segunda-feira, novembro 26, 2007

Esse lance de gostar de quem não presta

I was born to love you

With every single beat

Of my heart

I was born to take care of you

Every single day

Of my life


Ah, saudades de começo de namoro, quando a gente fica feliz por ficar feliz, quando a gente telefona e escuta aquela voz linda lá do outro lado. Quando a gente caminha nas nuvens e elas são feitas de algodão. Quando acontecem os primeiros beijos, os melhores. Faz tempo que não sinto isso.

Mas dentro dos mil tipos de amor existente, um dos que mais me fascina é o lance de gostar de quem não presta.

Quando tinha 16, 17 anos, eu era apaixonado por uma menina linda de olhinhos verdes e ela era apaixonada por um cara não tão apaixonado por ela. Com ou sem maldade, ele fez tudo e deu todas as razões do mundo pra que ela o deixasse, mas a moça continuava lá, firme, chamando-o de “meu homem” e chorando pelos cantos. Uma menina de 15 chamando um piá de 17 de “meu homem”. Parando pra pensar hoje, eu acho isso engraçado, mas na época, pra mim, foi uma merda. No fim das contas o rapaz é que acabou o namoro e ela entrou em parafuso e simplesmente sumiu. Parece que ela largou tudo e fugiu pra praia. Mais ou menos no meio de um semestre, acho que era abril ou setembro, sei lá. E nunca mais a vi.

E a adolescência acaba, mas o lance de gostar de quem não presta continua. Ataca qualquer idade, qualquer sexo. Todo mundo já embarcou nessa canoa furada. E sempre tem algum conhecido ou conhecida metida numa dessas. Abraçando com amor um grande rolo de arame farpado. Talvez seja uma necessidade de auto-flagelação, talvez seja o medo da solidão, talvez seja um profundo desamor-próprio.

Ou talvez apenas façamos aquilo que aprendemos na infância.

Eu me lembro de ser criança. A perspectiva era diferente, o mundo era maior, mais interessante, o tempo parecia passar mais devagar. Lembro dos brinquedos, da tv, de brincar nos canteiros de construção, do pôr-do-sol. Lembro das brigas de meus pais, de insultos gritados, de explosões de raiva inexplicáveis. Acho que talvez ali tenha começado essa impressão sub-reptícia que carreguei comigo tanto tempo de que a vida era algo para ser suportado, carregado, tolerado.

Bom...

E entre tudo isso também tinha gibis. Muitos gibis.




A edição número 17 da revista Super Aventuras Marvel da Editora Abril tem data de publicação de novembro de 1983. Portanto eu tinha nove anos de idade quando a li. Ainda tenho a edição original em minha coleção e a carrego no fundo da minha cabeça. Nove anos de idade e vi o Demolidor num porão escuro, enfrentando seu passado de mágoas, culpas e frustrações feito alucinações sob a forma de um demônio. Pantera Negra é deixado para morrer no deserto, amarrado a um tronco de espinhos, o calor insuportável, os animais espreitam ao redor esperando sua morte. Cerca de 12 mil anos atrás, Sonja, a guerreira ruiva de pernas maravilhosas (meu Deus, que coisa de louco!) enfrenta sozinha entre os desfiladeiros um improvável gigante de metal que procura executar sua última ordem: matá-la. Situações extremas, cheias de uma prosa exageradamente fabulosa como só um gibi pode oferecer. Que maravilha ser criança. E no meio de todos esses heróis, o monstro.

O Homem Coisa.

Escondido num laboratório secreto no meio de um pântano, pesquisando uma fórmula que pudesse transformar homens comuns em super-soldados, um cientista é atacado por espiões. Na fuga, desesperado, ele injeta a fórmula ainda não testada em si mesmo, mas algo dá errado... ele perde o controle de seu carro e mergulha nas águas escuras do pântano. “Águas que começam a reagir com a substância em seu organismo, provocando a grotesca transformação que pôs fim à sua humanidade!”

E o cientista vira um monstro do pântano, uma criatura irracional, incapaz de se comunicar, incapaz de se lembrar de que foi um dia um ser humano.

