sábado, novembro 17, 2007

A medida de todas as coisas

Persepolis - Teaser 2



Antropologia é muito legal. Acho que eu queria ter sido antropólogo.

Eu achava que a coisa devia ser bem simples: você observa o que um grupo, povo ou tribo faz e depois descreve o que viu. Na minha cabeça, imaginava viagens exóticas cheias de aventuras excitantes e contato com outros mundos completamente diferentes. Coisas do tipo Marco Pólo, sabe?

Mas daí comecei a olhar mais de perto a tal da antropologia e vi que o negócio era bem mais complicado do que eu pensava. BEM mais complicado.

Grosseiramente falando, a Antropologia é a ciência que se volta para o ser humano e suas relações culturais e sociais. Suas raízes mais remotas encontram-se na filosofia grega, mas como ciência mesmo a Antropologia passa a existir a partir do Iluminismo, no século XVII. Pelo menos, é o que dizem...

No século XIX a antropologia incorporou o conceito de evolucionismo proposto por Darwin. Essa antropologia entendia que os povos ao redor do mundo estavam encaixados dentro de uma linha de evolução e portanto existiam povos mais “adiantados” e superiores que outros. No topo da evolução, estava exatamente a civilização européia, que por sinal tinha inventado toda a teoria. Assim, a antropologia era principalmente um estudo dos “povos inferiores” e a justificativa “científica” do domínio exercido pelos europeus.

Mais tarde, ao longo do século XX, começaram a surgir outras perspectivas para a antropologia. Surgiam novos pesquisadores e novas idéias, muitas delas radicalmente discordantes entre si. Só o conceito de “cultura” recebe algumas definições bem diferentes, dependendo da corrente antropológica que se segue.

Uma das questões interessantes é o observador. O tal antropólogo. Ao observar os costumes da “tribo” estudada, freqüentemente acontece o conflito entre a formação e perspectivas culturais do observador e do observado. Assim temos relatos que são carregados de juízo a respeito dos observados, imputando-lhes características como “atrasados”, “ignorantes”, “selvagens” e outros termos do tipo. A referência sempre é a formação do observador, que é considerada como a mais correta e justa.

(Engraçado como às vezes acontece o contrário. Há vários relatos de antropólogos que vão estudar uma determinada comunidade e acabam “absorvidos”. Simplesmente não voltam mais para a civilização. Essas histórias são divertidas, gosto muito delas...)

Enfim, a Antropologia é bem mais do que estudar o outro, o desconhecido, aquele cara estranho que vive naquele país lá longe, mas ainda é esse aspecto que mais fascina. Os relatos das viagens exóticas, as tais diferenças culturais.

Acho que é esse fascínio que explica o sucesso de vendas de dois livros: O Livreiro de Cabul (de Asne Seierstad, editora Record) e O Caçador de Pipas (de Khaled Hosseini, editora Nova Fronteira). Ambos têm como cenário o Afeganistão. O Livreiro de Cabul é uma espécie de diário de viagem da jornalista norueguesa que conviveu três meses com uma família afegã. O Caçador de Pipas é uma ficção escrita por um afegão, com toques autobiográficos. Não li nenhum desses livros...

Mas li os álbuns Persépolis (de Marjane Satrapi, editora Cia das Letras) e Pyongyang (de Guy Delisle, editora Zarabatana Books), quadrinhos que abordam essa temática do “olhar sobre o outro”...




Se eu for dizer que isso é Antropologia, alguém pode querer me bater. Por outro lado, se eu disser que isso não tem nada a ver com Antropologia, também não vou estar correto. O que quero aqui não é defender essas obras como um relato antropológico, mas sim fazer umas observaçõezinhas interessantes a respeito delas.

Pyongyang é, semelhante ao Livreiro de Cabul: um livro de relato de viagens (e mais uma pessoa que fala mal de quem a hospedou... hahaha). Só que em quadrinhos. Com desenhos. O autor é Guy Delisle, um animador canadense que viaja para Pyongyang, capital da República Popular Democrática da Coréia do Norte (um dos três países que compõem o tal eixo do mal do George Bush). Lá, por dois meses, ele supervisiona a produção de uma série animada produzida por um estúdio francês e executada pelos coreanos.

Acontece que a Coréia do Norte é um país comunista sob um regime totalitário, liderado por uma figura bem bizarra, o tal Kim Jong-Il, que herdou o título de “Querido Líder” de seu pai, Kim Il-Sung. Muitos consideram a Coréia do Norte a única dinastia stalinista do planeta.

Delisle descreve um país extremamente opressivo. Há um contraste assustador entre os grandes monumentos feitos em honra aos dois Kim e a pobreza do país. São diversos episódios que mostram situações completamente absurdas. Durante a noite, não há energia para iluminar toda a capital e apenas os monumentos recebem luz, destacando-se entre todos os prédios mergulhados na mais completa escuridão. A idolatria aos dois líderes está presente em todos os cantos. Além dos monumentos, há placas, outdoors, músicas nos rádios, idolatrando aos Kim. Todas as salas apresentam fotos dos dois. Todos os habitantes usam um brochezinho com a foto dos dois.

