou um desses loucos). Assim, um grupo de desenhistas extremamente popular na época decidiu abandonar as grandes editoras e montar uma editora própria: a Image Comics.

A Image Comics fez história.

Porque aprendemos que não é só com desenho que se faz uma história em quadrinhos.

Jim Lee, Todd McFarlane, Rob Liefeld entre outros desenhistas montaram a sua editora e começaram a fazer seus gibis, que eram basicamente um decalque de tudo que já existia no mercado. Em maio de 1992, McFarlane criou Spawn que basicamente era um cruzamento de Batman, Motoqueiro Fantasma, Doutor Estranho e Venom. Acompanhei as primeiras edições. Na minha opinião, era o caso típico de quem tinha um personagem e não tinha história pra contar. Uma seqüência de desenhos em uma história que não contava nada. Ruim. Muito ruim.


Spawn. That's was the 90's, folks... Arte de Todd McFarlane

Virou fórmula na editora criar personagens com nomes que misturavam duas palavras em inglês. Witchblade, Deathblow, Youngblood, Shadowhawk. Parecia haver a busca desesperada de criar algum personagem símbolo, algo que pudesse marcar o mercado. De toda essa cria, o mais próximo de ícone comercial foi o próprio Spawn. Virou filme e desenho animado. Foi o único título com publicação ininterrupta desde aquela época e hoje dizem que as histórias são boas e tem até uma tese de mestrado sobre ele.

Mas na maioria das vezes, os títulos apareciam e sumiam. Havia uma confusão generalizada, uma ausência de proposta ou conceito que desse substância às histórias e conseguisse captar o interesse do leitor mês a mês.

Foram “criadas” muitas super-equipes. Os X-Men, título de muito sucesso na época, foi clonado de todas as maneiras possíveis e virou até fórmula para montar super-equipes. Devem ter 7 elementos, na seguinte composição: um cara grandalhão que é o forçudo do time, o líder bom moço, o cara das lâminas, a gostosa boa de briga, a gostosa ingênua e super-poderosa, a gostosa fria e com poderes misteriosos e o marginal peludo bom de briga pra quem todas as meninas querem dar. Ocasionalmente, há um mentor da equipe, um tipo de professor ou chefe que fica nos bastidores organizando tudo. Assim foram criados WildC.A.T.s, Cyberforce e Stormwatch. Tudo muito bonito e sem proposta nenhuma. Eram o supra-sumo do produto cultural completamente vazio de significado.

Acontece que além de desenhistas, histórias em quadrinhos também são feitas por escritores. Então, quando ninguém estava olhando, sabe lá Deus por quê, gente do calibre de Alan Moore foi pra Image e começou a trabalhar com as tralhas. Moore literalmente conseguiu tirar leite de pedra. De repente, além de ver, dava pra ler um gibi da Image. A partir daí começaram uma série de pequenas mudanças e lançamentos e hoje em dia, por incrível que pareça, há quadrinhos que a Image lança que não tem nada a ver com super-heróis e são inacreditavelmente bons, como o álbum Put the book back on the shelf, uma coletânea maravilhosa de diversos artistas criando histórias curtas em cima das músicas da banda Belle & Sebastian.

Mas os super-heróis são difíceis de morrer (ou de matar) e continuavam as inúmeras tentativas. Do meio dessa bagunça toda, às vezes aparecia algo realmente bom.

Como The Authority.

The Authority. Da esquera para direita: Apollo, Rapina, Doutor, Jenny Quantum (no colo)
e Maquinista, Jenny Sparks, Jack Hawksmoor e Meia-Noite. Arte de Brian Hitch.


Uma super-equipe. Sete elementos. Mas com algumas coisinhas diferentes...

As 12 primeiras histórias do Authority foram feitas por Warren Ellis (texto) e Brian Hitch (arte). The Authority é o refugo, as sobras de uma série chamada Stormwatch. Basicamente, há uma moça, fumante inveterada, mau-humorada e personalidade fortíssima, de quase 100 anos de idade, chamada Jenny Sparks. Após o fim da Stormwatch (que é absolutamente irrelevante para o entendimento da história), Jenny decide recrutar a sua própria equipe de super-heróis. Mas Jenny é uma maluca anarquista. Fuma, bebe, fala palavrões e tem uma série de idéias subversivas. The Authority não vai apenas combater supervilões e também não será uma equipe convencional. Apesar dos elementos básicos estarem lá, Warren Ellis subverte maravilhosamente o conceito de super-herói.

