quinta-feira, novembro 08, 2007

Solidão

Ontem eu tirei uma hora pra vadiar.

Vadiar, andar a esmo, sem nenhum lugar especial pra ir, sem pressa, sem nenhuma pretensão.

Estava cansado, muito cansado, de ficar sentado, de ficar debaixo de um teto. Esperando um camarada pra beber, achei melhor esperar andando, com ar na cara e vendo pessoas. Era fim do dia e eu zanzava pelo pátio do Cefetão. Um grupo de teatro fazia uns exercícios de dança no meio do pátio. Ao redor, o pessoal que tinha vindo pro Simpósio se reunia em grupinhos, com suas malas "verde e roxa". Eu tinha participado da organização do simpósio, tinha apresentado artigo e assistido conferências e essas coisas. A cabeça estava cheia e pesada. Daí tirei uma hora de vadiagem, pra olhar tudo aquilo como se eu não fizesse parte, pra olhar sem interesse e sem compromisso. Pra ficar de boa.

E é engraçado como a gente acaba percebendo ou achando coisas ao nosso redor quando abaixamos as defesas e diminuímos o ritmo. Foi vadiando que eu parei na frente do edital. Meu, fala sério, quem para em frente de edital hoje em dia? A idéia de edital me parece meio anacrônica nos dias de hoje, com e-mail e internet e o escambau. Quando você quer saber alguma coisa, você procura no Google. Informações importantes te chegam via e-mail ou você descobre nos sites de notícia. Um quadro de feltro coberto de papéis pendurado pelos corredores parece coisa muito distante no tempo.

Coisa surreal, porque esse edital não era um desses editais "úteis", daqueles com oferta de emprego ou a página do jornal com a programação de cinema ou resultado de vestibular. Era um editalzinho pequeno e em cima do feltro verde tinha poucos papéis. Um no topo que estava escrito "Humor e Pensamentos" (acho que era o "título" daquele espaço). Daí abaixo uma tira xerocada do Calvin e Haroldo e um texto, supostamente de autoria do Arnaldo Jabor.

Sabe, às vezes eu procuro por palavras, por uma seqüência de idéias que consigam explicar para os outros e, principalmente, pra mim mesmo, o que se passa pela minha cabeça. Verbalizar essa estranha sensação, pôr um nome nessa coisa estranha que está dormindo nas minhas entranhas e que de vez em quando acorda e se levanta pra beber água e posso sentir seus movimentos, seu peso, todo o seu peso, dentro de mim.

E esse texto serve perfeitamente para o momento que vivo. Sei lá, parece que o cara me viu no pátio, me chamou, pôs a mão no meu ombro e disse "ME ESCUTE!!!"

E falou:

Uma vez Renato Russo disse com uma sabedoria ímpar: “Digam o que disserem, o mal do século é a solidão”. Pretensiosamente digo que assino embaixo sem dúvida alguma. Parem pra notar, os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias. Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam sozinhas e saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos. Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos “personal dance”, incrível. E não é só sexo não, se fosse, era resolvido fácil, alguém duvída?

Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão “apenas” dormir abraçados, sabe essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega. Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção.

Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como voltar a “sentir”, só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós.

Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos ORKUT, o número que comunidades como: “Quero um amor pra vida toda!”, “Eu sou pra casar!” até a desesperançada “Nasci pra ser sozinho!” unindo milhares ou melhor milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.

Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos. Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa.

Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega.

Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí? Seja ridículo, não seja frustrado, “pague mico”, saia gritando e falando bobagens. Você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta mais (estou muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso à dois. Quem disse que ser adulto é ser ranzinza? Um ditado tibetano diz que "se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele?". Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é out, que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me aventurar a dizer pra alguém: “vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida”.

Antes idiota que infeliz!

Muito fofo.

Eu parei pra ler isso. Parei no pátio, diante do edital.

Mais tarde, em casa, coloquei umas palavras-chave do texto no Santo Google e achei uma série de referências a ele em outros blogs. É provavelmente o tipo de texto que se envia por e-mail, naqueles spans irritantes. Dificilmente eu leria esse texto, porque geralmente nem abro esses e-mails cheios de boas intenções e títulos como "UMA LINDA LIÇÃO DE VIDA" precedidos por um "(Fw):" no espaço de "assunto" do e-mail.

Independente da questão da autoria ou da qualidade, esse texto acabou traduzindo muita coisa que passava pela minha cabeça. Discordo quanto à "Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega". A solidão não é uma questão de escolha, submetida à moda. Estar ao lado de alguém não é necessariamente estar acompanhado.

Mas, se for parar pra pensar, talvez a solidão seja uma apenas uma ficção. Uma invenção tão grande quanto o amor. Uma história que a gente finge viver. Uma camisa que a gente veste. Talvez tudo seja uma questão de fé. Talvez tudo seja muito simples, e realmente só seja preciso não pensar. Muito.

Meu problema com a solidão é essa dificuldade em entender o que ela significa (ou a teimosia em tentar entender). É a dificuldade não só em assumi-la, mas aceitá-la. Simplesmente aceitá-la.

Esse tabu da solidão.

Esse medo de deixar alguém entrar.

Esse medo de assumir que não há ninguém pra deixar entrar.

Nenhum comentário: