quarta-feira, setembro 12, 2007

Cultura, cultura, cultura!

Domingo de tarde me chamaram pra ir ao teatro ver ópera. Assim, de repente!

"Vamo?"

"Vamo!"

E fui.

Mas cheguei tarde, dei com a cara na porta de vidro do Guairão. "Lotado, lotado!"
Simplesmente lotado, querida leitora! E toca meu celular, o pessoal lá dentro dizendo "Como assim lotado? Tem um monte de lugar aqui dentro! Tenta entrar! Vai que dá!"

Vai que dá!

Não deu.

Sabe, é uma droga ficar de fora. Sei lá, me senti meio mal. Sabe aquela coisa de ficar pra trás? Tipo, perdi o bonde da história ou algo assim (e se uso o termo "bonde" é porque realmente fiquei pra trás...)

Enfim, sensação melancólica, sol se põe e as sombras avançam pela praça Santos Andrade, o domingo se acaba... e... ei, o Cine Luz é logo ali! Vamos ver o que está passando, aproveitar a viagem, né? O Cine Luz, um dos últimos cinemas de rua de Curitiba... (Ah, tem o Morgenau também. Conhece o Morgenau?) Enfim, o Cine Luz... E aos domingos é um real! Um realzinho, senhores!

O filme em cartaz era BAIXIO DAS BESTAS. Opa! Curti o título. Que que é isso? Documentário? Ah, é um filme do Cláudio Assis!

O Cláudio Assis tinha feito o Amarelo Manga que é um filme pesaaaaaaado, pesadíssimo, que tem sua essência na frase do pôster: o ser humano é estômago e sexo. Na verdade, esse Claudio Assis parece não acreditar muito no ser humano, mas quem pode culpá-lo?

Entrei esperando um desses filmes brutais e viscerais, desconcertantes, que jogam o espectador num “outro Brasil” ou melhor, em uma outra perspectiva de Brasil. Ou mesmo uma outra perspectiva de humanidade. Entrei esperando isso e não fui decepcionado, senhores.

Um amontoado de casas, um amontoado de vidas em meio a plantações de cana. O tempo se arrasta, as vidas se arrastam. Cenas se sucedem na tela:

  • Um velho leva sua filha-neta para trás da igreja da cidade, altas horas da noite. Sob a luz amarelada de um poste, a menina é exposta nua, diante de sombras que são homens espreitando ao redor, se arrastando na escuridão fora do cone de luz. São caminhoneiros, bóias-frias, pessoas da região, mas ali, naquele momento, são todos sombras indistintas.
  • Em um velho e pequeno cinema abandonado, detonado, caindo aos pedaços, os chamados “agroboys” passam o dia se masturbando e bebendo, falando de sexo e sexo, esperando pela noite. No bar de beira de estrada, as putas conversam, riem e quando a noite chega, todos se encontram no puteiro, todos celebram à vida da melhor maneira que podem.

De repente, no meio do filme, é que me dei conta de todo o absurdo da situação... Não do filme em si, mas do conjunto todo.

Pra mim, todo filme apresenta sempre duas características simultâneas: é um espetáculo de entretenimento escapista e, ao mesmo tempo, é uma obra que permite reflexões sobre o mundo “real”. Nós entramos na sala escura, trancamos a nossa realidade lá fora e mergulhamos em outra. Do espaço profundo ao interior de Pernambuco. Mas as coisas são mais próximas do que parece...

E lá estávamos nós, no Cine Luz, a tribo de Curitiba assisitindo o novo filme de Cláudio Assis. A galerinha do tênis All Star e agasalho Adidas, óculos quadrado de aro grosso e penteado style. Antes da sessão começar, conversinhas paralelas sobre tal filme e tal diretor, tal barzinho novo, tal projeto de faculdade. A maioria ali, estudantes ou fotógrafos ou coisas do gênero.

E daí fiquei pensando nessa coisa engraçada: um grupo estranho reunido para assistir a uma produção feita por estranhos desconhecidos sobre estranhos que vivem teoricamente no mesmo país que nós mas que parecem mais alienígenas que o pessoal de Tatooine[1].

É muito legal esse lance de analisar obras culturais, sabe. Por exemplo, Baixio das Bestas mostra muito mais sobre a visão que Cláudio Assis tem sobre a vida daquelas pessoas do que sobre a vida daquelas pessoas em si. Não que as cenas apresentadas na tela não tenham veracidade, mas estou falando da questão de valores que o diretor sutilmente constrói ao longo do filme. E as opiniões dos que assistiram ao filme refletem as reações de sua própria formação cultural diante das cenas ali mostradas. Isso é bem divertido e pode render boas conversas de bar. Sim, acho que sou membro integrante da galerinha do tênis All Star, apesar de não usar o meu há semanas...

Outra coisa que eu acho muito interessante é essa valorização do “underground” no mundo cultural. É muito engraçado como parece que todo o movimento de questionamento que surge é assimilado e transformado numa moda, numa grife, num modo de se vestir e num conjunto de músicas. Parece que as idéias se perdem e fica só a superfície, só a roupinha e penduricalhos pra você ostentar a “sua” “identidade própria e única”. Emos, punks, grunges, hippies: umas músicas pra você baixar no e-mule, um estilo de roupa pra você usar essa semana.

Outro dia comprei aquela revista Rolling Stone, por causa de uma matéria sobre 1967. Nunca tinha comprado a revista antes e tinha curiosidade de saber qual era a dela. E tinha a gostosa da Grazi na capa também...

Uma mistura muito louca de Bizz com a Caras, com longos textos e boas idéias. Numa das sessões, Pablo Miyazawa escreve sobre um festival de filmes brasileiros em Nova York:


Os 15 longas exibidos poderiam ser informalmente divididos em duas categorias: filmes “com potencial de comercialização”, como Caixa Dois, A Grande Família, Noel: O Poeta da Vida, O Cheiro do Ralo, Polaróides Urbanas, e “obras de caráter experimental”, como Irmãos de Sangue, Baixio das Bestas e Crepúsculo dos Deuses.


O que achei engraçado é O Cheiro do Ralo estar na relação dos filmes “com potencial de comercialização”. Colocá-lo ao lado de A Grande Família me parece meio estranho. Acho O Cheiro do Ralo muito bacana, mas por baixo de todo um humor negro, ele traz um pessimismo, uma visão bem triste a respeito da vida, que me parece uma reflexão crítica do mundo que construímos para nós mesmos, totalmente embasado na comercialização de tudo (objetos, lembranças e afetos). E daí que eu vejo como o tal Sistema se apropria, incorpora, engole essas obras. Clube da Luta, um dos meus filmes mais favoritos de todos os tempos é exatamente isso: um vertiginoso apanhado de sensacionais idéias subversivas filmadas num ritmo alucinante de videoclipe, que no fim acaba virando mais um filme na prateleira. As idéias estão lá, mas quem pensa em discuti-las? Melhor ainda, quem pensa em pôr em prática alguma ação com base nessas reflexões? E as idéias viram produto pra deleite intelectual do consumidor, sem grandes conseqüências para o status quo. Engraçado isso não acha?

Hã? Ah, sim...

Depois do filme, ainda consegui me encontrar com o pessoal e beber e bater papo. Foi um domingo bem agradável.

Beijos, Taís.


[1] Em Star Wars, de George Lucas, Tatooine é o planeta lar da família de Luke Skywalker.

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