Pra começar, o exagero. Tudo em The Authority é monumental. No primeiro número da revista, Moscou é destruída por um exército de clones super-poderosos. Os desenhos de Hitch são fabulosos e vemos pessoas serem queimadas, destroçadas, arrasadas junto com a cidade. Milhares e milhares de mortos. A seqüência é impactante. Segue-se um exagero visual de combates, destruições em escala colossal. A partir daí, sempre há alguma cidade sendo violentamente atacada, com centenas de milhares de vítimas fatais.

A própria base do Authority é uma nave gigantesca de 70 quilômetros de extensão que vaga num espaço interdimensional, que pode estar em contato com qualquer ponto do planeta terra. (E que, segundo Grant Morrison, parece um focinho de cachorro). Isso já confere à equipe a aura de deuses, vivendo num castelo além do horizonte humano, oniscientes e prestes a intervir em qualquer lugar a qualquer hora.

As primeiras histórias são sobre o combate contra terroristas tecnológicos, inimigos interdimensionais, invasores cósmicos. Tudo super-exagerado, tudo super-intenso, super-violento, super-alucinante.

Toda essa linguagem gráfica do exagero fez a série se destacar, mas não foi apenas isso.

Ao contrário do Super-Homem dos anos 40, Jenny Sparks decide que é da sua responsabilidade não só proteger o planeta Terra dos inimigos da humanidade, como também proteger a humanidade de si mesma. O que Sparks quer é tornar o mundo um lugar melhor e está disposta a fazer o que for preciso pra isso. Aqui começou o elemento que realmente iria distinguir Authority dos demais heróis de HQ.

Nesse momento Mark Millar (texto) e Frank Quitely (arte) assumem o gibi. The Authority invade um país dominado pela guerra civil e derruba o governo. Abriga refugiados em sua nave. Começa a atacar indústrias que poluem o meio ambiente. Seus membros aparecem em programas de televisão dizendo que pretendem “tornar o mundo um lugar melhor”. O bacana é que Millar começa a usar nomes de países, governadores e empresas reais na história. Ele começa a usar a ficção alucinada da revista para mostrar seus pontos de vista usando representações de pessoas e entidades reais.

Na época que Authority começa a ser publicada (1998), ela era produzida pelo estúdio WildStorm, que tinha sido uma dissidência da Image e que agora trabalhava para a DC Comics (a editora do Batman e do Super-Homem). Essa iniciativa de usar nomes de entidades reais nas histórias chapadas do Authority rendeu uma série de atos de censura por parte da DC Comics e mais tarde iria culminar em seu cancelamento.

Assim, onde antes se lia “Jacarta” como o nome do país que a equipe estava atacando, a editora DC escreveu “Em algum lugar do continente asiático”. Era a tentativa de manter um mundo fora do nosso, sem contatos com os problemas da nossa realidade.

Mas o espírito anárquico de Authority (ou de Millar e Ellis) ia além. Antes os super-heróis eram símbolos dos mais altos valores morais, da perspectiva conservadora norte-americana. Em Authority há um desacato constante a essa perspectiva. Para começar há o relacionamento homossexual assumido entre Apollo e Meia-Noite. O mais engraçado nisso é que os dois personagens são uma referência direta à Batman e Super-Homem (pro Meia-Noite passar por Batman só faltam os “chifrinhos”). Um dos mais poderosos membros da equipe, o Doutor, é um mago capaz de transformar qualquer coisa em qualquer coisa, detentor da sabedoria de milhares de gerações de outros magos. E também é um hippie viciado que vive fumando maconha ou viajando com heroína. A Maquinista é uma cientista que aprimorou seu corpo de maneira extraordinária, usando nanotecnologia. Ela é super-poderosa e super-promíscua, transando com qualquer um ou qualquer uma da equipe (exceto Apollo e Meia-Noite, que formam um casal fiel).

O bacana ainda é que o tempo todo a postura do grupo de intervir em todos os assuntos é questionada. “Como vocês esperam não se tornar tão repressivos e cruéis quanto os governos que ajudam a derrubar?” perguntam os repórteres e a equipe responde evasivamente. Em outro momento, o presidente (na época) Bill Clinton aparece em uma das histórias alertando a equipe: “Tomem cuidado com suas ações” e recebe como resposta “E o senhor tome cuidado com as suas, senhor presidente”. Os autores mostram que as intenções destes personagens truculentos e moralmente ambíguos realmente são boas, mas por trás disso tudo há um questionamento ético. E você, se tivesse o poder de mudar o mundo, mudaria? O poder dá esse direito a quem o possui, seja uma pessoa ou uma nação?

