terça-feira, setembro 25, 2007

Morte

Nunca aprendi a lidar com ela.

Faz parte da minha enorme lista de inaptidões sociais. Bom, na verdade, acho que faz parte da lista de todo mundo.

Morreu o pai de um amigo meu, fui lá, abracei o cara e olhei pra ele e tive aquela vontade de dizer alguma coisa que, sei lá, fizesse a dor diminuir um pouco, fizesse ele se sentir um pouco melhor e olhei pra cara dele, os olhos de água e pensei, pensei em algo que fizesse sentido e não me veio nada, não me veio nada e daí falei, simplesmente:

"Faz parte."

Não sei da onde me veio. Simplesmente falei. Não acho que seja a melhor coisa pra se dizer nessas horas, embora de certa forma corresponda à verdade. Depois fiquei me remoendo, pensando em pedir desculpas pro cara, mas achei melhor não tocar mais no assunto. Nem sei se ele se lembra disso.

Daí essa semana aconteceu de novo. O cunhado de uma colega minha contraiu uma doença rara e quando conseguiram diagnosticar, já era tarde demais. Ele definhou em um mês. Imagina, você faz planos, tem metas e de repente, daqui a um mês, você não está mais aqui.

(Às vezes é mais rápido ainda. Quase instantâneo...)

Daí ela me contou a história, a agonia no hospital e tudo. Coisa pesada. E mais uma vez fiquei ali, diante da dor de uma pessoa, tentando achar o que dizer. Na hora de me despedir, olhei pra ela e, mais uma vez, falei sem pensar:

"Melhoras pra você".

Coisa estúpida de dizer. Como se o luto fosse uma gripe, como se a perda de uma pessoa fosse algo do que a gente pudesse se recuperar como se recupera de um resfriado. Mas o assustador é que no fim é assim mesmo. As pessoas morrem e todo mundo continua indo no Atletiba soltar foguete e xingar a torcida adversária. O mundo não para.

Em algum momento li que o tempo do modo como o consideramos hoje, linear e irrepetível, é cortesia do Cristianismo. A idéia de uma linha reta de tempo serve pra realçar a eternidade, a grandeza de Deus e a pequeneza humana. Você só tem uma chance. Antes de Cristo tinha os pagãos que viam o tempo de uma maneira cíclica. Um círculo sem fim. Primavera, verão, outono, inverno e depois tudo de novo. Você perdeu hoje, mas pode voltar amanhã. Acho uma maneira mais simpática de pensar as coisas.

Talvez seja melhor não pensar que as coisas se encerram, terminam, mas que todos fazemos parte de algo maior, um grande ciclo. Um grande carrossel e todo mundo tem direito a andar nele ou alguma outra besteira do gênero. Sei lá.

O problema não são as pessoas que vão, mas as que ficam. No fim das contas, não há muito o que dizer que soe melhor do que "Faz parte".

2 comentários:

Anônimo disse...

Bonita sua sinceridade

Melina A disse...

É verdade. Faz mesmo parte, e não há muito o que dizer. Às vezes palavras não encaixam. Um abraço e um 'conte comigo' podem ajudar, mas há coisas pelas quais as pessoas simplesmente precisam passar.. Talvez seja bom simplesmente fazer a pessoa sentir que tem apoio dos amigos, e torcer para que ela atravesse o próprio caminho da melhor maneira possível. Suponho...
Nessas coisas a gente não consegue saber realmente nunca.