Pelo menos, segundo Delisle.

O fato de ele levar na viagem o livro 1984 de George Orwell e citar diversos trechos não é gratuito. A perspectiva de Delisle é a nossa perspectiva ocidental. Ele não consegue compreender como as pessoas parecem realmente acreditar nos slogans do governo e na “santidade” de Kim Jong-Il. Na descrição de Delisle, há o medo e a opressão constantes, além de toda uma espécie de fanatismo que cerca a figura do líder. Kim Jong-Il é o próprio Grande Irmão do livro de Orwell.

Constantemente acompanhado de “tradutores” e “guias”, Delisle é levado a visitar diversos monumentos e construções. Não encontra mendigos nem deficientes nas ruas. Segundo ele, “todos parecem estar ocupados o tempo todo”. A maneira como uma mulher coreana, técnica de animação, canta as músicas em homenagem a Kim Jong-Il (que não são poucas) lembra o fervor com que certos evangélicos cantam seus hinos.

Pela ótica de Deslile, a Coréia do Norte é um grande delírio, a materialização da distopia idealizada por Orwell.

Entretanto, Deslile em nenhum momento se despe de seu ponto de vista de rapaz ocidental. Tudo é medido pelos valores importantes à ele. Assim, o fato das pessoas não conhecerem Bob Marley na Coréia do Norte torna-se mais um absurdo desconfortável. Ele não se permite tentar entender o que realmente passa pela cabeça dos poucos coreanos com que entra em contato. Mas vamos ser justos com Guy: o idioma e a própria atitude desses coreanos não ajuda muito.

(Curiosamente, é justamente o fato do estúdio estatal coreano apresentar mão de obra barata para a produção das seqüências de animação que torna a Coréia uma opção atraente para os estúdios ocidentais. Isto é, Delisle critica o regime, mas não vê nenhum problema em se aproveitar da mão de obra fornecida por esse regime...)

Enfim, Guy Delisle é só uma pessoa (como eu) criada numa cultura onde liberdade e democracia são palavras ligadas a valores fundamentais (ou assim acreditamos). Asne Seierstad, a autora de O Livreiro de Cabul, também tem esse perfil. Mais do que relatar suas viagens e o contato com outras culturas, Delisle e Seierstad julgam essas culturas de acordo com seu próprio referencial. E assim o fazem também seus leitores, entre os quais eu me incluo.

Daí parece se formar uma espécie de “gênero”, onde o relato de viagens parece se tornar uma espécie de “circo de aberrações”, onde culturas e visões de mundo diferentes das nossas são apresentadas como uma espécie de curiosidade, uma atração de espetáculo. Mais ou menos como o Globo Repórter vem fazendo nos últimos 30 anos...

O que eu questiono é o fato de comprarmos esses relatos como expressões fiéis da realidade. Não nego as questões de opressão e brutalidade com que vivem as pessoas nesses países distantes, mas o que me incomoda é o modo como esses relatos e histórias constroem dentro de nossa cabeça uma visão onde nós mesmos somos os certos e justos e os outros são coitados vítimas de homens maus. Quero dizer que as coisas são bem mais complicadas do que isso.

Guy Delisle e Asne Seierstad eram estrangeiros que passaram um tempo em um país e contaram suas experiências. Por outro lado, Khaled Hosseini (O Caçador de Pipas) e Marjane Satrapi (Persépolis), nasceram e cresceram dentro do universo de relações que descrevem, e portanto apresentam uma outra perspectiva. Ou não?

Não li O Caçador de Pipas, então vou falar de Persépolis.


Marjane Satrapi nasceu em 1969 na cidade de Rasht e cresceu em Teerã, capital do Irã (ei, esse é outro país do eixo do mal de George Bush).

Atualmente ela vive em Paris e sua trajetória para chegar à cidade luz está descrita nos quatro volumes de Persépolis. Os dois primeiros álbuns mostram a infância de Marjane.

Ela tinha nove anos quando aconteceu a revolução que depôs o rei e instaurou o governo islâmico. Para começar, a menina Marjie se viu obrigada a usar o véu, como todas as outras mulheres islâmicas. Em seguida, o Liceu Francês onde estudava foi fechado, para evitar o contato com os idiomas do “capitalismo decadente”. Em seguida, veio a longa guerra com o Iraque (por sinal, o terceiro país do eixo do mal).

Satrapi era filha única de uma família bem posicionada economicamente e teve uma educação que favorecia as idéias liberais. Aos dez anos ela lia “Materialismo Dialético em Quadrinhos”, tendo contato com as figuras de Descartes e Marx (“Materialismo Dialético em Quadrinhos”??? Uau!)