Desenhos sensacionais, ideologia anárquica, subversão de um gênero “infantil”, total ambigüidade moral, Authority conquistou fãs e muitas críticas. O que poderia ter sido uma das obras em quadrinhos mais originais e instigantes dos últimos anos acabou sofrendo com o próprio sistema que lhe deu origem: a tal indústria cultural. A censura da DC e do grupo a que pertencia, a AOL / Time-Warner, simplesmente não podia permitir certas idéias que poderiam ofender outras instituições ou países. Isso já levantava uma séria dificuldade para a série exercer todo o seu potencial.

Além disso, havia a questão da continuidade. Uma série como Authority teria que ter um fim, o modo como as idéias se desenrolavam iriam cobrar por parte do autor um desfecho, uma conclusão. Dentro do Universo de Authority, pelo que a própria equipe se propunha a fazer só haviam duas possibilidades: ou ela teria sucesso e mudaria o Mundo para melhor ou pior, ou fracassaria.

O que aconteceu foi o 11 de setembro de 2001. O Atentado Terrorista às Torres Gêmeas. A Queda do World Trade Center.

Quando isso aconteceu, uma comoção geral tomou conta dos EUA. De repente, estavam todos estarrecidos. De repente, filmes como Independence Day já não pareciam legais com toda a sua espetacular destruição em massa.

O 11 de Setembro se tornou uma ótima desculpa para censurar qualquer idéia que questionasse as autoridades e a política norte-americana da época.

Não que os chefes precisassem de desculpas para simplesmente demitir o escritor e desenhista e colocar ali uma equipe mais submissa, mas o 11 de Setembro dava uma certa legitimidade pública para essa ação. “Vamos mandar esses caras embora porque eles são muito violentos e estamos cansados de violência. Em respeito à memória das vítimas...”

Curiosamente, Authority tinha começado um arco de histórias, que viria a ser seu arco-final, em janeiro de 2001, muito antes do tal 11 de Setembro. Em janeiro foi publicada a primeira parte de “Bravo Mundo Novo”, com texto de Millar e desenhos de Frank Quitely. Na história o Authority ameaça interferir nas decisões do G7 (o grupo dos países mais ricos do mundo) caso elas prejudiquem as outras nações do mundo. Essa é a gota d’água que leva as multinacionais e nações ricas a projetar um super-assassino que é enviado para acabar com a equipe. E consegue. Capturados e subjugados, os Authority são substituídos por uma nova equipe de super-seres, uma espécie de paródia do grupo original e totalmente obediente àqueles que “realmente mandam no mundo”. Então, essa história foi publicada na revista The Authority nº22 em janeiro de 2001 e tinha no final o famoso “continua no próximo número”.

The Authority nº23 chegou às bancas em agosto de 2001. E trazia a primeira parte de “Transferência de Poder”. Millar e Quitely não estavam mais na revista. Havia um novo escritor e um novo desenhista que escreveram uma seqüência de quatro histórias com o “novo” Authority. Eram histórias de humor, uma espécie de sátira a tudo que tinha sido feito na revista até ali... o engraçado era a sensação de que Millar e Quitely, assim como o Authority original, haviam sido capturados e substituídos por paródias de si mesmos. Um paralelo entre ficção e realidade que eu curti bastante.

A continuação da história que Millar tinha começado só foi sair em janeiro de 2002. O desenhista Frank Quitely nunca voltou e foi substituído por Art Adams (que também é bom pra caralho). Aos trancos e barrancos a última história foi publicada. Basicamente, dentro da trama, o Authority sofreu uma série de torturas e humilhações nas mãos dos seus captores. A morte era suave demais e eles precisavam ser severamente punidos por suas ações contra a ordem no mundo.

A censura da DC Comics teve com certeza muitas razões de origens práticas. Pra começar, os vilões da história eram simplesmente os empresários mais ricos do mundo e o governo dos EUA. O presidente George W. Bush aparecia desenhado em diversos momentos da história, observando os membros do Authority sendo torturados. Isso não era bom, principalmente naqueles meses pós-11 de Setembro. Então esses painéis foram redesenhados e o presidente Bush foi substituído pelo presidente interpretado por Peter Selers no filme de Stanley Kubrik, Doctor Strangelove.

O quadrinho publicado com o presidente observando as torturas. Arte de Artur Adams.

O quadrinho original, estrelando o presidente George Bush. Arte de Artur Adams.

Além das referências ao mundo real, a DC teve problemas com as próprias torturas impostas aos personagens. A idéia de Millar era mostrar a humilhação de cada membro do grupo para enfatizar a completa e total derrota da equipe. Por exemplo, a personagem Rapina (Swift) era uma feminista, mulher de personalidade forte e independente. Ela passa por uma série de lavagens cerebrais, no estilo de 1984 de George Orwell e acaba se tornando a esposa submissa de um dos “malvados”. A seqüência que mostra a moça como empregada doméstica teve duas versões.