Nessa história que li, um bebê é jogado de uma ponte e, numa dessas fabulosas coincidências tão comuns nos quadrinhos, cai justamente nas mãos do monstro. Mas apesar de tudo, a criatura é do bem. E apesar de ser chamada o tempo todo de irracional pelo narrador, tem capacidade de saber onde mora um médico com quem pode deixar a criança. Mais ainda, entende o que o médico fala e percebe que a criança tinha sido jogada pra morrer. Indignado, o monstro vai atrás do autor da barbaridade.

Num casebre do meio do pântano, um casal discute. “Onde está o meu filho?” ela pergunta. O homem se defende, dizendo que levou a criança ao médico. Na cena, repare naqueles detalhes do desenho. Apesar dos estereótipos de sempre, como a menina gostosa e inocente, dá pra perceber outras coisas. A casa paupérrima, a menina que teve o filho muito jovem, o cara que usa a agressividade como principal defesa diante de um mundo sobre o qual não tem controle . Ele ameaça a mulher e apesar de não agredi-la, pela atitude dela podemos deduzir que isso talvez já tenha acontecido antes. Claro que essas coisas eu não via na época. Eu tinha nove anos. Queria mais é ver aquele safado se ferrar nas mãos do Homem Coisa.

E daí o monstrão entra em cena. O Homem Coisa tinha um dos poderes mais bacanas. Ele era feio de dar dó, assustador mesmo, e conseguia sentir as emoções das pessoas em volta. No caso, quando elas sentiam medo, o monstro se irritava. Mais ainda, o medo fazia com que o toque da criatura queimasse feito ácido. Cool!!!

Ao contrário das outras histórias do gibi, não há uma grande luta. O monstro simplesmente agarra o homem e queima o seu rosto. E daí acontece a reviravolta. A menina defende o cara. Ela o abraça e o protege da criatura. Acho que aí minha cabeça de criança deu um nó. Como ela podia? Como podia defender aquele escroto? Mas ao mesmo tempo, achei de certa forma bonito, pungente. Talvez fosse a solidariedade dela, talvez fosse a sensação de que por mais terrível que seja, qualquer ação possa ser perdoada.

Olhando hoje eu vejo um monte de coisas nessa historinha. O desespero do sujeito diante da pobreza e das crises dentro da família, a situação miserável de pessoas jovens demais e sem preparo diante das responsabilidades adultas, o afeto inocente da menina.

Jogar uma criança num rio pra ela morrer não é só coisa de gibi. Toda vez que vejo uma matéria assim no jornal eu me lembro dessa história. Toda vez que vejo uma pessoa insistir num relacionamento e defender o que parece ser indefensável eu lembro daquela menina abraçando o sujeito do rosto queimado.

Nove anos. Parando pra pensar em quantas revistas eu li como essa Super Aventuras, não é à toa que fiquei “estragado” pro resto da vida. Não que essa história tenha formado minha cabeça, mas acho que ela captou e me apresentou um pouco do que me esperava nessa vida adulta. Desse jogo complexo de relações marcadas por incoerências, incompreensões e surpreendentes atos de solidadariedade.






11 comentários:

Anônimo disse...

Este post poderia virar 2 :-)

Eu tinha 12 anos em 1983 e foi quando redescobri os quadrinhos de súper-heróis. Antes era só brincadeira de criança. Quando "entendi" as HQ de heróis caí de cabeça. Comprei tudo o que foi lançado, até eu fazer uns 17, 18 anos. Daí descurti e só lia alguns gibis. Mas foi uma fase ótima. Também fui "estragado" para o bom lado... :-)

Da minha coleção só guardei gibis como Cavaleiro das Trevas, Watchmen e outros do gênero. O resto distribuí tudo num Natal que fizemos para as crianças da Favela da Vila Pinto. Foi bem legal e me senti feliz!

Abraços,
Rodrigo Stulzer
http://stulzer.net/blog

racg68 disse...

