domingo, novembro 04, 2007

Felicidade

Quando eu era bem pequeno vi na TV o desenho animado de O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa. O desenho era inspirado na série de livros As Crônicas de Nárnia, a mesma que virou filme não muito tempo atrás.

O que me marcou bastante nesse desenho, a cena com que eu sonho até hoje, é a entrada para o Reino de Nárnia: um guarda-roupa. As crianças entravam nele e iam passando através das roupas e de repente saíam em uma caverna, diante de um bosque coberto de neve. Visualmente era muito bonito. E acho que poético também. Eu tinha uns cinco anos quando assisti e fiquei fascinado, fiquei pensando, puxa, imagina, uma coisa tão comum e corriqueira encerrar a entrada pra um mundo mágico, para uma terra distante, tão distante e tão próxima, logo atrás daquelas roupas todas, no fundo daquele armário.

Coisa comum e corriqueira o guarda-roupa. É o que eu penso hoje, mas acho que para os meus olhos de criança da época as roupas penduradas e aquela coisa do guarda-roupa ser uma “casa dentro de uma casa” (quando você é criança, esse tipo de idéia faz bastante sentido)... bom, as portas do guarda-roupa eram a entrada para um labirinto com paredes de pano e labirintos pra mim sempre tiveram algo de mágico.

A entrada para uma outra e fantástica realidade, o fabuloso que surge do cotidiano ordinário... mágica. Essa foi a sensação que tive ao ter contato com o trabalho de Amélia Toledo.

Sexta-feira chuvosa, Dia de Los Muertos, fui com um pessoal no museu do olho. O Museu Oscar Niemeyer, aqui em Curitiba. E tinha a exposição dessa senhora. Uma das obras era chamada Caminho das Cores e era feita de uma série de telas colorias e translúcidas penduradas do teto, que formavam um labirinto. Ao passar pelas telas, não pude deixar de pensar naquele desenho antigo. Foi legal. Foi MUITO legal.

A exposição da Amélia era feita de coisas assim, mágicas e legais. No folder da exposição a gente vê uma série de crianças “brincando” com as obras. São bolas transparentes cheias de água e detergente pra você agitar e ver a espuma se formar. São “coisinhas de plástico cheias de cor” pra você apertar. Conchas, cristais, espelhos, pedras que cantam. Tudo você pega, aperta, curte.

Depois de atravessar o Caminho das Cores, topei com o Labirinto Azul. Uma série de chapas de metal sinuosas, algumas totalmente pintadas de azul, outras espelhos puros. Espelhos côncavos. Nossa, é muito estranho. Me lembrei das aulas de física do cursinho, aqueles diagramas malucos pra entender como a imagem refletida se formava no espelho côncavo. Era muito doido, porque a imagem se fazia “fora” do espelho e isso dependia de sua posição em relação ao centro de curvatura e ao foco do espelho. Na prática, dentro do Labirinto Azul, a gente entrava dentro do espelho, que nem a Alice.

Muito louco.

Mais a frente tinha uma “coisa” que o nome eu não sei. Era um grande colchão no chão, com um espelho no teto. Projetores de slide iluminavam quem se deitava com texturas e imagens de cristais. Deitado, olhando para o teto, a impressão era de que se estava flutuando no fundo do oceano ou talvez bem alto, lá no céu, junto com as galáxias muito muito distantes.

Muito louco.

Muito bom.

Engraçado como a fotografia não dá conta de mostrar tudo. A experiência, o estar lá.

Por exemplo, no museu ainda tinha outras exposições, uma do Manoel Araújo, que eu conhecia só como o autor do livro A Construção do Livro, que é simplesmente excelente. Lá fui ter contato com o Manoel como escultor, gravador e designer. E as fotos não fazem jus a seu trabalho. Olhando de frente, são relevos em madeira, “máscaras” simétricas, mas essa simetria se perde quando você olha de outros lados. Mais ou menos como o rosto humano. Isso tudo se perde na foto. Você precisa estar lá pra curtir.

“Máscaras” é como ele chama aquelas coisas enormes, com pregos, madeira, metal e cristais. Fico imaginando quem usa essas máscaras, de quem são os rostos que elas representam. Elas têm nomes de orixás, de elementos da natureza. Cosmogonia dos Símbolos é o nome da série.

E entre o “Olho” e o museu, no espaço entre as escadas, uma exposição de fotografias chamada Instantâneos da Felicidade. São fotos de gente como Sebastião Salgado, Cartier Bresson, Édouard Boubat, Jean-Philippe Charbonier e mais uma patota. A Tropa de Elite da fotografia. Rá.

Claro que o texto de apresentação dessa exposição só podia começar com: “A felicidade... Afinal, o que é a felicidade?”.

RÁ!

Afinal o que é a felicidade? O que é o amor? O que é a solidão? Se não sabemos o que são essas coisas, como podemos saber se já não as encontramos antes ou se não estamos imersos nelas agora? E pra que você quer saber disso? Que diferença ia fazer?

Rá.

Das fotos, foi a de Martine Franck mostrando Tulku Khentrol Lodro Rabsel com seu tutor Lhaguel, no mosteiro Shechen de Bodnath, Nepal, 1996, a que mais me chamou a atenção. Não sei que são o tal Tulku nem o Lhaguel, mas curti a leveza, a alegria do momento. A simplicidade. A parceria entre tutor e aluno. A amizade entre passado e futuro. E qualquer outra idéia melosa do tipo.

Mas será que as fotos apresentam mesmo a felicidade daquele momento? No fim, será que não são apenas fotos, mostrando pessoas que não conhecemos e que supomos estarem felizes? A felicidade pode ser contida numa foto? As cores, o cheiro, o riso? A memória.

Felicidade.

Estamos morrendo, jovem.

Desligue essa droga de computador e vá viver um pouco.

Um comentário:

a Su. disse...

Sei lá como vim parar aqui. Mas como eu você não deletou a sua vida aos 5 anos de idade, e eu também queria falar sobre guarda roupas. ]
Você já assistiu aquele episódio do Muppet Babies no dia em que eles entraram no guarda roupa da Babá? Eu nunca consegui esquecer desse episódio, em que, se não estou enganada, eles também foram transportados para um mundo fantástico... (como sempre acontecia). A cena que mais marcou foi vê-los passando entre as meias listradas da babá.
a propósito, eu nasci em 1984.