Na versão publicada, ela aparecia cozinhando para o marido, que apagava o charuto no bolo que ela tinha feito e dizia que não tinha mais fome. Uma lágrima de Rapina no último quadrinho denunciava que ela ainda mantinha um traço de humanidade.

A outra versão vazou na internet e seguia mais fielmente o roteiro de Millar: Rapina lavava a louça suja usando a própria língua e, numa posição que insinuava escancaradamente sexo oral, deixava seu “marido” jogar as cinzas do charuto em sua boca. Não havia nenhum traço de emoção em suas feições. Ela tinha sido completamente transformada em objeto, desumanizada.

Muito doente na minha opinião. E por isso mesmo, muito bom!



A seqüência da cozinha publicada. Arte de Arthur Adams

A seqüência da cozinha original. Arte do Adams

A seqüência do charuto publicada. Arte do Adams


A seqüência do charuto original. Arte do Adams

Dentro dessa rede de degradações impostas aos personagens, o que mais me impressionou foi a punição imposta à Maquinista. A personagem em diversos momentos da série dava voz ao maravilhamento diante das paisagens cósmicas fabulosas, diante das situações extraordinárias. “Amo tudo isso aqui”, ela dizia. Privada da nanotecnologia que lhe dava poderes, ela sofre lavagem cerebral e tem sua memória apagada. Implantam novas memórias (coisa muito comum em gibi, sabia?) e transformam a Maquinista, super-mulher da tecnologia, em uma mulher mãe de sete filhos, que trabalha por um salário mínimo num mercadinho de esquina e mora num muquifo no Brooklyn com o marido que a espanca diariamente. O que me fascina nessa situação é o terrível castigo que é jogar um super-herói na ordinária vida real.

O castigo da Maquinista... Arte de Artur Adams


E, finalmente, há uma insinuação de necrofilia. Um dos substitutos do Authority, o Coronel (um hooligan inglês) menciona a seus superiores que tinha tesão pela falecida líder do anti-grupo, Jenny Sparks. Na versão publicada, os tais superiores enviam três prostitutas, sósias de Jenny, para o Coronel se divertir. Na versão original de Millar, o corpo da própria Jenny era exumado e entregue ao Coronel. Além de desconcertante, a seqüência revela bastante sobre o caráter dos substitutos do Authority, um bando de monstros preconceituosos e pervertidos...


"A diversão do Coronel", versão publicada. Arte: Art Adams

"A diversão do Coronel", versão original (creeeeeeedo!!!) . Arte: Art Adams

Você vai ficar feliz em saber que no fim desta história toda, o grupo Authority consegue escapar de seus captores, castigar os malvados e re-assumir seu posto. Esta é a última história publicada e tenho minhas dúvidas se esse era o final apropriado.

Mais tarde o título seria relançado, mas daí já pasteurizado, com outra equipe, usando como único atrativo a ultra-violência em histórias enfadonhas. Mais do mesmo, sempre e sempre.

Isso é indústria cultural.

Por isso achei essa história tão bacana. Ao contrário das outras, ela realmente podia levar os personagens a situações extremas em todos os sentidos. Poderia matar qualquer um deles e não-haveria repercussões comerciais, uma vez que não eram personagens tradicionais. Podia brincar com a suposta inocência dos quadrinhos e usar as aventuras de um bando de loucos pra provocar os leitores a pensarem sobre o que realmente pode estar errado no nosso mundo. Mas no fim, existiam as travas. O legal da série foi ter batido nelas, foi ter provocado e feito o pessoal lá de cima mostrar que existe um padrão de comportamento a ser passado sim. Toda a subversão tem limite. Toda a liberdade de expressão tem um limite.

Mas acima de tudo, valeu a diversão das altas piras de Authority.

Sabe, acho que nunca escrevi um post tão longo. Se você leu até aqui, espero que tenha gostado.

Até a próxima.



(PS: Pensando bem, tudo isso que falei de Authority o Alan Moore já tinha feito nos anos 80 com Watchmen... possivelmente com muito mais classe e complexidade. Mas Authority vale pela porralouquice divertida...)

2 comentários:

Arkoon, Cesar disse...

Caralho!
Sem palavras você descrever muito bem todo o sentimento que Authority passa e me fez ter vontade de reler a coleção.

Uma boa semana pra vc.

Jerri Dias disse...

Bah, maravilhosa análise. Também fiz uma que parece um resumo da sua, hehe. Quanto a textos longos analisando quadrinhos... quanto mais melhor.

Abraço.

http://jerridias.blogspot.com.br/2009/08/authority-comics.html