Tem certos problemas que vejo nesta historia.
1º O Homem-coisa (HC) é a resposta da Marvel ao Monstro do Pântano da DC, este é muito superior àquele.
2º Não temos certeza que foi o mesmo cara que jogou a criança da ponte, nunca vemos o seu rosto e não existe nem sinal do carro usado no início da história na frente da choupana do casal.
3º Ainda estava presente o selo CCA (Comics Code Autority) e no final o amor da mulher, não sei como, salva o seu casamento. Na pior das hipóteses ela salvou a vida do homem, e isso é bem diferente.
4º Tudo bem o poder do HC é interessante, mas como o medo e a dor podem ser uma experiência espiritual tão forte, a ponto do personagem repensar seus atos? Atos estes que ele não sabe que desencadearam a ação do HC.
5º O gibi é da época dos infames formatinhos. Os nossos "editores" tinham o hábito de "editar" a história, suprimindo, reduzindo e ampliando quadrinhos, e facilitando a tradução. A impressão que tenho é que essa história tinha alguns quadrinhos a mais. Ao fim da página 5 o HC quebra a porta e entra na choupana; no 1º quadro da página seis eles estão dentro da choupana; e no 2º quadro da mesma página seis o HC está quebrando a parede para sair da choupana. Perdi alguma coisa?

Sabrina disse...

ei,
posso usar em um texto meu o "abraçando com amor um grande rolo de arame farpado"?

Liberland disse...

Rodrigo Stulzer, obrigado pelos comentários. A gente se topa na Itiban. Abraço!

Liberland disse...

Sabrina, obrigado e pode usar a frase sim. Mas quero ler o texto depois, hein? bjs

Liberland disse...

codinome racg68!

1) O Homem-Coisa é muito parecido com o Monstro do Pântano, mas foi publicado pela primeira vez um mês antes. Veja na Wikipedia. Não diz muito, mas é um fato.

2)Quadrinho usa e abusa da colaboração dos leitores na conclusão. O sapato do pé do sujeito que joga o bebê é o mesmo do cara da choupana. Pode conferir. E o fato de não vermos o carro do sujeito perto do casebre não quer dizer que o carro não esteja lá. Mas isso não invalida seu raciocínio, podia ser mesmo outro cara no começo da história. Vc lê como achar melhor...
3)Também é uma maneira de interpretar o final. Eu prefiro a minha, ó homem de pouca fé.
4) Honestamente, não compreendi essa colocação. Quem repensou os atos? O Monstro ou o cara da choupana?
5) Sim, a Abril editava as histórias pro formatinho. E eu também. Cortei umas seis páginas e selecionei o que me interessava pra ilustrar o post. Quanto à falta de quadrinhos que vc comentou nas páginas apresentadas... não sei se realmente estão faltando esses quadrinhos, eu teria que encontrar a história americana original. Mas, honestamente, a presença desses supostos quadrinhos ia fazer alguma diferença no seu julgamento da história? Pelo que eu te conheço, acho que não. ehhehe
Abs!

racg68 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
racg68 disse...

Respondendo às suas respostas:
Quanto ao:
1º, você tem razão. O HC veio antes do MP. Mas este teve ao seu lado escritores do cunho do Alan Moore (vou dizer uma coisa só: Watchmen!). Talvez este seja o caso de uma cópia superando o original a tal ponto do original se tornar cópia. Um fenômeno cultural que vale a pena uma reflexão mais aprofundada.
2º, a indefinição não é uma questão de estilo ou obra aberta. É uma imposição do CCA. Talvez a censura gere obras melhores? Não creio (lá vou eu denovo: Watchmen!). Este é um debate para você e o Luciano, discussão esta que não endosso.
3º,tenho pouca fé sim, meu analista não permite.
4º, nós lemos a mesma revista?
"Assim sendo o monstro dá meia volta, se afasta sem perceber que salvou algo ali... o amor de um homem e uma mulher..." (p 36, 1ª linha, 3º quadro)
"... e que alguém recebeu uma punição inesquecível... punição que fez despertar o pouco de humanidade que restava em sua alma!" (grifo meu)(pg 36, 2ª linha, 1º quadro)
Porque não gerar mais ódio? O marido/vilão não sabe que os acontecimentos eram uma punição por "seus atos"; de seu ponto de vista mais parece um ataque irracional e randômico de uma criatura monstruosa, versão esta ratificada diversas vezes pelo narrador da história.
5º, não, não fariam a menor diferença.