O dinheiro e a postura liberal e rebelde da família propiciaram uma perspectiva diferente para Marj. Em Persépolis, é com essa perspectiva que ela conta suas memórias, narrando muitas situações interessantes. Ao mesmo tempo em que o regime islâmico oprime e impõe severas regras de comportamento, as pessoas reagem em passeatas e, em um segundo momento, adaptam-se. Adotam uma postura pública, comedida e de acordo com as exigências do governo, mas dentro de suas casas fazem festas (que eram proibidas), enfeitam-se, bebem, escutam músicas estrangeiras.

Ainda criança, Marjane tem contato com a morte. Sua amiga morre em um bombardeio, seu tio é executado pelo novo regime. Aos 14 anos, desesperançados com a situação do Irã, consumido pela guerra e pelo governo opressivo, os pais de Marjane a convencem a ir estudar na Europa.

Esse é o tema do volume 3 e é um dos mais interessantes da coleção. Na Áustria, Marjane tem contato com a cultura ocidental e é completamente atordoada pelo choque com os costumes e referências de seus novos amigos. Agora é a perspectiva do “outro” olhando para “nós”. Por um período Marjane fica abrigada em uma pensão dirigida por freiras. A experiência é péssima e a menina descobre que extremismos religiosos são sufocantes em qualquer parte do mundo. Por 6 anos ela estuda num colégio de língua francesa e tem contato com punks, roqueiros, maconheiros, homossexuais e diversos tipos que seriam impensáveis (e inviáveis) em sua terra natal. As atitudes de seus amigos, principalmente com respeito à sexualidade, a chocam tremendamente. Afinal, apesar de tudo, Marjane tinha construído seus referenciais em uma sociedade muito mais conservadora. Ela tem crises de identidade, sente-se perdida, não consegue acompanhar os jornais de tv que mostram os bombardeios em sua cidade natal.

Por fim, é uma desilusão amorosa que leva a moça a uma crise violenta. Por três meses ela dorme nas ruas, durante os dias mais frios do ano. Acaba sendo internada com início de pneumonia. Tendo alta, volta para casa. Tem 20 anos.

A readaptação à vida em sua terra natal é o tema do quarto volume. E não é uma readaptação bem sucedida. Marjane se casa e entra na faculdade de artes, mas a repressão constante, principalmente sobre a figura da mulher, a faz abandonar definitivamente o Irã. Ah, claro, ela também se divorcia.

Os álbuns de Persépolis tem um tom fortemente autobiográfico, mostrando sempre o ponto de vista da moça a respeito do mundo e das relações ao seu redor. Mescla subjetividade com comentários políticos bem definidos. A série concedeu à Marjie alguns prêmios, entre os quais o de melhor HQ na Feira do Livro de Frankfurt, o maior evento literário do planeta.

Há pouco tempo atrás, em Paris, terminou a produção do desenho animado longa-metragem baseado em Persépolis. O desenho já estreou criando polêmica, mas foi bem recebido em Cannes. Lá no começo dessa postagem está o trailer desse desenho, que é um barato. Gosto do modo como eles usam a musiquinha The Eye of Tiger. Hehehe.

Pyongyang e Persépolis tem como ponto comum um relato sobre pessoas e lugares que são muito diferentes do nosso. A principal diferença entre essas obras está na condição de seus autores. Embora o álbum de Guy Delisle seja muito bem escrito, cheio de referências e piadas bacanas, Marjane parece ter uma vantagem sobre ele pela sua condição de “nativa”. Mesmo sendo filha de uma família privilegiada, Marjane ainda faz parte do povo de que fala e consegue considerar os outros como pessoas próximas, com suas próprias idéias e incoerências. Talvez por fazer parte da “tribo” e por ter um contato com a cultura ocidental, Satrapi consiga construir uma ponte de mão dupla entre as duas visões de mundo.

Enfim, são álbuns bem legais.

Vale a pena conferir.


A verdade, e principalmente a própria razão humana,
é criada pelos indivíduos no decorrer de sua interação.
Daí a frase do filósofo sofista Protágoras:
"O homem é a medida de todas as coisas".

4 comentários:

racg68 disse...

Você deveria é dar ouvidos à sábia Marilda e pensar com carinho na possibilidade de uma carreira jornalística.

racg68 disse...

Tenho um monstruoso problema com a antropologia, seu pouco caso com a história. Pouco caso não, absoluto desprezo pela história. Para um antropólogo os aspectos da criação de uma tradição não importam.

"Racionalidade a posteriori - Todas as coisas que vivem muito tempo embebem-se gradativamente da razão, a tal ponto que sua origem na desrazão torna-se improvável. Quase toda história exata de uma gênese não soa paradoxal e ultrajante para nosso sentido? O bom historiador não contradiz continuamente, no fundo?"
Nietzsche, Aurora 1:1.

Liberland disse...

Hmm... jornalismo...

racg68 disse...

É, jornalismo.
Porque você não pega alguns de seus textos do blog, como este, envia a um jornal?
Eu acho que você tem perfil para a coisa.
Se você quiser lhe apresento um amigo da Gazeta.