sexta-feira, setembro 21, 2007

Querido diário

19/09/2007

E aí, o que vai ser, senhor escritor?

Um conselho que dei pra mim mesmo, começar a escrever a esmo, só vomitar as idéias sem nenhum senso crítico, sem nenhum superego acadêmico policiando nossas cabeças.

Já tenho um monte de palavras sobre as obras de Lourenço Mutarelli. Também já tenho um monte de culpa. No fim das anotações da Marilda, três livros que só fui descobrir ontem enquanto relia o “Dossiê Mutarelli”. Devia ter lido antes. Devia ter feito um monte de coisas. Mas pra quê? Qual exatamente o objetivo disso tudo? Pra onde estou indo? Ahá! Por isso que estou aqui sentado escrevendo. Exatamente. Escrever desse jeito, assim vomitando as palavras, teclando o pensamento, ajuda a tornar o pensamento real. O pensamento está na minha frente, no branco da tela. Pode ser alterado, modificado, aperfeiçoado, ganha substância, materialidade.

Então vamos enrolando, vamos escrevendo, vamos brincando com o acaso e a espontaneidade tentando atingir aquela tão desejada e precisa objetividade acadêmica.

Por tópicos:

- Os livros que a Marilda indicou. Só agora vi, portanto, vou procurá-los nas bibliotecas. Hoje é dia de devolver livros na biblioteca do cefetão. Vou lá e já pego outros. Fim de semana descasco eles. Por enquanto, tenho que me virar.

-Há uma série de considerações que tinha feito sobre o trabalho do Lourenço. Elas estão dispersas por aí, em anotações avulsas nas folhas impressas, no próprio texto das folhas impressas e nos dois cadernos de mil idéias que eu tenho. Começando pelo começo, tem o caso de Solidão, uma HQ que o Lourenço escreveu no começo da carreira. Ela saiu pela primeira vez no fanzine OVER-12 de março de 1988. Depois, em 1998, foi republicada na coletânea Seqüelas, publicada pela Devir. Um problema meu: falo de escrita automática, mas parei de escrever pra ir procurar a referência da data de publicação. Esse é o meu problema, fixação com datas. Nesse mundo de lembranças (e lembranças são bem traiçoeiras) e universos de ficção construídos a nanquim, a única certeza que vc tem é a droga da data de publicação. Tal coisinha foi publicada em mil novecentos e bolinha. Essa é a minha base, o meu fio-guia no labirinto. De mais, tenho que prestar atenção no que não é dito, no que não é palpável. Nos discursos, nas entrevistas, nas entrelinhas, nos entrequadrinhos. Eu estou virando o psicopata dos filmes clichês, a parede recoberta de xérox de desenhos e textos, formando o mapa de uma terra desconhecida e imaginária. Não. Não o psicopata. Eu sou o detetive. O investigador. Ou ambos. Clarice e Hannibal em um só. Animus e anima. Pare. Volte ao ponto. Solidão. Publicada duas vezes. Só que a versão da republicação é diferente. Só fui perceber por acaso. Páginas redesenhadas. E algumas com modificações sensíveis na diagramação, na composição. Mandei e-mail pro Mutarelli perguntando sobre isso, mas terei que esperar ele voltar da missão “Nova Iorque” pra obter uma resposta precisa. Ou pelo menos uma resposta quase precisa. No momento trabalho com a hipótese mais mundana e provável: os originais estavam deteriorados e o homem redesenhou as páginas pra republicação. Entretanto, qualquer que tenha sido o motivo do redesenho, a reprodução não é fiel. Há diferenças bem consideráveis entre uma e outra, principalmente na página 03. Por que há essas diferenças? O homem fez as alterações procurando melhorar o quê? O que interessa para o trabalho não é tanto as razões e o porquê das mudanças, mas o que elas significam. Seguindo uma perigosa linha estruturalista, vamos observar mais de perto essas mudanças.

Parar aqui. Chega de enrolação. De volta pro trabalho.


(Extraído do Diário de um Mestrando...)

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