Liberland disse...

Querido leitor racg68...

O diálogo nuuuunca termina. Então:

1) Sim, o Monstro do Pântano é melhor editorialmente, artisticamente e criativamente do que o Homem-Coisa.

2)Eu disse "colaboração do leitor" e não "indefinição". Indefinição não é imposição do CCA. Não consta em nenhum item do código. (Hahaha). Eu acho que escrever sob censura e conseguir elaborar uma trama interessante dentro dela são méritos dessa historinha. Mas, sinceramente, o que escrevi foi sobre uma história que li quando tinha nove anos e que curti bastante. É uma boa história sim. Pode apresentar uma série de características datadas, mas é uma boa história. O Comics Code tinha como conseqüência a produção de histórias insossas. O fato do bebê ser jogado da ponte e a situação de miséria do casal são um tipo de violência não prevista. É um tipo de realidade, de brutalidade que ganha as páginas dentro das limitações que o Comics Code impunha.
(E agora pare de ser chato, seu maluco! Em nenhum momento eu disse que a censura gera obras melhores ou comparei essa historinha com Watchmen, Monstro do Pântano ou qualquer outro título "clássico"! Eu só disse que gostei dessa história quando tinha nove anos e que é uma boa história! E é mesmo! Pare de pirar!)
3) Troque de analista. Sério.
4)Não lemos a mesma revista. Vc leu o scan com a minha edição de imagens da revista original. Agora entendi o que vc quis dizer na primeira colocação. Bom, eu acho que, em uma situação extrema, tipo uma ameaça de morte iminente, as pessoas podem mudar sim. Perdoar velhas ofensas, pedir perdão e coisas assim. Eu acredito muito nisso e semana passada mesmo, durante o funeral de um amigo da família, testemunhei algumas cenas muito interessantes. Enfim, o ódio do rapaz não ia aumentar pelo ataque do monstro, porque, como vc mesmo disse, o rapaz não sabia que estava sendo punido. Eu acredito que ele realmente amava a loirinha e quis protegê-la da criatura. Lendo a história vc vê que a moça disse que o rapaz julgava a criança culpada pela crise no relacionamento. Depois o rapaz grita pra moça fugir e fica pra trás, atirando no monstro e tals... Pra mim, essa situação traumática realmente despertou "o pouco de humanidade que restava em sua alma" (adoro essa prosa afetada de gibis!). Isso me parece lógico.
5) Você está sendo muito chato. Se não gostou da história, tudo bem. Alguns de seus argumentos e críticas são extremamente válidos, outros são só birra. No fim, é só uma história em quadrinhos de um personagem de quinta categoria, mas é uma história que aborda temas que me são importantes, como falei no post. Gosto dela e acho muito boa. Trata-se de minha opinião pessoal, mas ela tem muitas qualidades reais também. Ok?

Valeu pela discussão.
(Tenho certeza de que vc não vai parar aqui. Não me decepcione... :-)
Abraço!

racg68 disse...

1 concordamos.
2 não.
3 não.
4 não.
5 sim, não.

Melina disse...

Gostei do texto todo, Libs. Gosto de ler suas idéias e do tom que você usa (além de que às vezes me dão idéias também). É legal poder ver um pouco mais do que há nas pessoas - principalmente nos amigos - e do que elas têm pra dizer e do que elas querem dizer; é algo que eu também sinto vontade de compartilhar com meus amigos, mesmo.

Foi você que escaneou os quadrinhos mesmo? Ainda tem os gibis da sua infância?
Ah, gostaria de ter lido mais coisas, ter mais referências. Quando criança, só lia os gibis da Disney mesmo, que eram os que meu pai trazia pra casa... e há tantas outras coisas interessantes!
Haha, mas conto com amigos como você e o José pra me dar essas dicas!
Abração.